18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Rosaria Ono [1] 

Solange Ferraz de Lima [2] 

Introdução

O Museu Paulista da Universidade de São Paulo vem aqui, compartilhar um pouco das experiências com o projeto Novo Museu do Ipiranga, sob o ponto de vista da temática do ICOM para 2021. Mas para falar do futuro, é inevitável retomar o passado, pois é a trajetória desse centenário museu que permite melhor entender o que este novo projeto significa para a sua manutenção como importante referência nacional no campo da história do Brasil e da cultura material da sociedade brasileira.

O Museu do Estado, criado em 1890, ganhou a denominação Museu Paulista em 1893, no mesmo ano em que o “Monumento do Ypiranga” foi declarado propriedade do estado e destinado a abrigá-lo. O emblemático quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo de Figueiredo e Melo já ocupava o Salão Nobre. O museu é inaugurado, em 1895, com todo o seu pavimento térreo ocupado por salas de estudos e laboratórios, e o pavimento superior dedicado às exposições.

Ocupar um edifício projetado para ser um monumento, e não um museu, trouxe, desde o início, enormes desafios aos seus sucessivos diretores. Além disso, ao longo do século 20, o acervo do Museu Paulista cresceu significativamentecom aquisições acompanhando o ritmo das pesquisas das ciências naturais, etnologia e história do Brasil. Já no início do século 20, parte de seu acervo de pinturas foi transferido para a criação da Pinacoteca do Estado. Em fins da década de 1920, o acervo botânico foi transferido para o recém-criado Instituto Biológico, e em fins da década de 1930, o expressivo acervo de zoologia deu origem ao Museu de Zoologia, hoje também integrado à Universidade de São Paulo. Em 1989, os acervos de etnologia e arqueologia pré-histórica passaram a integrar o Museu de Arqueologia e Etnologiada USP. Outra mudança significativa no período foi a transferência do Museu Paulista das mãos da Secretaria da Educação para a Universidade de São Paulo, em 1963.

Na década de 1990, o professor Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes redefine a vocação atual do museu, que além de preservar os acervos de caráter histórico e a exposição permanente especialmente concebida para a comemoração do Centenário da Independência de 1922, passou a ser especializado em Cultura Material com foco na sociedade brasileira.

Do ponto de vista arquitetônico, o edifício-monumento do Ipiranga é a primeira grande estrutura construída em alvenaria de tijolos na cidade de São Paulo. Essa condição, e a qualidade de sua arquitetura eclética fez com que o Museu e seu edifício fosse tombado nas três instâncias de proteção do patrimônio histórico e artístico – municipal, estadual e federal.

Mesmo com as transferências ocorridas ao longo de sua história, os problemas espaciais e de adequação às funcionalidades de um museu não eram solucionados. O edifício passou por várias adaptações e reformas que tiveram consequências das mais diversas em sua integridade física, sendo que as mais ousadas, como a abertura do subsolo para ocupação de equipes e instalações sanitárias, no início da década de 1940, resultaram em manifestações patológicas, como umidade ascendente intensa próxima ao solo e fissuras (rachaduras) nos arcos e abóbadas.

O edifício do Museu Paulista no Ipiranga foi fechado ao público em 2013, em função da necessidade de modernização de suas instalações, assim como das adequações físicas do edifício às condições de segurança e acessibilidade contemporâneas. Em função deste fechamento, deu-se inícioum processo de reflexão e revisão do papel deste museu universitário, a começar pela sua importância como instrumento de interface da Universidade de São Paulo com a sociedade. E deste movimento, surgiu o plano do hoje denominado Projeto Novo Museu do Ipiranga.

Importantes decisões e ações institucionais foram tomadas nos anos que se seguiram ao fechamento, com base num plano elaborado pelas equipes do Museu Paulista e de outros órgãos da Universidade de São Paulo, contemplando: a) o diagnóstico das condições de segurança estrutural do edifício histórico e suas partes, a fim de estabelecer o programa de necessidades do projeto arquitetônico de modernização e restauro; b) a procura por imóveis com potencial de abrigar os acervos com segurança, temporariamente, para que as obraspudessem ser realizadas no edifício histórico; c) a elaboração de um novo programa de exposições, a fim de ampliar o acesso do público aos acervos e a externalização dos resultados das pesquisas realizadas no Museu; d) a idealização do projeto de um novo edifício denominado Bloco Técnico, para o abrigo das coleções do Museu num edifício definitivo, com toda a infraestrutura adequada para sua guarda.

Recuperar

O edifício - Nos mais de 120 anos de existência como museu, o edifício do Ipiranga nunca havia passado por uma grande intervenção para sua recuperação, portanto, era imperativo o seu restauro integral. As obras de restauro vêm permitindo a formaçãode uma documentação que vai garantir a preservação de uma memória importante das técnicas e materiais construtivos do passado, pois poucas são as informações existentes da época de sua construção, além de se permitir, neste processo, a exploração e consolidação de novas metodologias e abordagens de restauro.

