18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Átila Tolentino [i] 

E daí? Não me entendam mal. Não quero ser comparado a um chefe de Estado que responde, com desdém e empáfia, a perguntas de repórteres sobre as inúmeras mortes confirmadas (de pessoas inumeráveis [1] ) por conta do Covid-19 no Brasil [2]. Bem menos a uma Secretária de Cultura (pasmem!), que também com seu enfático “E daí?” mórbido relativizou a tortura e assassinatos durante a ditadura civil-militar pós-1964, pois “a humanidade não para de morrer”. Afinal, ela não queria arrastar um cemitério em suas costas! E tudo isso, com um Rubem Valentim de testemunha, que tanto lutava contra as forças repressivas! [3]  

“Se você falar da vida, do outro lado tem morte”, disse a Secretária para justificar seu ponto de vista. Quem trabalha com memória sabe muito bem que, se você fala de lembrança, do outro lado tem o esquecimento. Falar da vida, no contexto em que a Secretária defende, não é para celebrar a vitalidade e a potencialidade do ser humano, da sua forte presença no mundo como agente propulsor de culturas. A intenção de não falar das mortes é para que as atrocidades da ditadura-civil militar brasileira caiam no esquecimento, enquanto se canta “Pra frente, Brasil, salve a Seleção...”, violando os direitos humanos e desmantelando a Comissão Nacional da Verdade.

Nessa briga entre lembrar ou não dos mortos da ditadura ou da Covid-19 paira uma clara demonstração de como a memória coletiva é objeto de disputa entre os diferentes agentes que procuram, a todo momento, conformá-la. Ou seja, a memória não está cristalizada no passado. Ela é construída e reconstruída no presente, em um jogo de poder alimentado pelas lutas e conflitos entre os distintos atores que a disputam. Está claro também como a memória pode ser manipulada, sobretudo por grupos hegemônicos e agentes imbuídos pelo poder do Estado.

Talvez o que um governo necrófilo não saiba é que nos museus cabem a vida e a morte, muitas vezes não como polos antagônicos, mas cuja finalidade última é celebrar a existência, perpetuá-la por meio da memória ou denunciar as injustiças sociais e barbaridades cometidas pelo homem quando este tenta dominar o outro. Aí está a importância, por exemplo, dos Memoriais da Resistência. Mas também dos museus de uma forma geral. Se as obras de Sebastião Salgado estivessem hoje em algum museu, e não na Fundação Nacional do Índio, certamente não seriam devolvidas pelo simples fato de o fotógrafo e ativista ter lançado uma campanha internacional em prol da vida e da defesa de etnias indígenas no Brasil. [4] 

Todo este preâmbulo nos serve de reflexão para pensarmos por que os museus, uma vez tão essenciais, estão fechados durante a pandemia do Covid-19? De forma semelhante, esse foi o questionamento que o poeta e museólogo Mário Chagas nos fez em live (novo fenômeno do mundo virtual em tempos de pandemia) enquanto conversava com o também museólogo Paulo Nascimento, no dia 28 de abril de 2020: “Os museus são essenciais? Se são, por que estão fechados?”.

Em resposta à provocação do poeta e museólogo, argumento que os museus estão fechados porque as pessoas são essenciais. Não custa lembrar, como sempre nos ensina o próprio Mário, que os museus que não servem para a vida não servem para nada. Os museus, também enquanto organismos vivos, somente têm sentido se seu foco primeiro, em todo o seu fazer, seja na preservação, comunicação, educação e pesquisa, for voltado para os indivíduos. Indivíduos esses, nas recorrentes palavras da museóloga Maria Celia Santos, que constroem e reconstroem o museu constantemente [5] . Portanto, há mais que uma gota de sangue em cada museu  [6]. Jorra-se vida e, em muitos deles, as lutas e o sangue estão impregnados por todo canto e em suas paredes, como no Museu de Bacurau.

Nesta pandemia, os museus, de fato, estão com as portas fechadas, de modo a preservar as vidas dos seus públicos, visitantes, trabalhadores e trabalhadoras. Não quero afirmar com isso que a situação seja fácil e sem possíveis consequências. Deve-se registrar, por exemplo, o caso de inúmeros educadores e educadoras de museus terem sido demitidos durante a pandemia, como alertam a Rede de Educadores de Museus do Brasil – REM-BR e o Comitê para a Educação e Ação Cultural do Conselho Internacional de Museus – CECA-ICOM [7] . E certamente essa mesma situação está ocorrendo com as categorias mais fragilizadas nas relações sociais de trabalho, como as equipes de limpeza e vigilância dos museus, bem como aqueles profissionais que não têm o devido vínculo empregatício, com contratos de trabalho temporário ou via MEI (a nova onda do empreendedorismo individual).

