Yara Mattos [1] 

Este exercício de reflexão sobre sustentabilidade e museus envolve questões complexas e desafiadoras. Afinal, o que poderíamos entender por “sociedade sustentável” em um mundo contemporâneo globalizado? Quais seriam seus aspectos fundamentais e como poderiam ser desenvolvidos no campo social, para que pudéssemos atingir um patamar aceitável de qualidade de vida? E os museus, que papel deveriam desempenhar no sentido de colaborar e impulsionar diretamente esse processo?

Tentando equacionar tais questionamentos, colocamos em diálogo autores cujas ideias têm contribuído de forma exemplar com as reflexões e discussões a respeito do tema, tanto no sentido econômico-social, quanto no sentido cultural e patrimonial. Refiro-me a Ignacy Sachs, porta-voz das “ideias sustentáveis” ligadas à biodiversidade e ao meio ambiente; a Hugues de Varine-Bohan, estudioso e observador crítico das relações entre sociedade, patrimônio e museu e a Néstor García Canclini, estudioso e crítico das problemáticas latino-americanas pós-globalização.

De início, pontuamos as questões abordadas por Sachs quando defende o surgimento de uma nova forma de civilização fundamentada no aproveitamento sustentável dos recursos renováveis. O autorvai buscar seus argumentos de defesa no passado histórico, ao recordar os modos de vida das populações que dependiam de produtos retirados da biomassa para criar e sustentar a vida material. Ao mesmo tempo explica que,

Nosso problema não é retroceder aos modos ancestrais de vida, mas transformar o conhecimento dos povos dos ecossistemas, decodificado e recodificado pelas etnociências, como um ponto de partida para a invenção de uma moderna civilização de biomassa, posicionada em ponto completamente diferente da espiral de conhecimento e do progresso da humanidade (SACHS, 2000.p. 30).

E continua chamando atenção para a necessidade de se potencializar o uso do que ele chama de “ciências de ponta” – a biologia e a biotecnologia – o que levaria à exploração do paradigma do “B ao cubo”: biodiversidade, biomassa e biotécnicas.

Defende também uma abordagem “holística e interdisciplinar” das ciências naturais e sociais, ao afirmar a união de esforços entre diferentes campos do saber, já que “o conceito de biodiversidade envolve também os ecossistemas e as paisagens. (...) a biodiversidade e a diversidade cultural estão entrelaçadas no processo histórico de co-evolução” (2000.p.31).

Ignacy Sachs reafirma a crença na invenção de padrões endógenos de desenvolvimento que busquem o controle da biomassa através do aproveitamento racional da natureza.Tais padrões estariam condicionados a determinados critérios de sustentabilidade em diferentes níveis: sociais, culturais, ecológicos, ambientais, territoriais, econômicos e políticos.

A título de exemplificação e integração às problemáticas museológicas, pontuamos alguns critérios específicos citados por Sachs como, igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais (inclusão social nos museus); equilíbrio entre respeito à tradição e inovação (mudanças culturais x preservação de acervos); preservação dos recursos naturais x produção de recursos renováveis (apropriação das paisagens culturais e naturais pelos ecomuseus e similares); melhoria do ambiente urbano e conservação da biodiversidade pelo ecodesenvolvimento (musealização das paisagens culturais e naturais); desenvolvimento econômico intersetorial equilibrado (economiamuseal criativa); democracia definida em termos de apropriação universal dos direitos humanos (acessibilidade x inclusão social nos museus); gestão do patrimônio global como herança comum da humanidade (os museus como guardiões desse patrimônio).

Vejamos agora o que diz Hugues de Varine ao abordar o museu como ferramenta de desenvolvimento endógeno a partir dos “novos caminhos da museologia, mais, ou melhor, adaptados aos objetivos do desenvolvimento local” (VARINE, 2012.p.171).

O autor, quando traça um painel histórico-conceitual a respeito da instituição museu, chama atenção para a mudança do paradigma coleta, conservação, pesquisa, educação, deleite, passando às diferentes formas de utilização (incluindo aqui a turística), até chegar às relações contemporâneas entre museu e desenvolvimento local,

(...) acredito que o museu, ou ao menos algumas formas de museu, algumas teorias museológicas e algumas práticas museográficas, sejam um instrumento útil e eficaz de informação, de educação, de mobilização a serviço do desenvolvimento local. Um meio de administrar de modo dinâmico o patrimônio global de uma comunidade humana e de seu território (2012.p.172).

