Ana Maria da Costa Leitão Vieira  [1] 

Em conversa com meu filho, o fotógrafo Tuca Vieira, que iniciou sua carreira trabalhando no MIS, falávamos de cidades e urbanismo sob o ponto de vista da museologia e da fotografia.

Há muito que me interesso pelos museus de cidade. Interassa-me a cidade como ente vivo, espaço e produto das relações sociais e de construção de identidades. Isso começou quando eu desenvolvi o projeto do Museu da Cidade de São Paulo, projeto premiado com menção honrosa pelo ICOM Brasil. Em 1985, vejam vocês.

Tuca e eu somos viajantes em toda a acepção delirante da palavra.

As cidades, principalmente as antigas e medievais são percebidas pelo senso comum como museus a céu aberto. As primeiras que me intrigaram foram as cidades européias. Preservadas ou restauradas, com suas histórias pesquisadas, informações organizadas e expostas, elas são, de alguma forma, musealizadas.

Eu atribuía essa musealização à consciência de preservação e a política de turismo dos europeus. Meu entendimento foi sendo ampliado quando conheci cidades orientais como os hutongs na China e algumas aldeias russas. Um grande momento de reflexão me aconteceu ao conhecer a cidade de Havana em Cuba que possui a maior extensão de patrimônio arquitetônico colonial preservado das Américas. Cuba aboliu a propriedade privada em 1959. Com isso, a especulação imobiliária, maior inimiga da preservação das cidades, tornou-se inexistente na ilha.

Povos originários na África como também ilhéus e indígenas em suas aldeias, têm na transmissão oral hereditária a preservação de sua história ancestral. Este foi outro grande momento de reflexão e a demonstração definitiva do fenômeno de preservação e transmissão de valores culturais.

Há um sentido humano universal de preservar os signos culturais como meio de conhecer e compreender a dinâmica que move e dá sentido a vida de cada um de nós, do ocidente ao oriente.

Na aldeia a história é comunitária e endógena, ou seja, construída e transmitida por e para um povo. Se na aldeia todos se conhecem, o que reforça a identidade comum, na cidade moderna o estranhamento e as diferenças tornam as construções culturais mais complexas. Seus signos estão estruturados como camadas sedimentadas, muitas vezes invisíveis, à espera de um olhar arqueológico. Construídas na maioria das vezes a partir de um povo originário sedentário se desenvolvem como resultado das migrações humanas, determinadas pelos mais variados motivos como conflitos étnicos, acidentes naturais, questões econômicas, etc.

As cidades não podem ser musealizadas apenas como artefato. A cidade morta é ruína. Musealizar cidades é desvelar e dar expressão à dinâmica das relações sociais, em permanente movimento de destruição e construção de signos, que se sedimentam, se superpõem, ou se mesclam.

Esse é o desafio da museologia e da fotografia de cidades.

Por outro lado, musealizar é também construção cultural com-temporânea, ou seja, marcada e contaminada no tempo em que ela se dá.

Sabemos que os museus partem historicamente da musealização das coleções particulares da elite proprietária e historicamente incorporaram a histórias e signos comunitários, populares, políticos, etc.

A ação de musealizar acrescenta um novo e extemporâneo componente cultural na própria história da cidade. Trata-se aqui de compreender como elas foram preservadas. Se o sentido de preservar é universal o mesmo não acontece com a ação de musealizar. A ação de musealizar não é neutra. E esta é a questão que me intriga.

Conversando com o filho, ele representante de outra geração que não a minha, vejo-me diante da seguinte questão: o que é para mim e o que é para as próximas gerações o ato de preservar. Ele observa que as cidades européias foram “congeladas” para turistas como bens de consumo em nossa modernidade capitalista com seus souvenirs made in China. Ao filho fotógrafo interessa captar aquilo que representa ou o que expressa a vida cidadã, ou melhor, a dinâmica das vivências na cidade. Ele procura as cidades vivas e percebe a artificialidade das bonitinhas e palatáveis.

Há uma impossibilidade ontológica na tentativa de preservar a vida histórica com todos os seus componentes.

Seriam a musealização e os museus ações inglórias, sonhos onipotentes?

É preciso que se saiba que a musealização das cidades será sempre artificial. Como os filmes e os livros históricos, diferente do documentário, é a imaginação do autor que se impõe ao público como mediação do real.

Recuso-me a acreditar que passei minha vida em uma atividade inglória.

Corrigindo rotas nessas reflexões necessárias, passo pela idéia de que a própria história e, em última análise a memória seriam inglórias se pretendessem conter e expressar a realidade dos fatos históricos.

Sou salva recuperando a própria idéia de tempo, de memória e de criatividade. Como um ciclo, chego aos elementos essenciais da museologia.

Em última análise bastaria confessar que me acompanha, nessas reflexões, influências filosóficas de minha formação acadêmica, de forma especial a Fenomenologia segundo a concepção Husserliana. Estender-me nesse assunto será objeto de um próximo artigo.

A museologia não é ciência exata, embora se utilize (em algumas) delas em suas ações de conservação de acervos. A ação de musealizar tem uma dimensão artística. Na tentativa de dar expressão aos seus objetos museologicos, ela cria. Assim ela quer provocar a imaginação de seu público. Por si só ela não realiza o passado, mas na imaginação do público o sonho é glorioso.

Não basta vivermos o aqui e agora, mas, porque morremos e não somos eternos, construímos eternamente a eternidade.


[1] Museóloga COREM4ªR Nº110B

 

 

 

 

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