Mas os museus, para usar a metáfora simmeliana [8] , não são somente portas, que às vezes se fecham, ou paredes, quase sempre mudas, inarticuladas e obtusas. Os museus são também pontes, que criam interconexão e ligam duas margens. Nesta época de pandemia, muitas instituições e processos museais têm atuado como pontes, articulando-se uns aos outros e aos públicos, num constante reinventar-se e aprendizado.

É claro que muitos problemas hoje debatidos e enfrentados pelos museus não surgiram agora, mas foram intensificados pela situação de pandemia. As relações trabalhistas e vínculos empregatícios de profissionais de museus, a relação com públicos e não-públicos, a ação social e o trabalho nas comunidades com que atuam, a gestão e democratização do campo e das instituições museais, a sustentabilidade econômica, entre outros, são desafios constantes e que perpassam os debates e alimentam as preocupações há muito no cenário dos museus brasileiros.

Mas neste momento, ainda sem respostas prontas e com um devir incerto, os trabalhadores e trabalhadoras de museus têm se dedicado a pensar e realizar novas estratégias ou potencializar projetos antes executados para manter o seu público, utilizando-se, sobretudo, de plataformas virtuais. Da mesma forma, também têm executado demais atividades que não sejam ligadas necessariamente à comunicação ou até mesmo atuado em outras frentes, antes não imaginadas ou que não eram o foco principal de sua atuação. É o caso da confecção de máscaras de pano pelo Museu da Boneca de Pano e da doação de luvas e álcool ao complexo hospitalar da UFRJ pelo Museu Nacional. Inúmeras outras frentes também podem ser registradas, principalmente de museus de base comunitária, ao promoverem auxílio emergencial, em diferentes aspectos, a comunidades em vulnerabilidade social altamente impactadas pelos efeitos do Covid-19.

Portanto, embora com as portas fechadas, os museus continuam abertos, ligados e interligados à vida por meio das pontes que constroem, mas sem deixar cair no esquecimento, com o respeito e a reverência merecidos, aos que já se foram, às suas lutas e às suas memórias. E, para não deixar a fé faiar, vale trazer, como resposta ao “E daí?” dos atuais tempos sombrios, essa fala do cantor e compositor Gilberto Gil, no seu discurso de posse como ministro Cultura [9] , em 2003, quando assumiu a pasta com a sensibilidade, estética, ética e competência que o cargo requer:

“Temos de completar a construção da nação. De incorporar os segmentos excluídos. De reduzir as desigualdades que nos atormentam. Ou não teremos como recuperar a nossa dignidade interna, nem como nos afirmar plenamente no mundo. Como sustentar a mensagem que temos a dar ao planeta, enquanto nação que se prometeu o ideal mais alto que uma coletividade pode propor a si mesma: o ideal da convivência e da tolerância, da coexistência de seres e linguagens múltiplos e diversos, do convívio com a diferença e mesmo com o contraditório? E o papel da cultura, nesse processo, não é apenas tático ou estratégico. É central: o papel de contribuir objetivamente para a superação dos desníveis sociais, mas apostando sempre na realização plena do humano.”


[i] Átila Tolentino é graduado em Letras e especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Ministério da Economia. Já atuou no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), onde coordenou as ações de educação patrimonial da Casa do Patrimônio da Paraíba e assumiu a coordenação de Gestão Museológica do Departamento de Museus e Centros Culturais.

[1] Aqui faço referência à excelente iniciativa do projeto Inumeráveis, memorial em plataforma virtual dedicado às vítimas do corona vírus no Brasil, pois, como diz o lema do projeto, “não há quem goste de ser número / gente merece existir em prosa”. Criado pelo artista Edson Pavoni, em colaboração com diversos voluntários, pode ser acessado no link: www.inumeraveis.com.br.
[2] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml
[3] https://br.noticias.yahoo.com/em-entrevista-conturbada-regina-duarte-relativiza-mortes-na-ditadura-213418413.html
[4] https://veja.abril.com.br/blog/matheus-leitao/funai-devolve-fotos-de-sebastiao-salgado-em-resposta-a-campanha-por-indios/
[5] SANTOS, Maria Célia T. Moura. Encontros museológicos: reflexões sobre a museologia, a educação e o museu. Rio de Janeiro: MINC/IPHAN/DEMU, 2008.
[6] CHAGAS, Mario de Souza. Há uma gota de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. Chapecó: Argos, 2006.
[7] https://www.revistamuseu.com.br/site/br/noticias/nacionais/8300-17-04-2020-ceca-br-e-rem-br-convocam-reuniao-emergencial-on-line-hoje-as-17h.html
[8] SIMMEL, G. A ponte e a porta. In MALDONADO, Simone Carneiro. Georg Simmel: sentidos, segredos (organização, traduções e comentários). 1 ed. Curitiba: Honoris Causa, 2011.
[9] Veja a íntegra do discurso de Gilberto Gil em https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia-e-Redes-Sociais/integra-do-discurso-de-posse-do-ministro-da-cultura-Gilberto-Gil/12/5623.


 

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