O acervo – As coleções do final do século 19 e da primeira metade do século 20 do Museu Paulista tiveram como fonte principal as doações realizadas por membros da elite da sociedade paulista, portanto, refletem a sua visão de mundo. Os pesquisadores do Museu Paulista vêm, já há tempos, discutindo formas de apresentar diferentes leituras sobre a história da sociedade por meio dos acervos. As novas exposições vão, nesse sentido, mobilizar acervos que contemplam distintos e amplos segmentos da sociedade, e pretende garantir, assim, uma reflexão dos visitantes sobre casa e cotidiano dos brasileiros, o mundo do trabalho, e as operações ideológicas sustentadas por narrativas apoiadas em pinturas e esculturas históricas que, hoje, criam tensões dignas de debates, especialmente no que se refere às relações conflituosas no período colonial entre bandeirantes e os povos indígenas. Além do eixo que discute a sociedade, as coleções foram mobilizadas também para entender como um museu funciona. O eixo para entender um museu dedica-se a, por meio das coleções, aproximar o público do trabalho cotidiano em museus, caracterizado pelo que foi denominado o ciclo curatorial em suas 4 etapas – coletar, catalogar, conservar, comunicar. Na condição de um museu universitário, considerou-se fundamental este trabalho educativo e de extensão que amplia o conhecimento do público acerca da importância do trabalho museal e seu caráter científico. Um total de aproximadamente 4 mil itens de acervo encontram-se em tratamento para serem exibidos em 12 exposições, sendo uma de curta, quatro de média duração e sete de longa duração. O processo de tratamento e restauro de várias obras artísticas e objetos vem sendo realizado com base em análises e técnicas inovadoras – fruto de pesquisas de caráter interdisciplinar desenvolvidos na Universidade de São Paulo.

O público – Com o museu fechado ao público há quase 10 anos, há uma expectativade retorno do grande público cativo do museu, os grupos de estudantes de escolas públicas e de turistas de todo o Brasil, em sua reabertura. Espera-se, também, uma ampliação e diversificação dos públicos. Para tanto, os planos em elaboração contemplam permanentes diálogos com as exposições de longa duração, e uma robusta programação cultural, criando o dinamismo necessário para que o visitante retorne periodicamente ao museu, e tenha amplo acesso aos acervos qualificados por curadorias resultantes de pesquisas desenvolvidas na Universidade de São Paulo.

Reimaginar

Museu do Ipiranga - O Museu Paulista sempre foi popularmente conhecido como “Museu do Ipiranga”. O novo projeto marca, também, uma inflexão importante neste sentido, pois hoje assumiu-se o nome Museu do Ipiranga para designar a sede histórica do Museu Paulista. Ou seja, a instituição seguirá com sua denominação centenária mas o local das exposições e da programação cultural delas derivada em São Paulo passa a ser denominado Museu do Ipiranga. Viu-se esta adesão ao nome já conhecido como uma estratégia importante para dar destaque ao projeto e garantir uma comunicação efetiva com a sociedade. Essa decisão teve também benéficas consequências considerando os aspectos relacionados à exequibilidade do projeto e àsustentabilidade financeira do novo equipamento, que irá dobrar de área construída, com a incorporação de uma ampliação.

O projeto do Novo Museu do Ipiranga foi viabilizado por meio de uma parceria entre a USP e a Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP) que neste projeto realiza a gestão dos recursos captados com base nas leis federais de incentivo à cultura. Além de ser o maior projeto gerenciado pela FUSP, este era também o maior projeto aprovado pela Secretaria Nacional da Cultura, hoje superado pelo projeto de recuperação do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entende-se, portanto, que o Museu Paulista possui dois edifícios-sede para exposições, o Museu do Ipiranga, em São Paulo e o Museu Republicano Convenção de Itu, que completará o seu Centenário em 2023.

Novo modelo de gestão e sustentabilidade financeira – Face ao significativo aumento de área construída do Museu do Ipiranga, necessário para atender às demandas estabelecidas no Plano Museológico, e face às limitações na ampliação de verba pública para a manutenção do novo equipamento, um Grupo de Trabalho foi criado na Universidade de São Paulo em 2019, para que um modelo de gestão fosse estudado e proposto para a instituição a partir de 2022. O novo modelo considera que a USP continuará provendo o recurso anual ao Museu Paulista, para preservar as missões básicas deste museu universitário, combinado anovas fontes de captação de receitas, principalmente da iniciativa privada e de editais públicos e privados, para ampliar os seus serviços e expandir suas atividades de docência, de pesquisa e de cultura e extensão universitária.

