18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Pedro Paulo A. Funari [1] 

A pandemia que afeta a todas desde o início de 2019 apresenta o potencial de mudar comportamentos. No curto prazo, as mudanças podem estar nos detalhes da vida quotidiana, da gestualidade às práticas de tratamento das outras e de si mesmas. No longo prazo, pode augurar-se que essa necessária reflexão e consequentes mudanças comportamentais possam conduzir a um mundo de convivência entre humanos e também com todo o ambiente. Os museus participam deste contexto. De imediato, a visitação foi restrita ou mesmo fechamentos por longos períodos ocorreram pelo mundo todo. No caso daquelas instituições que são remuneradas pelos visitantes, houve queda ou interrupção de arrecadação, com consequências imediatas. A própria administração foi afetada, da manutenção física de edifícios à curadoria. Houve um esforço generalizado de aumento da acessibilidade digital, com muitas iniciativas inovadoras e de grande potencial de educação, no sentido amplo do termo: Bildung, formação para a completude.

A diminuição do público visitante logo levou à constatação tanto da importância da experiência do contato no local com acervos, pessoas, cidades, culturas locais, como as debilidades da visitação de massa e o consumo sem reflexão desses espaços. Salas abarrotadas e que mal permitiam ao visitante observar algo de perto foram substituídas por caminhadas mais relaxadas e centradas na experiência do ambiente ou das obras. No lugar da busca desenfreada por selfies com obras de arte ao fundo, pode observar-se, desenhar, ou escrever um comentário no caderno de anotações. Em lugar de comida rápida no fastfood do lugar, refeições mais calmas e em ambiente menos barulhento, pelo distanciamento. Cidades museus, como Veneza ou Pompeia, puderam verificar os danos do consumo de massa e o imenso potencial aberto pelos poucos visitantes que puderam interagir com os habitantes, com sua cultura ou com seu ambiente natural. No curto prazo, houve perda de renda, desemprego e até mesmo exasperação. Abriram-se oportunidades para novas práticas, mais criativas e ricas para frequentadores e profissionais de museus, para todas as pessoas.

A frequentação física de museus ou de conjuntos inteiros de cidades tomadas como similares pode converter-se em oportunidade de enriquecimento cultural, humano, ambiental e espiritual. O contato com pessoas, obras e com tudo o mais pode permitir que as pessoas saiam com uma experiência crítica e reflexiva de si mesmas e de sua relação com o outro, humano ou não. Essas frequentadoras serão menos numerosas, serão mais lentas em tudo, do slow food (refeição lenta, por oposição à rápida) à interação humana e ambiental, como no ócio criativo formulado pelo estudioso italiano Domenico de Masi. A frequentação desenfreada de muitos museus e assemelhados, no mundo todo, do Camboja (Angkor) ao Egito (Luxor), do Peru (Machu Pichu) à Europa (Veneza), poderá ceder frente a uma nova relação entre as pessoas entre si e com a cultura alheia, ou mesmo própria. Isso será também de imediato efeito na relação das habitantes locais consigo mesmas e com a alteridade. Abre-se espaço para que as habitantes desses lugares possam interagir, e não apenas servir ou esperar apenas lucrar (ou ganhar o suficiente para sobreviver) com a visitação. A crise atual oferece uma oportunidade única de mudanças, ao mostrar que se pode não tanto trabalhar, como viver, não tanto competir, como conviver, não tanto explorar, mas cooperar.

Em seguida, a expansão do conhecimento e da interação proporcionada pelo contato virtual pode beneficiar a muita gente, muitas pessoas mais do que antes. Os estudiosos poderão ter cada vez mais acesso a acervos museológicos, stricto ou lato sensu. Cada vez mais acadêmicos de lugares distantes poderão beneficiar-se e beneficiar a todas pelo estudo de material em qualquer lugar. No lugar do privilégio da proximidade física ou social, na forma de status e riqueza, dos acervos, pode prevalecer o acesso muito menos limitado, em termos sociais e geográficos, de modo que tudo possa ser estudado, refletido e criticado por todas, ou, ao menos, por muito mais pessoas. Talvez o mais significativo esteja nas potencialidades abertas ao contato das pessoas mais humildes. Museus continuam como bem cultural de alcance social limitado por diversas variáveis: renda, classe, educação, tempo livre disponível, raça/etnia, gênero, entre outras. O acesso remoto e digital pode permitir a abertura para pessoas excluídas pelos mais variados motivos.

Pode objetar-se que estas considerações são mais desejos pueris (wishfulthinking) do que possibilidades palpáveis. São objeções válidas, frente a circunstâncias tão difíceis e desafiadoras, frente ao passado, tão conflitivo, opressor e infenso à convivência e à colaboração. E ao presente, aqui e alhures. De fato, todo documento de cultura, das civilizações fundadas na exploração, como alertou Walter Benjamin, é documento de barbárie. Mas, os museus, lugar de custódia do passado, podem servir para a convivência, não para a opressão. O episódio depressivo pelo qual passamos pode servir para espalhar a consciência, o conhecimento coletivo (cum, com, scio, conheço, consciência, saber com as outras pessoas), as práticas de convívio, em benefício coletivo. Os museus podem parecer um pequeníssimo grão, um grão de areia no deserto, sem capacidade de mudar o mundo. A pandemia pode lembrar-nos que o menor passo é em si relevante. No conjunto, pode ser decisivo. Se a pandemia puder contribuir para repensar os museus, e o futuro da humanidade e do mundo (nada menos!), poderá ser algo inspirador.


[1] Unicamp.


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