Luciennne Figueiredo dos Santos [1] 

Um museu sustentável promove a identidade e a consciência patrimonial nas comunidades regionais e nacionais a partir das imagens e memórias coletivas que darão forma ao novo museu, mediante ações conjuntas de resgate, conservação e melhor uso da difusão do seu patrimônio natural e cultural com uma verdadeira ação pedagógica voltada para o desenvolvimento.

A 9ª Conferência Geral de Museus realizada em Grenoble na França em 1971, registrou na sua Resolução nº 1 aspectos de transformação significativa para os museus, ao afirmar que “Os museus devem estar, antes de tudo, a serviço de toda a humanidade.”

Uma outra questão importante foi apontada nessa Conferência: “cada museu deve aceitar que seu dever junto à sociedade, envolve ações especificamente desenvolvidas para servir ao ambiente social específico dentro do qual opera” (ICOM, 1971, p.?).

Os museus precisam sair do lugar comum, mudar a forma como apresentavam suas exposições. O foco deverá ser a apresentação das questões das comunidades onde estão inseridos. A Nova Museologia define comunidade como

Totalidade de sentimentos, atitudes e interesses que unem os indivíduos de um grupo, o que lhes permitem atuar em forma coletiva, (...) Uso permanente de um espaço onde o grupo estabelece seus contatos e coerência interpessoal, que permite diferenciá-lo espacialmente de outros grupos (...) Unidade físico-econômica que se manifesta por agrupamentos de habitações, onde vivem famílias dedicadas principalmente a um atividade produtiva específica” (TÖENNIES, 1963, p.20 apud, DECARLI 1963 P.20).

Surge então o modelo de museu de vizinhança ‒ neighbourhoodmuseum ‒ que se propõe a construir e analisar a história das comunidades, desvelando suas identidades, utilizando-se das técnicas museológicas para solucionar problemas sociais e urbanos.

Museus fundamentam sua missão a partir da Pesquisa, preservação e comunicação, em interação, questionadas e problematizadas, deverão ser, pois, os vetores no sentido de se produzir conhecimento, assumindo o compromisso de contribuir com a construção de uma sociedade ética, mais eqüitativa e solidária. (SANTOS, 2000, p.4)

Museus são responsáveis pela preservação do patrimônio, e é necessário ressaltar que estamos falando de patrimônio integral, e para alcançar esse objetivo é fundamental que se tenha consciência de que será imprescindível a participação e a cumplicidade da comunidade.

Caberá ao Museu um trabalho e a iniciativa de aproximação com a comunidade, de capacitação sobre as questões relativas ao patrimônio, e da importância que as ações de uso responsável do patrimônio trarão para o desenvolvimento local. Dessa maneira, será possível vivenciar a inter-relação, indivíduo, meio ambiente e herança cultural.

Certamente, para que um museu seja sustentável, há de se desenvolver um programa que estabeleça objetivos, ações e metas e, sobretudo, se busque a aplicação de um processo de avaliação. Mas, aliado a isso torna-se imprescindível uma mudança de atitude e redefinição da maneira como o museu realiza o seu trabalho. (DECARLI, 2006, p.43-48)

Dois marcos importantes ocorrem na museologia em 1972: a Carta de Santiago e a recomendação de criação do Instituto Latino-americano de Museus. Na Carta de Santiago do Chile foram apresentadas várias recomendações à UNESCO, sendo a mais importante a definição e proposta de um novo conceito de ação dos museus: o museu integral, destinado a proporcionar à comunidade uma visão de conjunto de seu meio material e cultural e, para tanto, sugere que a UNESCO utilize meios de difusão à sua disposição para incentivar esta nova tendência. A proposta de criação do Instituto Latinoamericano de Museus (ILAM), efetivada somente em 1997, foi feita na Carta de 1972, sugerindo-se uma “Associação Latino Americana de Museologia”.

No ano de 1983 é criado o Movimento Internacional da Nova Museologia (MINOM) e, no ano seguinte, em 1984, a Declaração de Québec vem reiterar o que havia sido explanado na Declaração de Santiago do Chile, ou seja,

o reconhecimento da necessidade de ampliar a prática museológica e de integrar nessas ações as populações; a convocação ao uso da interdisciplinaridade e de métodos modernos de gestão e comunicação; e a priorização do desenvolvimento social. (CÂNDIDO, 2003, p.24)

No Brasil, em 1986 profissionais de museus se mobilizam no sentido de criar políticas públicas para garantir a atuação dessas instituições. Em 1987, uma carta encaminhada ao então Secretário de Educação e Cultura, Eduardo Portella, por um grupo de museólogos, solicitava a criação do Sistema Estadual de Museus para o Estado do Rio de Janeiro (SIM-RJ), entretanto, isto só se concretizou em fevereiro de 2010.

