18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Alejandra Saladino [i] e Tiago Muniz [ii] 

Ao aceitarmos o convite para refletir sobre os impactos da pandemia no setor cultural, sabíamos do grande desafio de ter de considerar, no calor da hora, muitas informações e dados sobre o vírus, que ainda são preliminares e incertos. A cada semana surge uma potencial solução, ou mesmo uma teoria da conspiração. Nesse cenário complexo e de grande insegurança, como medida para contenção da disseminação do vírus, o distanciamento social foi incentivado em todo o mundo, ainda que diferentes protocolos tenham sidos adotados pelos governos, em suas diferentes instâncias (GIBNEY, 2020). Outro desafio exposto pela crise do vírus é a fragilidade da humanidade em seu sentido biológico e filantrópico, decorrente do sistema vigente. Em outras palavras, a pandemia explana anecropolítica em curso, a qual prevê que vidas podem ser descartadas seguindo a lógica do sacrifício neoliberal (MBEMBE&MEINTJES, 2003; MBEMBE, 2020). O que nos traz o exercício de refletir sobre as mudanças que queremos para nossa sociedade (LATOUR, 2020).

Considerando: a) que o capitalismo tem limites e que nem todos têm uma casa, uma “família”, e que o acesso aos sistemas de saúde pública deveria ser uma obrigação social (BUTLER, 2020), visto tratar-se de um direito humano básico e b) que nutrir sensibilidade e empatia para com os que perderam pessoas durante a pandemia pode nos afastar do ideário anti-humanista neoliberal, como o nascimento da biopolítica nos alertou (FOUCAULT et. al. 2008), diversas projeções já apontam que nada será como antes, havendo a separação entre o que conhecemos como momento pandêmico e pós-pandêmico. Na ausência de uma vacina, e considerando os diferentes cenários de controle e contaminação, especialistas afirmam que, nos próximos cinco anos, ainda estaremos combatendo o vírus SARs-Cov-2, responsável pela COVID-19 [iii] , onde, em diferentes cenários, períodos de distanciamento social prolongado ou intermitente podem ser necessários durante os imediatos 18 meses (KISSLER et. al. 2020). Desse modo, eventos seguem sendo remarcados para 2021 e, mesmo após adiamento, já se considera o cancelamento dos Jogos Olímpicos (WAKATSUKI et. al. 2020).

São muitas e diversas as perspectivas sobre o panorama atual. Uma recorrente sugere que a mãe natureza está se curando dos humanos através do COVID-19 [iv] . Entretanto, como afirma Johnson (2020), nós não somos o vírus a ser curado; o planeta já estaria em processo de “cura” caso qualquer ação de redução no uso de combustíveis fósseis fosse tomada. Isso nos chama a atenção para a urgência de implantação políticas públicas e planejamento frente à emergência climática e aos impactos das atividades humanas no planeta. Para alguns cientistas, o impacto das atividades humanas no planeta já pode ser classificado como unidade no tempo geológico, denominada antropoceno (ZALASIEWICZ et. al., 2019). Outras nomenclaturas também foram sugeridas para tal período: capitaloceno, plantationceno, cutulceno (HARAWAY, 2015) e, ainda, era sintética (PRESTON, 2019). Cabe lembrar a série de materiais descartados no mar, onde se encontram itens trazidos de todo o planeta, entre eles, restos de máscaras descartáveis (APOSTOLOU, 2020) e outros vestígios da intensa conectividade global. Desse modo, o coronavírus provoca repensar nossos valores, crenças, práticas e consequências futuras para o patrimônio cultural (HERITAGE FUTURES, 2020).

As vertentes para análises sobre COVID-19 são inúmeras na área de humanidades. Isto posto, nossas primeiras reflexões, aqui expostas, visam, de maneira genérica e ampla, contemplar o mundo do patrimônio cultural e, mais especificamente, os museus. Apesar da abordagem genérica, ressaltamos a necessidade de considerar as especificidades desse universo, relacionadas à existência e situação das políticas públicas para a área, dotação orçamentária, lugar/importância da cultura e do patrimônio cultural na economia local/regional/nacional, etc. Em outras palavras, temos em mente que a pandemia afeta (e afetará) de formas distintas e mais ou menos agudas, dependendo do cenário político e econômico geral, da robustez ou fragilidade do setor cultural e das características dos museus e propósitos dos museus, apenas para citar alguns aspectos a considerar.

