Karla Estelita Godoy  

Quando situações polêmicas ainda não estão estabilizadas em um campo de estudos, entra em ação o que Bruno Latour – antropólogo, sociólogo e filósofo francês, cuja contribuição teórica privilegia a interação entre o discurso científico e a sociedade –chamou de “controvérsias”. Ele as considera fundamentais para que adentremos no mundo da “ciência em construção”, e não no da “ciência acabada”, pronta, com conhecimentos científicos e técnicos já assegurados.

É de se esperar que quanto maior o número de pesquisas que expressam dados quantitativos e análises confiáveis e quanto mais esses resultados forem disseminados na sociedade, maior também a tendência de serem aceitos e legitimados como verdades.

A citação e a reprodução dessas verdades por outros autores e pesquisadores fazem que este conhecimento se consolide como um fato. Esse é o caso, por exemplo, de várias investigações que levam a crer que o turismo seja uma atividade de inegável impacto positivo para os museus, uma vez que funciona como fator de desenvolvimento econômico e de valorização da cultura. Muitos estudos destacam a relação turismo e museus de modo a desconsiderar outros aspectos que se pronunciam através devozes contraditórias e do jogo de interesses financeiros, que resultam nos perigosos fenômenos da “privatização da cultura” (Wu, 2006) e da indústria cultural.

Assim sendo, entre as duas faces da ciência – a que já sabe e a que ainda não sabe –, talvez seja mais profícuo escolher aquela que nos oferece as controvérsias como “porta de entrada” (LATOUR, 2000), para discutir quando e em que medidas a atividade turística pode ser considerada sustentável ou insustentável em museus. Sem muitas dúvidas, é um percurso de desafios e que provoca incômodos, especialmente quando se abordam temas consolidados por profissionais das áreas em questão. Contudo os espaços de conflito e negociação podem produzir ambientes híbridos de grande efervescência para a construção de sempre novos e outros saberes.

Comecemos a pontuar, então, algumas controvérsias, considerando que o conceito de sustentabilidade, que constanos“Marcos conceituais do turismo” (BRASIL. MTur, 2007), documento oficial do Ministério do Turismo, e oriundo do World Commission on Environment and Development (1987), refere-se à capacidade de se “atender às necessidades da geração atual, sem comprometer os recursos para a satisfação das gerações futuras” (p.10). Aponta, ainda, que o turismo, para adquirir uma consciência sustentável, deverá ser “planejado e orientado visando ao envolvimento do turista nas questões relacionadas à conservação dos recursos que se constituem patrimônio”. (p. 10). De acordo com essas proposições, algumas controvérsias já podem ser apontadas, se compararmos o discurso oficial com algumas práticas existentes. O aumento de público em museus, provocado pela também questionável ideia de que, agora, os museus estão mais “acessíveis a todos” – como se acesso fosse algo a ser medido apenas quantitativamente –, nem sempre está de acordo com o que reza a referida cartilha. A inobservância da capacidade de carga nas instituições museológicas– no turismo, o termo refere-se “à capacidade que um determinado meio ou ambiente possui para suportar o afluxo de visitantes e turistas, sem perder as características de sua originalidade ou ter ameaçada a sua integridade’” (LOHMANN; PANOSSO NETO, 2008, p.420) –, por exemplo,pode causar tanto possíveis riscos à preservação dos bens culturais – entendendo-se que “preservar significa proteger uma coisa ou um conjunto de coisas de diferentes perigos, tais como a destruição, a degradação, a dissociação ou mesmo o roubo” (DESVALLÉES; MAIRESSE, 2014, p.79) –, quanto prejudicar a qualidade da visita.

Aglomerados de pessoas que disputam um cantinho, para enxergar uma obra de arte ao longe, muito provavelmente não estão desfrutando de experiência estética de qualidade, muito menos vivenciando um momento memorável, que acrescente um pouco mais do que a confirmação de sua ida ao museu, muitas vezes, obtida apenas através de uma fotografia de si mesmo com a obra embaçada ao fundo.

Um exemplo clássico é o Museu do Louvre. Seu diretor, Jean-Luc Martinez, afirmou em várias entrevistas que a instituição estava preparada para receber 5 milhões de pessoas, entretanto, nos últimos três anos, esse número se ampliou para 9 milhões. É impossível, portanto, que se considere sustentável, nos termos propostos, um turismo em massa, que leve multidões aos museus, sem que se estabeleçam medidas de adaptação a esta realidade, tanto por parte dos gestores do turismo, quanto dos gestores de museus. Não é uma equação simples apenas criar alternativas de fluxo para resolver o problema do “escoamento” de público, ou fazer dos museus um shopping de variedades, mas trata-se, sim, de se pensar desde o plano de “marketing” a ser empreendido até a elaboração de meios para que a atividade não se torne insustentável, gerando, por exemplo,mais custos de manutenção para a instituição museológica – quase nunca proporcionais ao lucro obtido com a visitação.

Um dano a uma obra de arte por problemas de segurança, de superação da capacidade de carga ou concentração desordenada de visitantes em algumas áreas, não equivale a quaisquer valores materiais oriundos do pagamento de ingresso ao museu. Isso sem contar que vários museus possuem entrada gratuita, e outros, mesmo pagos, não são subsidiados por essa receita.

