18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Fernanda Miranda de Vasconcellos Motta [1] 

No cenário de crise em que vivemos, com a disseminação global do COVID-19 e a necessidade de isolamento social, os museus são chamados a se reinventar. Por serem locais de aglomeração de pessoas, eles se vêem obrigados a fechar suas portas, por prazo indeterminado. Assim, mais do que templos que representam certa ordem e estabilidade, eles se configuram como interfaces sociais, auxiliando as pessoas a transitarem por um mundo cada vez mais instável e complexo. Essa mentalidade digital faz com que estratégias de mediação cultural inovadoras sejam pensadas, contribuindo para criar relações significativas entre as pessoas e o patrimônio.

Os museus podem oferecer as melhores condições para “germinação afetiva” - provocar significados e respostas emocionais a coisas, lugares e ideias - para lembrar às pessoas a importância do patrimônio (MCKENZIE, 2015, p. 198).

Simon (2010) ressalta que uma das barreiras à visitação das pessoas - sobretudo das mais jovens - aos museus se relaciona com o fato destas considerarem acervos e conhecimentos irrelevantes para suas vidas. Com a expansão das tecnologias sociais, abrem-se oportunidades de reversão desse quadro, a partir de relações dialógicas propostas pelos museus, rompendo-se limites de espaço e tempo. “As instituições se apresentam como plataformas que conectam diferentes usuários que agem como criadores de conteúdo, distribuidores, consumidores, críticos e colaboradores” (SIMON, 2010, p. 2).

Frente à realidade ameaçadora da pandemia, os museus têm a oportunidade de articular os sentidos de comunidade, criatividade e tecnologia para assegurar relevância social. McKenzie (2015) argumenta que, nessa situação, os museus podem oferecer às pessoas educação e terapia. Tem-se, assim, uma estratégia de mediação cultural que associa o lúdico, a dinâmica do jogo, ao potencial que aflora dos acervos museológicos. O propósito é estimular a ação, fazer com que as pessoas sintam que o patrimônio, de algum modo, ganha vida, entrelaça-se com seu cotidiano e estabelece diálogos possíveis. Tal dinâmica faz com que elas, cada vez mais, engajem-se nas experiências propostas em relação aos acervos, ampliando sua visão de mundo, valorizando a diversidade cultural, divertindo-se, ocupando o tempo ocioso, dissolvendo tensões.

Iniciativas, nesse sentido, com ampla repercussão nas redes sociais são os desafios globais propostos pela página do Instagram de origem holandesa “Tussen Kunst en Quarantaine[2] e pelo J. Paul Getty Museum, dos Estados Unidos. Tem-se uma espécie de gincana coletiva na qual as pessoas devem recriar determinado item do acervo ou obra de arte dos museus, contando com recursos disponíveis em suas casas para esse fim. Ao recriar as obras, os internautas devem compartilhá-las nas redes, identificando-as com as hashtags dos respectivos projetos. As pessoas que participam do desafio acabam por ressignificar sua própria experiência de isolamento social, lidando melhor com o desconforto de estarem, forçadamente, em casa. Elas se abrem às ideias e intervenções criativas, a partir de sua realidade individual, conectando-se a uma comunidade online maior que gera sentido de pertencimento, de agregação social. Usuários de tecnologias digitais se tornam produtores de conteúdo, compartilhando nas redes sociais os resultados de seu trabalho. Somente no Instagram, a hashtag#gettymuseumchallenge conta com mais de 36.600 publicações de usuários globais que aderiram à convocação do museu, realizando, de forma colaborativa, atividades de pesquisa, reuso e difusão de bens culturais, nas redes sociais. Já a hashtag#tussenkunstenquarantaine conta com 52.721 publicações [3] .

Figura 1 – Página do #gettymuseumchallenge no Instagram
Figura 1 – Página do #gettymuseumchallenge no InstagramFonte: https://www.instagram.com/explore/tags/gettymuseumchallenge/

O significado do acervo é reelaborado e enriquecido pelos usuários, sendo que a interpretação das obras agora envolve não apenas a observação, mas a ação criativa, performática, teatral. Assim como os museus do século XIX ofereciam oportunidade de produção artística, ao incentivarem o exercício amador em seus ateliês, os museus de hoje estimulam práticas baseadas na criatividade coletiva, integrando-as à sua estratégia institucional (SAMIS e MICHAELSON, 2017). A mudança é mais abrangente do que apenas em relação à tecnologia. As pessoas estão pensando sobre a experiência cultural de forma diferente em relação ao passado. Elas valorizam novas possibilidades de participação que vão além da contemplação dos bens culturais e que envolvam até mesmo a noção de corporeidade, “de se tornar a obra”.

No contexto digital, ganham ênfase as propostas de reuso e remixabilidade de acervos, com base na colaboração e no compartilhamento aberto, o que renova a experiência de museu (GONZALEZ, 2015). Glaveanu (2010) enfatiza essa mudança de concepção da cognição criativa, que é deslocada da ênfase no sujeito e de seu intelecto em direção à compreensão do papel social na criatividade. Essa concepção atual de criatividade concilia o “eu” e o “outro”, o “novo” e o “antigo”, o “analógico” e o “digital”, expressando uma interação contínua entre elementos aparentemente opostos. Diante dessa multiplicidade de caminhos, como bem observa Barbosa (2016, online), “mediação cultural não é medição, é ação”. Não basta que, quantitativamente, o acesso aos bens culturais se democratize, por meio das tecnologias digitais. É preciso provocar os públicos frequentes e não frequentes de museu para que se apropriem dos acervos e os ressignifiquem, possibilitando que seu valor seja preservado junto à uma sociedade em franco processo de mudança.


[1] Doutoranda no Programa de Gestão e Organização do Conhecimento - PPG-GOC/ UFMG. A autora agradece à FAPEMIG pelo incentivo à sua pesquisa, por meio da concessão de bolsa de estudos de pós-graduação. 

[2] Do holandês, “Entre arte e quarentena”.

[3] Dados obtidos em 10/05/2020.


Bibliografia Consultada


 

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