Vânia Dolores Estevam de Oliveira [1] 

O tema lançado para as comemorações do Dia Internacional de Museus neste ano aborda um dos temas mais desafiadores da contemporaneidade e que exige a participação direta dos seres humanos em sua consecução - a sustentabilidade em suas diversas formas -, já que disso depende a sobrevivência na Terra. Todas as organizações e instituições tem sua parcela de responsabilidade no incentivo e na implementação das ações e estratégias de sustentabilidade. Os museus não podem privar-se dessa obrigação.

Como instituições urbanas por excelência, os museus tem um importante papel a desempenhar na tarefa que se impõe de promover a sustentabilidade em suas várias esferas. Kevin Lynch (1988, p. 59) - em texto que analisa o aspecto imagético das cidades - esclarece-nos sobre os elementos ou pontos marcantes que funcionam como referências ou indicadores do caminho no desenho ou imagem das cidades (objetos físicos, edifícios, montanhas). Aprendemos também com (HALBWACHS, 1990) que tais elementos têm importante papel na reconstrução da memória coletiva, que finca suas raízes nas imagens do espaço. Os museus, mesmo quando não visitados podem representar um desses pontos marcantes do espaço urbano. Vemos também que esse aspecto - que chamaremos de performático - dos museus já vem sendo utilizado politicamente pelos seus atores e pelos poderes constituídos, que vem explorando a visualidade da arquitetura dos museus e monumentos como recurso a ser utilizado na espetacularização urbana (DÉBORD, 1997). Tais aspectos podem ser utilizados positivamente nas ações de inclusão e de sustentabilidade, desde que ultrapassem a estética urbana e o propósito puramente espetacular (CLAVEL, 2006, p. 71). O espetáculo, na cidade vista apenas como cenário, “apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível. Sua única mensagem é ‘o que aparece é bom, o que é bom aparece’” (DÉBORD, 1997, p. 11). No fundo a espetacularização continua a alimentar a concepção de museu como algo distante e para poucos iniciados.

O distanciamento físico como outra faceta negativa já foi observado por Vaz e Jacques (2006, p. 85) ao referir-se à valorização dos centros das cidades em detrimento de subúrbios e periferias. Nesse sentido, o que observamos é que os museus e demais equipamentos culturais, via de regra, estão localizados nesses centros. Ignoram ou mesmo voltam suas costas para as regiões urbanas mais afastadas, mal servidas pelos transportes públicos e habitadas pelas pessoas de menor renda. O subúrbio ou a periferia “passa a ser uma zona tida como ‘não cultural’ ou seja, o modelo acentua a desigual distribuição de equipamentos públicos”, dificultando também seu alcance e campo de atuação.

Como instituições entendidas como performáticas em sua visualidade e em suas atividades (OLIVEIRA, 2012) os museus tem um importante papel a desempenhar na ampliação da inclusão social dos segmentos marginalizados e excluídos da sociedade, ao lado de bibliotecas, arquivos e demais instituições e equipamentos culturais. Nesse sentido e em uma perspectiva bastante promissora para as instituições museológicas, Lewis Mumford (2008, p. 672) já apontava o museu como uma das instituições que poderão contribuir para “incentivar o processo de circulação e difusão cultural”, que ele defendeu como “missão ideal da cidade”. Ao museu cabe importante papel nessa missão, em meio ao caos urbano e à desumanização e violência crescentes, na reeducação para a gestão livre e consciente dos recursos ambientais e na construção do equilíbrio social das cidades do mundo contemporâneo.

Para isso terá que ocupar todos os espaços urbanos, inclusive a periferia, apostando na valorização de sua imagem espacial de forma mais inclusiva, convidativa e não apenas em sua visibilidade monumental e espetacular. Dessa forma terá como contribuir para a construção de uma sociedade sustentável e, por isso, mais justa, “seja por meio de suas boas práticas de atuação, seja pela conscientização do público sobre a necessidade de uma sociedade mais cooperativa e solidária” (IBRAM, 2015).

