Juliana Monteiro [1] 

O objetivo do presente artigo é apresentar uma breve reflexão sobre a relação prática entre o tema estabelecido pelo ICOM para o ano de 2015 – a sustentabilidade – e uma atividade cotidiana do universo dos museus: a documentação de coleções. Essa reflexão será realizada a partir da perspectiva da Museologia e da Ciência da Informação, baseando-se em dois pressupostos inter-relacionados: o primeiro, de que a normalização é um processo necessário e básico para garantir uma boa organização física e informacional dos acervos, contribuindo para sua posterior disseminação. E o segundo, de que a normalização é também um passo necessário para a entrada definitiva dos museus na era das ações colaborativas que possuem como ponto de partida o compartilhamento da informação entre instituições. Nesse sentido, compreendemos que não somente a preservação está com um aliado a mais para sua execução, mas há também a otimização de recursos como tempo, equipes e dinheiro.

Primeiramente, é importante destacar que a documentação em museus é um trabalho difícil, meticuloso, detalhado e sistemático. Por sua própria natureza, é um processo contínuo, que não termina com o fim de inventários ou de projetos de pesquisa que abordam parcelas das coleções. Talvez seja essa uma das principais razões pelas quais muitos museus interrompem suas ações de documentação, tendo em vista a escassez de equipes, de estrutura física e tecnológica mínima e recursos financeiros. É necessário contabilizar também aqui problemas de gerenciamento de projetos, de origens diversas, que corroboram com a inserção da atividade de documentação em um segundo plano na ordem das prioridades.

Muitos também são os projetos de informatização de dados sobre e das coleções que ficam pelo caminho, por diversos motivos: ora porque o software desenvolvido não teve manutenção e simplesmente parou de funcionar, ora porque o funcionário que sabia nele mexer não está mais na equipe ou porque o software que foi adquirido no mercado não se enquadra tão bem às necessidades da equipe quanto se imaginou em um primeiro momento. E lá se vão mais anos, mais recursos para reativar sistemas descontinuados, mais tempo de equipes especializadas dedicadas a isso ou a começar um projeto novo, a partir do zero. Tais situações servem, portanto, para que refletirmos sobre o que a prática nos ensina a respeito desses acontecimentos e sobre o que a área profissional tem procurado realizar para evitar que os mesmos sejam mais frequentes do que gostaríamos de admitir.

É nesse ponto que a noção de sustentabilidade se enquadra na discussão em toda a sua amplitude. Entendemos que essa noção é importante para reforçar a ideia de que o apoio entre instituições - tendo por base a troca de informação e o intercâmbio de boas práticas profissionais -, no que se refere à documentação, é fundamental. Sejam os cenários marcados pela desagregação de dados sobre as coleções ou com maior controle e difusão de dados, os museus têm a oportunidade de fazerem mais e melhor se adotarem perspectivas mais cooperativas entre si.

Tradicionalmente, cada área do museu é entendida como eventual produtora de novas informações importantes para entendermos melhor as coleções que gerenciamos em benefício público. Desse modo, é possível afirmar que o público e a coleção sempre estiveram no foco central de atuação dos museus. Porém, há que se reconhecer que é ainda bastante comum encontrar esse mesmo público (ou públicos, devido a sua diversidade) sendo tratados de forma separada por cada setor, com parâmetros diferentes de busca pelas coleções e formas distintas de acesso e uso das mesmas. A falta de comunicação é um dos resultados mais diretos deste afastamento ou departamentalização excessiva dos museus, principalmente no que se refere à documentação e gestão da informação das e sobre as coleções.

Com o avanço do uso da internet e de alguns parâmetros advindos de novos marcos para a web, como a Web 2.0 e a WebSemântica, é perceptível a consolidação de uma mudança da postura dos públicos em relação às instituições de memória. Isso, por sua vez, tem contribuído cada vez mais para o questionamento da perpetuação dos “silos de informação” dentro dos museus. Agora, o que se percebe é uma tendência claramente voltada para a atuação integrada, considerando todos os dados produzidos pelos diferentes setores do museu como potencialmente informativos para a contínua pesquisa, comunicação e disseminação do patrimônio junto à sociedade. Além disso, há que se considerar que os dados produzidos pelos próprios públicos, por meio de redes sociais, interações com as equipes educativas, atividades de história oral e outros projetos de pesquisa, apenas para citar alguns exemplos, também vem colaborar com essa extroversão e – por que não? – gestão cada vez mais coletiva das coleções, feita de uma forma diferenciada.

Tal atuação integrada permite que se evite o desperdício de dinheiro, tempo e contribuições preciosas de funcionários e públicos na construção do conhecimento e dos sentidos acerca das coleções. É nesse sentido que se reforça a importância também da atuação cooperativa entre instituições, de modo a permitir a circulação de informações, com base em padrões de metadados e rotinas de intercâmbio de informação, por exemplo. Desse modo, essa nova tendência pode ser representada por exemplos como o portal Europeana, a iniciativa do CIDOC-ICOM na criação do esquema XML LIDO (Lightweight Information Describing Objects) e mesmo em projetos que se valem do princípio COPE (Criate Once, Publish Everywhere).

E no intuito de evitarmos desperdício ou projetos que simplesmente não se enquadram na realidade das instituições onde trabalhamos, é sempre necessário pontuar que qualquer processo de normalização e cooperação deve ser decorrente de planejamento prévio. Precisamos sempre definir qual será a nossa prioridade e qual delas será nosso foco de atenção e implantação, para evitar que uma abordagem que se ofereceria como uma ótima solução torne-se um problema no médio e longo prazos. Se a ordem do dia é pensar em estratégias de reaproveitamento de recursos, visando a sustentabilidade ambiental, financeira e intelectual, então planejar se torna, de fato, tarefa número um de todos aqueles engajados com tal proposta.

É possível dizer, ainda que nestas breves linhas, que é esse um dos caminhos possíveis que vislumbramos para os museus se consolidarem como instituições-serviços de informação, em que a documentação faz também parte de uma noção ampliada de sustentabilidade. É nesse processo contínuo de produção e reconstrução de sentidos e significados a partir da produção e reaproveitamento de conhecimento, de forma sustentável, normalizada e cooperativa, que os museus podem garantir cada vez mais a execução de sua função social nesse dinâmico e intenso século XXI.


[1] Museóloga pela UFBA. Especialista em Gestão Pública pela FESP-SP. Mestre em Ciência da Informação pela ECA-USP. Professora do curso técnico de Museologia da ETEC Parque da Juventude/Centro Paula Souza. Analista responsável pelo Núcleo de Preservação do Museu da Imigração do Estado de São Paulo. Coordenadora do Comitê de Política de Acervo dos Museus da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo entre 2008 a janeiro de 2015. Membro do CIDOC-ICOM.

 

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