Ações virtuais – Um dos eventos presenciais mais importantes do Museu Paulista e que ocupava o Parque da Independência, promovido anualmente desde 2017 em parceria com o SESC-Ipiranga e a Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de São Paulo, era o “Museu do Ipiranga em Festa”, em comemoração à data da Independência do Brasil. Em 2020, em virtude da pandemia, este evento ganhou um formato digital, com a campanha intitulada “Ecos do Ipiranga – um museu onde a história ganha novas histórias”, incluindo visita virtual 3D ao edifício, podcasts, filtros no Instagram, vídeo-depoimentos e um videoclipe. Foi uma experiência que, além de atingir um público muito maior e diverso, proporcionou novas formas de pensar e planejar eventos culturais, para que sejam mais inclusivos e permitam a participação ativa do público. Além de promover vários outros eventos previstos no calendário cultural dos museus, da cidade e da universidade, o Museu Paulista tem coordenado ações relacionadas à divulgação digital do projeto Novo Museu do Ipiranga, em parceria com a FUSP, que tem resultado em produçõescomo de vídeos sobre o andamento das obras–os episódios “Diário da Obra” – e da série “Encontros com o Acervo”,que apresenta a pesquisa sobre alguns objetos dos acervos que farão parte das exposições. A partir do segundo semestre deste ano, há a previsão da oferta de uma série de 12 palestras online sobre cada um dos temas das exposições planejadas para a reabertura do Museu do Ipiranga – com vagas gratuitas para professores e estudantes da rede pública. Certamente, mesmo com o fim da pandemia, ações digitais continuarão, pois possibilitam o acesso de um público que nem sempre pode participar presencialmente das atividades promovidas pelo Museu.

Digitalização e acesso virtual aos acervos – O Museu já vem, há alguns anos, realizando a digitalização de imagens do seu acervo e disponibilizando na internet aquelas de domínio público, por meio da alimentação do Wiki GLAM. A inserção do Museu Paulista nas plataformas Wiki teve início em 2017, mas foi incrementada a partir de 2020, graças ao apoio da Fundação Banco do Brasil. Desde então, maratonas de edição de verbetes sobre temas e acervos do Museu foram promovidas pela parceria com a Wiki Movimento Brasil, que resultaram em mais de 2.500 edições de aprimoramento de verbetes, alcançando mais de 2,6 milhões de visualizações. Foram também carregados cerca de 30 mil arquivos no Wikimedia Commons, numa iniciativa de adesão às práticas de conhecimento aberto e licenças livres, a fim de atingir um público amplo e diversificado. Essas atividades continuam e incluem, ainda, ações para dar visibilidade a grupos minoritários,também como parte do projeto apoiado pela Fundação Banco do Brasil. Em paralelo, também está em andamento, desde 2017, um programa de disponibilização de acervos e exposições em plataforma digital num convênio com o Google ArtInstitute. E foi firmado, em 2020, uma parceria com o Laboratório de Inteligências da Universidade de Brasília,para a migração do atual sistema de documentação e repositório do Museu Paulista para o Tainacan, sistema desenvolvido a partir das premissas de software livre e que vem sendo adotado pelo IBRAM para uma ampla gama de museus nacionais e estaduais.

Ainda no campo da cultura digital, o museu está desenvolvendo, com o apoio da Superintendência de Tecnologia da Informação da USP (STI), um ambiente virtual imersivo, para realização de exposições virtuais, sala de jogos e outras formas interativas visando contemplar diferentes faixas etárias de forma envolvente e também lúdica. O Museu do Ipiranga está em São Paulo e as visitas presenciais seguirão como um atrativo essencial para o público, mas as possibilidades de uso das plataformas da realidade virtual apontam para uma nova forma de relacionamento dos museus com seus públicos, neste caso, sempre mediados pelos acervos e pelo conhecimento gerado a partir dos projetos de pesquisa acadêmicos.

Todas essas ações partem de uma premissa que, hoje, é uma marca das novas exposições e de seus espaços modernizados: a acessibilidade. As exposições e todos os materiais delas derivados contarão sempre com versões acessíveis. Para os ambientes virtuais este é ainda um desafio, mas sem dúvida uma visão de futuro.

O Museu Paulista da Universidade de São Paulo vem planejando e promovendo muitas inciativas de fronteira nos últimos anos, mas que se aceleraram em 2020, com as condições impostas pela pandemia, e que possibilitou ampliar as funções deste museu histórico, público e universitário, nas formas de interagir com seu público e ampliá-lo.


[1] Diretora do Museu Paulista (gestão 2020-2024).

[2] Docente e Diretora do Museu Paulista (gestão 2016-2020).


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