A sustentabilidade se traduz em diversas modalidades: ambiental (da qual dependem todas a demais), econômica e sociocultural. Ações de sustentabilidade podem ter início na gestão interna dos recursos utilizados nas atividades museológicas, tais como o uso de materiais ecologicamente corretos e reutilizáveis e, ao invés do descarte, seu reaproveitamento ou doação a outras instituições, museais ou não. Como exemplos, podemos enumerar: doação de elementos cenográficos utilizados em exposições, a instituições museológicas com menos recursos financeiros (com a devida documentação administrativa); reaproveitamento de fichas, formulários e outros documentos defasados para novas utilidades, como blocos de rascunho ou de recados; além disso, não encomendar quantidades exageradas quando da sua confecção. Os textos e painéis em plotter vinílico podem ser repassados para ONGs que trabalhem com confecção de artesanato a partir de materiais recicláveis, transformando-se em ótimas bolsas e sacolas, com resultados estéticos surpreendentes.

No aspecto econômico da sustentabilidade, as ações museológicas podem contribuir para abertura de mercado de trabalho para diversas categorias profissionais, a começar pelos próprios museólogos, com a elaboração e captação de recursos para projetos financiados pelas agências de fomento, o que permite a contratação de mão-de-obra especializada na maioria das vezes, mesmo que temporária. Isso feito de forma imparcial, sem favorecimentos e dentro das leis que regem os regimes de trabalho e regulamentam os gastos públicos e privados, torna-se fonte de realizações para os museus e, sobretudo, para os profissionais de várias áreas.

No terceiro aspecto - sociocultural e, naturalmente, político -, os museus podem atuar por meio de suas diversificadas atividades e programas. Podem desenvolver exposições sobre temas afetos à sustentabilidade, trabalhando o assunto de maneira mais aprofundada nas ações educativas. Podem realizar cursos, palestras, congressos e seminários abordando tais questões, ou podem ainda abrigar em seus espaços propostas advindas da comunidade.

Esses foram apenas poucos exemplos pinçados da prática da gestão em museus, do que deve e pode ser feito pelos museus a fim de contribuir junto à sociedade para a tomada de consciência acerca da “corresponsabilidade individual”, valorizando as características culturais locais, para que todos os segmentos sociais se apropriem de modo consciente de suas tradições e memórias, “de modo a fomentar o equilíbrio entre tradição e inovação”. Somente através das ações verdadeiramente inclusivas, é que o museu poderá incentivar a sociedade para a sustentabilidade, em seus variados aspectos e significados.


[1] Docente do Bacharelado em Museologia e do Programa de Pós-Graduação em Performances Culturais da Universidade Federal de Goiás. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Referências

  • CLAVEL, Maité. Cidade e culturas. In: JEUDY, Henri Pierre, JACQUES, Paola Berenstein (Orgs.). Corpos e cenários urbanos: territórios e políticas culturais. Salvador: EDUFBA; PPG-FAUFBA, 2006.
  • DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro : Contraponto, 1997.
  • HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. 189 p.
  • IBRAM. 13ª Semana de Museus: museus para uma sociedade sustentável. Disponível em <http://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2015/05/Museus-para-uma-sociedade.pdf>. Acesso em 17 mai. 2015.
  • LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução Maria Cristina Tavares Afonso. Lisboa: Edições 70; São Paulo: Martins Fontes, 1988.
  • MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. 4ª ed. Trad. Neil R. da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
  • OLIVEIRA, Vânia de. Museus e performances culturais urbanas. Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas - ANPAP. 22. 2013. Petrópolis. Anais. ANPAP, 2013.
  • VAZ. Lilian Fessler e JACQUES, Paola Berenstein. Territórios culturais do Rio. In: JEUDY, Henri Pierre, JACQUES, Paola Berenstein (Orgs.). Corpos e cenários urbanos: territórios e políticas culturais. Salvador: EDUFBA; PPG-FAUFBA, 2006.

 

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