Os impactos da pandemia sobre os museus e o patrimônio cultural se desdobram em distintas problemáticas, relacionadas à gestão e à socialização (por exemplo, reestruturação de planos de sustentabilidade e sistemas/dinâmicas operacionais, parcerias e cooperações interinstitucionais, preservação, conservação e gestão de riscos para os bens culturais e para as pessoas – públicos e profissionais – estratégias de comunicação e tecnologias de informação e comunicação). Cabe ressaltar que tais efeitos são recebidos e sentidos de formas variadas, dependendo das especificidades e condições dos museus e de outras referências patrimoniais.

A título de ilustração, lembramos dos grandes museus tradicionais, elementos-chave do turismo cultural de alguns centros urbanos, bem como sítios de grande visitação, cujo orçamento está a sofrer impactos dramáticos com a suspensão da bilheteria e das vendas de produtos (reduzidas ao e-commerce) e cujas especificidades têm levado à reflexão e ao desenvolvimento de protocolos para a reabertura, em consonância com as recomendações sanitárias [v] . Cabe destacar que o isolamento e o distanciamento social são sentidos de forma distinta em museus de características diferentes, como os museus comunitários.

No que se refere à relação socialização/comunicação, são dignos de nota os efeitos da pandemia na função educativa dos museus, efetivada na política da terceirização. Com o fechamento dos museus, pipocam denúncias de demissão de parte das equipes de mediadores e educadores, quando não a dispensa de todo o contingente. Diante deste panorama, as/os agentes são impelidos à denúncia e à articulação em prol da proteção da função educativa e de suas/eus trabalhadoras/es [vi] . Mas também são provocados à produção de materiais e exploração do mundo virtual para a divulgação, com ou sem o apoio de um setor de comunicação.

Isto tudo está levando a um frenesi produtivista e a uma vertigem, uma produção (neurótica?) e um consumo (compulsivo?) de conteúdos (LAVIGNE, 2020). Não é nossa intenção criticar os esforços genuínos e louváveis das equipes em prol da manutenção da função social dos museus, inquestionável neste momento de isolamento social. Pretendemos, isto sim, aproveitar a oportunidade para refletir sobre os propósitos das ações e a importância fundamental da clareza institucional, exposta na coerência entre sua missão, seus objetivos estratégicos e suas ações e em relação com as demandas e necessidades sociais. Em outras palavras, ressaltamos a pertinência de problematizar padrões institucionais relacionados ao “ter que fazer” e aos números (de ações, de eventos, de visitantes, de visualizações, de likes) [vii] . A título de ilustração de boas (e consistentes) práticas museais durante a pandemia, destacamos o concurso promovido pelo Museo Tyssen, que motivou seus usuários a buscar, nas coleções do próprio museu, obras que pudessem ser articuladas com os objetivos da Agenda 2030 da Organização das Unidas em prol de um mundo mais sustentável, tema candente e urgente, ainda mais na conjuntura atual [viii] .

No que respeita a conservação do patrimônio cultural, destacam-se também as reflexões e articulações das organizações em busca de identificar materiais, procedimentos e protocolos de higienização e conservação dos bens culturais que garantam a sua segurança e a das/os visitantes [ix] .

Esta breve e panorâmica exposição sobre os aspectos do mundo dos museus e do patrimônio cultural na perspectiva do mundo pandêmico e pós-pandêmico demonstra o considerável desafio que temos diante de nós. Embora não possamos vislumbrar quais serão os caminhos a tomar [x] , entendemos a gravidade, dramaticidade e diversidade da situação, que exige reflexão e mudança de paradigmas e de relação com os bens patrimoniais. Percebemos também a sua importância estratégica para a invenção de um mundo mais humano, mais saudável, mais sustentável e mais justo. Por tudo isto, conclama-se, em nível mundial, a articulação das/os agentes e da sociedade em prol da proteção e do fortalecimento das políticas públicas de cultura.