Para ele, a relação entre museu e patrimônio está intrinsecamente imbricada às definições clássicas de coleções, monumentos, exposição, visitação, conservação e pesquisa, “ (...) o museu, no sentido clássico do termo, tende a esterilizar o patrimônio para estudá-lo com a finalidade de pedagogia ou de consumo cultural” (2012. p. 174).

Este, de acordo com Varine, não seria um modelo atual para uma sociedade sustentável, pois,

Esse museu é uma instituição aristocrática, herdeira dos gabinetes de curiosidade dos príncipes e dos tesouros das catedrais e dos mosteiros. Sua abertura para o mundo corresponde a uma ideologia de democratização cultural, segundo a qual os bens e valores pertencentes à cultura de elite ou reconhecidos por esta devem ser impostos (o que se dissimula sob a expressão “acessibilidade”) a todos, para fornecer ao povo modelos e normas (idem.p.174.).

Sua permanência seria então, um “sintoma de inquietude”, em que persiste um “apego aos objetos do passado, dos quais cada vez mais raramente se compreende os verdadeiros valores ou mesmo sua significação” (2012.p. 175).

O autor defende a ideia de que o museu para se tornar instrumento estratégico do desenvolvimento local, precisa “fazer servir o patrimônio, coletivamente, aos cidadãos. O museu é aqui mais uma mentalidade, uma maneira de tratar os problemas locais de maneira cultural, do que uma colocação institucional desses problemas” (2012.p. 192).

De forma dialética e como contraponto, Néstor García Canclini propõe um “museu para a globalização”, defendendo a urgência de “guardar seu patrimônio e exibi-lo antes que se exaura” (CANCLINI, 2008.p.69), porque, segundo ele, a globalização está nos seus momentos finais.

Desse modo, podemos perguntar: quais seriam os objetos culturais a serem preservados neste museu? Eles iriam representar realmente, uma sociedade sustentável a nível global? O que Canclini responde não se tratar de objetos materiais e referenciais e sim, de circuitos e redes de comunicações.

A finalidade seria falar sobre como a globalização desglobaliza, ou seja, o modo pelo qual continua operando por meio dos movimentos em que se desfaz: como rede financeira caótica, como mercado de comunicações que midiatiza quase todas as experiências locais e enfraquece as nações (2008.p.70-71).

E onde localizá-lo? Em um lugar, ou em vários? Seria mais viável, distribuí-lo por exposições itinerantes rememorando as migrações e o turismo? Neste item – localização - o autor afirma que,

Um aspecto interessante do projeto de um museu da globalização é que recoloca a pergunta sobre os interlugares, aqueles que não são daqui nem de lá. Não se trata mais de um apaziguado patrimônio da humanidade, mas sim, de espaços e circuitos em disputa. A decisão quanto a onde colocá-lo deveria expressar essa tensão entre pertinências múltiplas, migrações, perdas e expoliações constantes. Talvez isso nos ajude a relativizar o peso do sentimento de pertencer e dos enraizamentos, atenuar a violência das pilhagens e das expulsões (2008.p.75).

Por fim, afirmamos novamente o caráter desafiador e incentivador de estudos mais aprofundados sobre o tema. Por ora, limitados ao número de laudas, procuramos pontuar os aspectos desse processo considerados por nós essenciais, para futuras reflexões.


[1] Professora Adjunta da Universidade Federal de Ouro Preto/Escola de Direito, Turismo e Museologia/Departamento de Museologia, atualmente ocupando a chefia do DEMUL. Coordenadora do Projeto Ecomuseu da Serra de Ouro Preto. Membro do ICOM-BR/UNESCO. Vice-presidente da Associação Brasileira de Ecomuseus/Museus Comunitários – gestão 2013/2015. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Fontes bibliográficas

  • CANCLINI, Néstor García. Leitores, Espectadores e Internautas. Trad. Ana Goldberger. São Paulo: Iluminuras, 2008.
  • SACHS, Ignacy. Caminhos Para O Desenvolvimento Sustentável. Trad. José Lins Albuquerque Filho. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.
  • VARINE, Hugues de. As Raízes do Futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local. Trad. Maria de Lourdes Parreiras Horta. Porto Alegre: Medianiz, 2012.

 

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