Como são longos os caminhos a serem percorridos... A área de museus inicia suas conferências para a construção de uma política setorial para os museus em 2003 em todos os municípios do país. Foi rico esse momento, levamos anos para consolidar esses debates oriundos das conferências, fóruns, assembléias e seminários, mas hoje temos uma Política Nacional Setorial de Museus para o período de 2010-2020, e que já está, inclusive, passando por um processo de reavaliação.

Com tudo isso, como podemos ter nossos museus sustentáveis? E aqui não estamos falando só de recursos financeiros. A própria permanência das instituições, a relação do museu com a comunidade, com o meio ambiente onde está inserido, a responsabilidade social que cabe aos museus e aos profissionais que lá trabalham.

É bonito ler no conceito de museus a expressão “a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento”, mas como efetivar isso se não for com o apoio das políticas públicas?

Depois da reestruturação do MinC em 2003 e a criação do Sistema Brasileiro de Museus em 2004, muitos outros Sistemas de Museus foram criados para serem os “braços” do Governo Federal atuando nos estados.

Hoje temos, 15 (quinze) Sistemas Estaduais e 7 (sete) municipais que conhecem a realidade de seus estados e municípios e acreditam que museus são instrumentos de desenvolvimento sociocultural e geradores de emprego e renda. Nós profissionais de museus vivenciamos as mudanças da instituição museu que, assim como a cultura, se transforma e precisa se adequar às novas realidades, novos públicos, novas demandas.

A Política Estadual Setorial de Museus (PESM) do Estado do RJ vem sendo construída desde 2009 em encontros para discussão e amadurecimento de propostas e diretrizes para o campo museal. No Estado do Rio de Janeiro, todos os municípios foram visitados pelo SIM-RJ e um panorama dos museus foi desenhado para subsidiar as ações da Superintendência de Museus da SEC-RJ, que lançou Editais em 2010, 2011 e 2012 ‒ sendo que em 2012 o Edital foi para promover o Desenvolvimento Institucional com apoio financeiro previsto para 2 anos. Este foi um edital diferenciado, lançado pela área de museus e que trouxe ótimos resultados. O apoio não era mais para um projeto e sim, para o desenvolvimento institucional que viesse a promover outras perspectivas para o museu.

Um outro aspecto importante da Política de Museus do Estado do RJ é a interlocução com a Rede de Educadores de Museus, Rede de Acessibilidade em Museus e Rede de Museologia Social onde Pontos de Memória são também incluídos. Entendemos que todas as iniciativas de memória e patrimônio precisam de apoio tanto quanto os museus. Em nosso documento da PESM o primeiro eixo estrutural é “Preservação, Democratização de Memórias e Acervos” e aqui, leia-se, “Memórias e Acervos” como testemunhos do homem e do seu meio, fortalecendo as identidades locais. No segundo eixo uma questão crucial: “Formação e Capacitação” em todas as suas vertentes; para profissionais de museus e educação museal para que os diversos públicos reconheçam os bens materiais e imateriais de sua região. A Gestão Museal é fundamental para garantir que os instrumentos jurídicos necessários à institucionalidade e ao funcionamento legal dos museus sejam implantados, garantindo acessibilidade plena.

Mas não podemos deixar de mencionar a “Economia dos Museus”, que vai se ocupar do fomento a todas as áreas de atuação dos museus; pesquisa, preservação, documentação, segurança, educação, comunicação, buscando enfim todas as frentes de desenvolvimento institucional. O fortalecimento de Redes e Sistemas é um eixo que receberá uma atenção especial por ser um facilitador da interloculação tanto com o poder público como com a sociedade civil e, por intermédio dos Sistemas de Museus, as políticas públicas são promovidas. Cabe a essa ferramenta de gestão o conhecimento in loco da realidade das instituições, a realização de diagnósticos e encaminhamento de propostas. O estado do Rio de Janeiro caminha para um fortalecimento do campo museal e para uma conscientização de novos caminhos a percorrer para que museus comprometidos com o desenvolvimento social cumpram seu papel de instituições promotoras da sustentabilidade.


[1] Graduada em Museologia (UNESA), Aperfeiçoamento em Planejamento e Gestão de Políticas Públicas (CEPERJ), Especialista em Administração Pública (UERJ), Mestranda em Museologia (UNIRIO) e Coordenadora do Sistema Estadual de Museus do Estado do Rio de Janeiro (SIM-RJ). Representante dos Sistemas Estaduais de Museus no Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus e Vice-Presidente do COREM 2rª.


Referências

  • CÂNDIDO, Manuelina Maria Duarte. Introdução. Cadernos de Sociomuseologia 20.20 (2003). p.24
  • DECARLI, Georgina. Un museo sostenible. Museo y Comunidad en la Preservación Activa de su Patrimonio, p. 43-140, 2006.
  • SANTOS, C. Museu e comunidade: uma relação necessária. Texto apresentado na 13ª Reunião Anual do Instituto Biológico, São Paulo, 2000.
  • TÖENNIES, Ferdinand. Community and Society. New Cork, Harper. Torchbooks. The Michigan State University Press, Charles Loomis, 1963.

 

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