[i] Museóloga (UNIRIO), Especialista em Conservação de Bens Culturais Móveis (EBA/UFRJ), Mestre em Arqueologia (MN/UFRJ) e em Memória Social (UNIRIO), Doutora em Ciências Sociais (UERJ), professora do Departamento de Estudos e Processos Museológicos da UNIRIO e do Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural (IPHAN).

[ii] Arqueólogo, mestre em Arqueologia (MN/UFRJ), Doutorando em Antropologia (UFPA), Pesquisador Visitante no Departamento de Ciências Culturais (Linnaeus University). Website: https://tiagosamuniz.wixsite.com/meusite

[iii] COVID-19 é uma sigla para a doença Corona Virus Disease, a qual surgiu em 2019 e se espalhou em 2020 pelo mundo como pandemia. SARs-Cov-2 é a sigla para o vírus causador dessa doença, a qual significa, Severe Acute Respiratory syndrome Coronavirus 2; o número dois é em alusão à epidemia de coronavírus anterior que acometeu a China em 2002 com a síndrome“Respiratória Aguda Grave do Coronavírus”; à época esse vírus era chamado de apenas Sars.

[iv] A mídia divulgou amplamente os diversos efeitos decorrentes da desaceleração (de consumo de recursos e de circulação de pessoas e produtos) observados no planeta, desde a recuperação de parte da camada de ozônio e a drástica redução de substâncias poluentes na atmosfera até o reaparecimento de espécies de animais em lugares severamente impactados pelo turismo de massa.

[v] A título de ilustração, lembramos os estudos realizados pelo O ICOMOS-Espanha para a elaboração de protocolos para a reabertura de museus e outros monumentos, respeitando as orientações sanitárias, o que leva à readaptação de circuitos expositivos e controlede fluxos de visitação (https://elpais.com/cultura/2020-05-01/como-reabrir-un-museos-sin-ingresos-de-taquilla.html?fbclid=IwAR2DXOLITnwelGy03SKmlrulB12osIjB1SuCYQD-34eMKQwt7jK7ywaKi0w).

[vi] Cabe destacar a articulação entre o CECA/ICOM e a Rede de Educadores de Museus, que resultou na Carta Aberta e Recomendações do ICOM CECA/BR e da REM/BR - Rede de Educadores em Museus do Brasil para o momento de Pandemia de Covid-19 no Brasil (https://www.facebook.com/ComiteBrasileirodoICOM/posts/1175393462821606/).

[vii]  Para seguir as reflexões sobre a lógica quantitativa das ações museais, ver BALERDI, Ignácio Díaz. La memoria Fragmentada. Gijón: Ediciones Trea, 2008.

[viii] Sobre esse aspecto, ainda cabe ressaltar que, no Brasil, o acesso à internet e, portanto, aos conteúdos disponíveis na rede, ainda reflete a desigualdade social (https://www.educathyssen.org/actividades/concurso-arte-emergencia)

[ix] O ICOM-Brasil disponibilizou uma lista de recomendações para as instituições museológicas desenvolverem novos protocolos de conservação durante a pandemia (https://sabermuseu.museus.gov.br/recomendacoes-do-icom-brasil-em-relacao-a-covid-19/). O National Center of Preservation Technology and Training (NCPIT) divulgou um vídeo com instruções para desinfecção de objetos museológicos (https://www.ncptt.nps.gov/blog/covid-19-basics-disinfecting-cultural-resources/?fbclid=IwAR0_wmXmueediDAxxE6-Vc8ufsqOV9CsEfMvXI7B38Hk_vijUPVRcW2_lUw ).

[x] Se considerarmos as reflexões de diversos pensadores, que apontam para diferentes futuros possíveis (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/04/saiba-o-que-os-grandes-filosofos-estao-dizendo-sobre-coronavirus.shtml), podemos adaptar o título da obra de Ali Smith e concluir que, tal e qual o passado, o futuro é um país estrangeiro.


Referências


 

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