José Cláudio Alves de Oliveira [1] 

Na ciberenciclópedia, o termo “sustentabilidade” é conceituado como “uma característica ou condição de um processo ou de um sistema que permite a sua permanência, em certo nível, por um determinado prazo”. E o conceito é preciso quando diz que nos últimos anos “este conceito tornou-se um princípio, segundo o qual o uso dos recursos naturais para a satisfação de necessidades presentes não pode comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras, e que precisou do vínculo da sustentabilidade no longo prazo, um "longo prazo" de termo indefinido, em princípio”. (Disponível no http://pt.wikipedia.org/wiki/Sustentabilidade. Acessado em 26 de abril de 2015).

Seguindo o conceito, com tão atualização, a enciclopédia nos diz que a sustentabilidade “também pode ser definida como a capacidade do ser humano interagir com o mundo, preservando o meio ambiente para não comprometer os recursos naturais das gerações futuras”. O texto ainda demonstra ser o conceito “complexo, pois atende a um conjunto de variáveis interdependentes”, mas que podemos “dizer que deve ter a capacidade de integrar as Questões Sociais, Energéticas, Econômicas e Ambientais”. (Idem)

A partir deste conceito, tão em voga, é que, por uma natureza da “nova museologia” lá dos anos 1990, das atuais concepções museísticas sociais e do museu frente ao turismo e comunidades locais, podemos imaginar e perceber claramente o quão atualizado está o museu frente às necessidades hodiernas que clamam pela sustentabilidade.

Foi na década de 1980 que os museus passaram a ter uma aproximação maior com o público, diversificando-se em seus gêneros e tipos arquitetônicos. Do convencional, proporcionaram outras formas, além do Museum bus, como os Museus ao Ar livre e Ecomuseus. Na verdade, uma arquitetura que se preocuparia, também, com o entorno, onde o edifício não seria o primeiro e principal estágio, mas toda a situação arquitetônico-paisagística e social que circunda o plano museológico. Desse sentido de museu surgiram o Museu ao ar livre; o Museu de sítio, o Ecomuseu, o museu comunitário e, mais recentemente, o museu de território. Essa época foi o período em que o “novo museu” abraçou, finalmente, o termo “comunidade” não-científica. Seriam os primeiros passos para o que hoje entendemos entre museu e sustentabilidade.

O Museu ao Ar Livre, nas precisas palavras da Marlene Suano (1986, p.66), “consiste, na maioria dos casos, de um conjunto de edifícios que ilustram o modo de vida de uma dada comunidade em uma determinada época do passado: residências, escolas, igreja, moinho, galpões de artesanato, cervejaria, matadouro etc”, cujo projeto principal é criar um ambiente em tudo parecido com o real, evitando vitrines, legendas, enfim, tudo o que possa lembrar o aparato tradicional de um museu. A filosofia é um pouco romântica, pois tenta reviver o passado aplicando a estética até mesmo nos moradores, que se vestem como no passado. Todavia, o projeto é localizado em bairros ou em regiões distantes do centro da cidade, o que faz crer na preservação, não do núcleo citadino, mas do entorno, e em periferias, o que possibilita pensar nos locais não “fixados pelos roteiros turísticos” mais badalados.

Os museus de sítio, também denominados Site Museum ou Museu in situ, são aqueles trabalhados pela arqueologia e mantidos para exposição diante da prospecção. Podem ser num sítio comum, distante do centro da cidade, como engenhos ou fazendas antigas, ou estarem próximos do centro, porém com trabalho arqueológico e museográfico concomitante. O objetivo é a preservação dos sítios e criação de projeto museográfico in loco para fins didáticos e turísticos, cuja meta científica principal é o trabalho arqueológico, aberto, tal qual maravilhosamente projetado pelo Doutora Niède Guidon, na Serra de São Raimundo Nonato, no Piauí. O museu, além da prospecção, do “turismo sustentável”, contempla, também, a fauna e a flora de entorno.

Já o ecomuseu se diferencia dos dois exemplos acima. A proposta é não manter um observador passivo, mas sim aquele que, além de visualizar, possa entreter nos campos da história dos povos que viviam ou vivem no local e do ecossistema que circunda a região. A grande vantagem dessa estrutura de museu é a sua efetiva contribuição na preservação de tradições e costumes de uma comunidade pela valorização in loco e não pela retirada de objetos “importantes” de seu contexto de uso para o “local privilegiado” das vitrines do museu.” (SUANO, 1986, p.89). Vale, pensar, nesse sentido, em todo o espaço como objeto. Uma noção que abriga os caminhos, as casas, a fauna e a flora. Uma boa e atual ilustração aqui pode ser do Ecomuseu Vinhedos do Mundo, no Rio Grande do Sul, que abriga uma coleção ampelográfica privada, em campo, com cerca de 400 variedades de uvas de 30 países, uma enoteca, um restaurante e um entorno natural com uma diversificada coleção botânica de espécies nativas, exóticas, ornamentais, frutíferas e medicinais, todas identificadas e catalogadas. E em alguns dos seus caminhos, animais domésticos e silvestres soltos e livres “em simbiose perfeita com a presença humana”. Uma proposta que traz à sociedade a relíquia, a natureza e a tradição continuada. (sic http://www.dalpizzol.com.br/ecomuseu/atrativos. Acesso em 26 de abril de 2015).

