Luiz Henrique Assis Garcia [1] 

Neste Dia Internacional dos Museus o ICOM enseja uma reflexão sobre os desafios contemporâneos que se colocam ante a necessidade de criar novos modos de viver e promover o desenvolvimento em sociedade respeitando os limites da natureza. Eu seria mais abrangente, até, considerando que é preciso respeitar os limites do planeta, levando em consideração que recursos que não são propriamente da ordem da natureza, mas sim da cultura, que também se exaurem, ficam escassos ou são mal distribuídos. Neste sentido é crítica a falta de acesso a água potável, como também é igualmente crítica a falta de acesso à educação e a bens culturais, dentre os quais podemos incluir certamente o patrimônio que está sob a responsabilidade dos museus.

Obviamente não desconheço que essa dicotomia, tão típica de uma visão de mundo preponderante no pensamento ocidental do século XIX, não se sustenta. Natureza e cultura, na aventura humana, estão desde sempre inter-relacionadas. Foi essa constatação inclusive um dos pilares do alargamento da noção de patrimônio, e seu desdobramento em tantas iniciativas marcantes no próprio campo da museologia, especialmente desde a década de 1970. Ressaltei a distinção justamente para que ficasse na berlinda a dimensão cultural, que algumas vezes parece esquecida em libelos sobre a tão propalada “sustentabilidade”. São dimensões articuladas, porém não são indistintas.

Assim, poderia tratar longamente do papel que pode ser desempenhado pelos museus em promover debates e práticas que são ditas sustentáveis. Em inventariar e refletir sobre esses dilemas, a partir de contextos específicos, segundo sua tipologia. Em historiar, através de seus instrumentos mais eficazes de preservação, pesquisa e comunicação, o longo trajeto de empreitadas das diversas sociedades na lida com um mundo, e consigo mesmas, na interminável tarefa de sobreviver e viver, e quais os seus custos em uma perspectiva planetária, levando em conta também as gerações futuras que virão a herdá-los, junto com os correspondentes saldos.

Tudo isso seria relevante, e parece ser esse, em linhas gerais, o impulso que pretende produzir o ICOM ao propor esse tema. Já será definitivamente um ganho se os museus conseguirem reforçar na agenda pública a necessidade de usar melhor os recursos disponíveis, promovendo a cooperação e o respeito aos ecossistemas. Entretanto, insinua-se nessa provocação lançada um debate um pouco mais ambicioso, colocado a partir da asserção de que é preciso mudar modelos econômicos e sociais.

Os museus, portanto, tem aí uma tarefa bem mais desafiadora. Estão aí colocados no olho do furacão, postados com galhardia num lugar de grande potencial, mas também dilemático, à medida que são eles próprios tributários da sociedade insustentável que estão instados a transformar. Digo isso porque é inevitável tomá-lo como ponto de partida, ou seja, é dessa contradição que o museu precisa começar a falar. Os museus são hoje importante ferramenta de intervenção social quando incorporam a noção de que o seu público é constituído de sujeitos ativos capazes de transformar a realidade, nesse sentido habilitado a participar inclusive da construção institucional. Entretanto, ao mesmo tempo, brotam do chão museus cujo papel social caracteriza-se prioritariamente como poderoso meio, através do qual o público, eminentemente interpelado como consumidor, irá apropriar-se dos bens culturais no invólucro do espetáculo. Mais uma vez apresento o que aparentemente é uma dicotomia, mas não é assim. Poderemos encontrar facilmente variações diversas num espectro ensejado por essa visão típico-ideal, à qual recorro para estabelecer os parâmetros a partir dos quais me atento para essa variável particularmente cara para pensar a questão da sustentabilidade, que é a relação do museu com o público. Não excluo, portanto, a possibilidade de um museu concebido como um grande aparato midiático, inserido no circuito global de mega exposições, eventualmente ser o lugar de práticas de acessibilidade, de debates sobre a democratização da cultura, de ações educativas que promovem a participação ativa do público em contato com acervos. Igualmente, é possível que instituições que nascem articuladas a comunidades e identidades que pretendem fazer delas o espaço de seu reconhecimento e afirmação estejam também inseridas em circuitos comunicativos e práticas que lhes conferem a qualidade de mercadoria e podem tornar parte de seus frequentadores em fetichistas consumidores do exótico.

Se é, pois, insustentável uma sociedade que não dispõe com parcimônia de seus recursos naturais, é igualmente aquela que não democratiza, da maneira mais abrangente que tiver a capacidade de fazer, seus bens culturais, ou melhor, os próprios meios sociais para sua produção, circulação e uso. Para desempenharem o papel chave para o qual têm o potencial, os museus precisam, antes de mais nada, de disposição para essa autocrítica. Seria terrivelmente incoerente um museu investigar, por exemplo, as diferentes formas de se promover o uso racional e barato do transporte público, fazer uma exposição sobre a história do ônibus ou convidar um palestrante para falar das vantagens do metrô e, ao mesmo tempo, não se aperceber de que são poucas as linhas de ônibus que levam público de regiões mais distantes da cidade às suas portas, ou de quão pouco será o tempo dos trabalhadores que gastam várias de suas horas do dia se deslocando pela cidade para participar de um debate sobre o tema da mobilidade urbana em seu auditório, ou, finalmente, não se ocupar em criar a oportunidade de ao menos discutir com um grupo minimamente representativo dos que vivenciam diariamente as dificuldades de transitar pela cidade um programa de ação para enfrentar tal problema.

Em meio às contradições de nosso tempo convulsionado, não sobrevivem ao exame crítico os apelos superficiais, o bom-mocismo politicamente correto que esconde sob o “selo” da “sustentabilidade” a estratégia de apaziguar e no fundo, perpetuar, esse estado insustentável de coisas. Cabe aos museus ir ao nervo do problema, afirmando assim seu propósito como foro público de debate e experimentação. Nesse sentido, precisam confrontar suas próprias fissuras, suas próprias incongruências defrontadas no cerne de suas operações, e não apenas em atividades esporádicas que se dão em suas dependências mas em nada alteram seu modus operandi.

O desafio, grande de fato, é justamente fazer dos museus essa ponta-de-lança do debate, em que o próprio conceito de “sustentabilidade” seja historicizado e posto em questão. Não bastará que a madeira utilizada no mobiliário expográfico seja reciclada, ou que o projeto arquitetônico preveja o melhor uso de luz natural. Ocorre-me aqui que a expressão de uso corrente “baixo impacto ambiental” tem como correspondente lógico na argumentação que propus a ideia de “alto impacto cultural”. Desse modo, é preciso entender que além dos bens que preservam, pesquisam e comunicam, são os próprios museus um recurso, um ativo a ser distribuído para que esteja socialmente disponível aquilo que representa enquanto instância de reflexão e transformação. Isto sim será indispensável na construção de uma sociedade sustentável.

Belo Horizonte, 07 de maio de 2015.


[1] Doutor em História pela UFMG. Coordenador do curso de Museologia da ECI/UFMG. Um dos coordenadores do Observatório de Museus, e membro do Centro de Convergência de Novas Mídias, grupos de pesquisa da UFMG. Atualmente pesquisa as relações entre patrimônio urbano e música popular, museus e cidades, e vem publicando artigos sobre esses temas. Editor dos blogs Massa Crítica Música Popular e Metamuseu.


 

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