Evidentemente, a inexorabilidade do fenômeno turístico e a desejável ampliação do hábito de se frequentarem museus como espaços de aprendizado, lazer e entretenimento são inegáveis no mundo contemporâneo. Como destaca Dominique Poulot (2013), quando cita as tentativas de “repovoar” os diversos espaços de arte, “a visita ao museu é uma atividade complexa, nem somente lazer nem apenas aprendizado, implicando maneiras de enunciar e pôr em prática determinados interesses e valores” (p. 139). Logo não se deve provocar essa ação inadvertidamente, sob pena de se cair na armadilha de entender aumento de público como prerrogativa de sucesso e de sustentabilidade para os museus. Antes, dever-se-ia contemplar, no plano museológico (CÂNDIDO, 2013) ou nos demais planos de gestão dos museus, estratégias que assegurassem a atividade turísticade forma viável e ajustada às demandas atuais, derivadas especialmente das propostas realizadas pelos próprios museus. Estudos sobre a qualificação dos museus para o turismo (GODOY, 2010, 2013, 2014) e sobre os diferentes tipos depúblicos de museus são bem-vindos para levantar controvérsias, alavancar discussões e para propor ações específicas, “com o intuito de direcionar e aperfeiçoar as formas de organização e comunicação das exposições.” (COELHO, 2012, p.344-345).

Contudo decidir se a atividade turística e o número excedente de visitantes causam mais benefícios ou danos aos museus pode parecer um aforismo esvaziado, especialmente no Brasil, em que são esporádicos e pontuais os episódios com grandes públicos. Mas todos os dias surgem desafios que colocam em xeque o turismo como atividade sustentável em museus. Então, para fazermos breve exercício que mapeie essas controvérsias, sugere-se confrontar o que seria da ordem do sustentável e do insustentável nessa relação, entendendo que sustentabilidade é algo que tem durabilidade no tempo, enquanto o contrário está relacionado a processos que se esgotam.

Considerar o público de turistas em museus uma massa homogênea não é sustentável; realizar pesquisas que identifiquem as diferentes necessidades e expectativas do público que visita a sua instituição museológica é sustentável.

Nortear as estratégias de ingresso do público apenas a partir de pressupostos econômicos, tornando a instituição um “museu-empresa”, não é sustentável; planejar ações que garantam o acesso ao espaço do museu como possibilidade de transformação social é sustentável.

Recepção de público tratada como equivalente à venda de ingressos é insustentável; acolhimento do público com base nos princípios da hospitalidade é sustentável.

Circuito expositivo asséptico e automatizado não é sustentável; visitação interativa e visita guiada personalizada para o público turista são sustentáveis.

Folheteria turística somente em idioma local ou com informações superficiais não é sustentável; informações e serviços disponíveis “online” ou presencialmente, com foco na excelência do atendimento aos turistas é sustentável.

Ampliar a capacidade de fruição nos museus apenas com a abertura de mais lojas e restaurantes é insustentável; despertar a sociedade para atividades menos consumistas, mais solidárias e que aproveitem os recursos de forma mais respeitosa e consciente é sustentável.

Diante dessas proposições, talvez a maior das controvérsias esteja no fato de se perceber que, para o turismo se tornar uma atividade sustentável em museus, são as instituições museológicas que deverão, primeiramente, criar tais condições. Partindo do princípio de que a sustentabilidade deve ser compreendida nas esferas ambiental, sociocultural, econômica e político-institucional (BRASIL. MTur, 2007), os museus precisarão empreender novos métodos de pensar e agir, promovendo o desenvolvimento sustentável (ICOM, 2015) e enfrentando, de modo corajoso e inovador,os desafios que o turismo lhes impõe na contemporaneidade.


Referências

  • BRASIL, Ministério do Turismo. Segmentação do Turismo: Marcos Conceituais. Brasília: Ministério do Turismo, 2006.
  • BRASIL. Ministério do Turismo. Coordenação Geral de Regionalização. Programa de Regionalização do Turismo. Roteiros do Brasil: Turismo e Sustentabilidade / Ministério do Turismo. Secretaria Nacional de Políticas de Turismo. Departamento de Estruturação, Articulação e Ordenamento Turístico. Coordenação Geral de Regionalização. – Brasília, 2007.
  • CÂNDIDO, Manuelina Maria Duarte. O Estatuto dos Museus e a exigência do Plano Museológico. In: Gestão de Museus, um desafio contemporâneo: diagnóstico museológico e planejamento. Porto Alegre: Medianiz, 2013 p. 110-112.
  • COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. 2 ed. [ver. e ampl.]. São Paulo: Iluminuras, 2012.
  • DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de museologia. São Paulo: Armand Colin; Comitê Internacional para Museologia do ICOM; Comité Nacional Português do ICOM. 2014.
  • GODOY, Karla Estelita. Turistificação dos museus no Brasil: para além da construção de um produto cultural. In: Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro, v. 42, p. 197-209, 2010.
  • ______. Fortificações como atrativo turístico: um estudo sobre o Museu Forte Defensor Perpétuo, em Paraty (RJ). Caderno Virtual de Turismo. Edição especial: Turismo em fortificações. Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.34-48, out. 2013.
  • GODOY, Karla Estelita; SANCHES, Flávio. Turistas online: produção, distribuição e qualidade das informações para o turismo em museus. In: II Seminário Serviços de Informação em Museus: o trabalho da informação em instituições culturais: em busca de conceitos, métodos e políticas de preservação. Organização: Gabriel Moore Forrel Bevilacqua. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2014.p. 209-219.
  • ICOM Portugal. Museus para uma sociedade sustentável – Dia Internacional de Museus 2015. Disponível em: <http://www.icom-portugal.org/destaqupropostaes,6,466,detalhe.aspx>.
  • LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
  • LOHMANN, Guilherme; PANOSSO NETO, Alexandre. Teoria do turismo: conceitos, modelos e sistemas. São Paulo: Aleph, 2008.
  • POULOT, Dominique. Museu e museologia. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.
  • WU, Chin-tao. Privatização da cultura: a intervenção corporativa na arte desde os anos 1980. São Paulo: Boitempo, 2006.

 

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