O ecomuseu foi concebido, desde os idos 1980, para uma aproximação temática entre história, ecossistema e sociedade hodierna, aquela que ainda mora no espaço decretado como ecomuseu, que adota os mesmos subsistemas dos museus tradicionais, com o diferencial no gênero, que pode tender ao estudo mais aproximado do bem natural ou, ao contrário, do bem artificial, criado pelo homem, assim sendo o patrimônio histórico. (BOULLÓN, 1995, p. 96, 161).

O museu comunitário, que não depende do espaço amplo, mais extensivo geograficamente, tem a proposta de um espaço social de encontro em torno do patrimônio como gerador de sentido da população local e circunvizinha, verificando suas múltiplas funções sociais, onde se deve fomentar os processos de identificação cultural e de melhoramento da qualidade de vida dos grupos sociais, reforçando os laços comunitários e gerando o desenvolvimento local, com a possibilidade das trocas culturais na aproximação com o “turismo sustentável”.

Nesse sentido o museu comunitário se apresenta como um espaço onde se pode agendar compromisso de reorganizar o patrimônio, transformando-se em um centro de gestão cultural com encontros e diálogos, como um dinamizador do entorno comunitário, sendo a instância onde convergem os distintos atores culturais e fomenta a exploração, o descobrimento, as trocas intelectuais e as renovações.

Apesar de uma aproximação filosófica muito grande, há diferenciações entre o ecomuseu e o museu comunitário. O primeiro tem um envolvimento extensivo com o território e procura a preservação paisagística e histórica, com ou sem a comunidade originária. Ao contrário, o museu comunitário verifica, em primeiro plano, uma história hodierna da comunidade que ocupa o território, buscando as raízes do passado e os laços e produções culturais para a preservação do patrimônio e atividades que possam perpetuar o fazer artístico, a história cultural e as produções econômicas.

Do museu tradicional, denominado museu casa, para o museu comunitário, aconteceu um ponto chave que não se cogitava na Idade Moderna, não foi possibilitado no início da Idade Contemporânea e foi esquecido quando se iniciou a sistematização dos media museológicos no início do século XXI. Esse ponto chave é a participação da população, agora não mais passiva, que apenas assistia às exposições. A interatividade avançou para além da metodologia utilizada nos ecomuseus. O museu comunitário se integrou totalmente a uma determinada comunidade, onde ela é partícipe do fazer museológico e das suas próprias ações culturais.

Dos museus comunitários surgem algumas poucas ideias dos museus didáticos comunitários e, mais atualmente, os museus de território. Os primeiros são “uma tentativa de superar as barreiras até hoje existentes, em nossos países, entre comunidade e técnicos”. Pois “muitas pessoas concordam com a ideia de que os museus são elitistas, já que a maioria está feita e dirigida para a classe dominante e, por isso, seus textos, sua linguagem, sua mensagem é inteligível ao povo, que passa a encará-los como algo obsoleto. O operário, o camponês, o indígena, enfim, as classes marginalizadas do processo histórico cultural, tem pelas condições de vida oferecidas a eles, uma visão prática das coisas”. (CARVALHO, 1992, p. 5).

O museu de território traz a mesma sintonia, diferenciando com a criação de um núcleo central que gerencia núcleos próximos ou distantes numa mesma região. A ideia é perceber que numa região abrigam possibilidades étnicas e ecológicas diversas, e que por isso, acervo e formas de preservação dar-se-iam de formas díspares. Um excelente exemplo está na Bahia, no MAST – Museus do Alto Sertão. (LIMA; OLIVEIRA, 2014).

Esse momento do texto aqui apresentado – no contexto do museu e da sustentabilidade – é de suma importância para apreender a questão da integração homem-história-cultura-meio ambiente. O salto qualitativo que aconteceu do museu oitocentista para o museu de território é muito grande, o que significou quebras de barreiras estéticas, filosóficas, ideológico-sociais, comportamentais e físicas. Onde o foco deixou de ser somente o olhar sobre o objeto e a semiótica, mas, também, o olhar sobre o entorno e a qualidade de vida da fauna, da flora e da sociedade.


[1] Universidade Federal da Bahia – UFBA. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Referências:

  • BOULLÓN, Roberto C. Planificación del espacio turístico. 3 ed. México: Trillas, 1995. 96-161. il.
  • CARVALHO, Ione. Os museus didático-comunitários: fortalecimento da identidade cultural e sua função social hoje. In: Interdisciplinary and Complementarity in Museum Education work and School Programmers. Conpenhagen:UNESCO/ICOM, 1999. 19 p. (Digitado do original).
  • ECOMUSEU VINHEDOS DO MUNDO. In: http://www.dalpizzol.com.br/ecomuseu/atrativos. Acesso em 26 de abril de 2015.
  • LIMA, Zamana B. S.; OLIVEIRA, José C. Alves de. Ciberespaço: um possível caminho para o patrimônio cultural. O caso do Museu do Alto Sertão da Bahia. In: XXXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Foz do Iguaçu, PR – 2 a 5/9/2014. Disponível em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2014/indiceautor.htm#W. Acesso em 26 de abril de 2015.
  • SUANO, Marlene. O que é museu. São Paulo: brasiliense, 1986. 112 p. Il. (Primeiros Passos).
  • Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Sustentabilidade. Acessado em 26 de abril de 2015.

 

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