Pedro Paulo A. Funari  [1] 

O conceito de sustentabilidade é recente. A busca pelo desenvolvimento econômico, por meio da industrialização, está no centro das preocupações dos estados nacionais surgidos a partir do século XVIII. O domínio material do mundo tornou-se um imperativo, como nunca tinha sido antes. As diversas civilizações e culturas, mesmo quando valorizavam a economia de esforço, tinham outros parâmetros de gozo do mundo que não dependiam disso. Um exemplo bastará: dormir na rede pode trazer conforto, sem que nenhum avanço técnico seja considerado necessário por um usuário indígena. Ou, então, a conversa em um jantar grego ou romano não seria trocada por uma refeição moderna que se beneficiasse de iluminação e fornos elétricos. O Iluminismo e a Revolução Industrial viriam a alterar esse panorama, primeiro em alguns lugares, para, como o tempo, atingir todo o globo. Essa busca pelo progresso tecnológico e pela produtividade está na raiz do capitalismo contemporâneo e mesmo o socialismo a adotou, como ficou claro na industrialização à outrance da União Soviética sob Stalin. Esse repto do desenvolvimento a todo custo levou à destruição generalizada, não apenas nas guerras, como no próprio domínio da natureza.

A reação mais consistente a essa ação destrutiva acelerou-se com o pós-guerra (1945), quando os efeitos destrutivos dos humanostornaram-se cada vez mais nocivos. Um marco foi a criação da União Internacional para a Conservação da Natureza (International Union for the Conservation of Nature (IUCN)), em 1948. Mesmo em lugares em que predominava a paz, a poluição ambiental gerava consequências nefastas e esse foi o móvel primeiro da defesa do ambiente, já na década de 1970, em particular com a Conferência sobre Ambiente Humano, em Estocolmo, em 1972 (1972 UN Conference on Human Environment in Stockholm). O termo “desenvolvimento sustentável” foi usado pela primeira vez em 1987 pela Comissão Brundtland, no relatório “Nosso futuro comum”, na tentativa de conciliar o progresso tecnológico e produtivo, e o respectivo aumento de renda, com a possibilidade de ele ser levado a cabo sem prejudicar a reposição de recursos. Desde então, as expressões “sustentável” e “sustentabilidade” tornaram-se moeda corrente e transformaram-se em objetivos cada vez mais compartilhados, tanto no mundo, como no Brasil, em particular. Há divergência entre os estudiosos sobre a possibilidade de conciliar crescimento econômico e preservação ambiental, motivo pelo qual diversos propugnam uma economia estável, ainda que a grande maioria considere indispensável para o bem estar humano a produção crescente, mas com a busca da minoração dos danos.

Como quer que seja, os museus estavam envolvidos com a sustentabilidade muito antes de o tema ter se popularizado com esse nome. De fato, os museus surgiram para preservar o que existia em determinado momento para as gerações vindouras. Lá no renascimento, quando as coleções dos antiquários foram constituídas, o objetivo era que os pósteros tivessem acesso a tesouros que, de outra forma, seriam perdidos. Os museus modernos, oriundos do ímpeto nacionalista dos séculos XVIII e XIX, mantiveram essa vocação conservacionista e levaram a sério a noção básica, que depois viria a dar fundamento à sustentabilidade, de que se deve estar a serviço dos herdeiros. Esse princípio, de fato, é muito mais antigo e sábio. Segundo alguns biólogos, ele estaria na matriz genética das populações que visam à perpetuação da espécie. Outros destacariam que as culturas humanas colocaram como objetivo o bem estar dos vindouros, como na narrativa bíblica de Moisés, herói que liberta seu povo, mas não chega ele próprio à terra prometida, que será dos herdeiros.

Os museus enfrentam desafios particulares, neste aspecto. Segundo o historiador francês François Hartog, o mundo contemporâneo, a partir da década de 1990, com a cultura instantânea e virtual, passou a viver um eterno presente, sem vínculo duradouro com o passado, nem perspectiva de futuro. Segundo esta perspectiva, o eterno presente das redes sociais leva a um comportamento pouco atento ao que virá a ser, em paradoxal concomitância com o discurso em prol da sustentabilidade. Para os museus, essas contradições constituem um repto particular. Surgidos e mantidos em uma deontologia de servir às gerações futuras, como custódios do que os antigos legaram, os museus passam a atuar em um mundo que pouco quer saber das tradições ou dos saberes dos antepassados, sem tampouco preocupar-se com um futuro ligado ao passado. O repertório cultural, na forma de obras canônicas que todos devem conhecer, passa a ser substituído pelo simples raciocínio lógico e relacional. Ao final dos estudos escolares, um exame de ensino médio troca Machado de Assis, Eça de Queiroz ou qualquer outro autor, pelo simples traquejo de saber o significado de uma mensagem no twitter. Isto já estava lá na matriz do ENEM, o SAT americano.Talvez não por acaso, tenha-se forjado o conceito, fundado na hybris humana, de antropoceno, a idade geológica na qual, sem mais ter que prestar contas a condicionamentos naturais, o ser humano passaria a determinar os rumos do planeta.

Qual o papel do museu, neste contexto? Seria aquele de conformar-se em confundir-se com o culto à tecnologia, ao saber humano ilimitado e sem vínculos com o passado? Um museu do amanhã no qual não há passado e o futuro é o presente, como alertava Hartog? Talvez não tenhamos que ser tão pessimistas, pois, mesmo nestas circunstâncias, nunca tantos tiveram interesse em conhecer melhor o ser humano, a diversidade cultural, as tradições dos povos em sua riqueza e complexidade. Cabe aos museus oferecerem esse imenso manancial, tarefa que já estava lá nas suas origens, mas que nunca se fez tão necessária, como a lembrar da mensagem principal da tradição: conhece-te a ti mesmo.


[1] Professor do Departamento de História. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Ambientais – Nepam. Unicamp.


 

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