18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Marco Antonio Xavier [i] 

Olá para vocês que acharam mais esta mensagem... pois há um ano escrevi outra.

Agora escrevo em maio de 2021, uma data que acreditávamos seria melhor, com vacinas para todos, acostumados que éramos com as memoráveis campanhas de vacinação em massa, aliás, a primeira que me lembro foi a contra o surto de meningite, durante o regime militar, que conseguiu controlar a epidemia apesar de esconder o número assustador (para a época) de mortos e sequelados. Tsc, tsc...

Nossa falsa sensação de segurança, aliada com uma esperança consoladora, foi posta à prova e nos acordou do sonho para o pesadelo cotidiano. Mas como dizia a música: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia...”. Seguimos vivendo (e morrendo) e nos cuidando (a nós e aos outros, por amor).

Aquela mensagem anterior tratava dos museus como uma “redenção” destes tempos difíceis. Pensava que a simples existência deles bastasse para fazer frente aos problemas que se apresentavam àquela época [1]; mas percebi que o “existir” não era suficiente. Era necessário, mais do que nunca, pensar a Comunicação na pós-pandemia; como costumava dizer: os acervos dos museus “não têm bocas”; cabe a nós, profissionais de museus (e não só os museólogos) “falar por eles”.

Por causa disso me dediquei a indagar sobre as formas que os Museus se comunicam com seus públicos, interno e externo, e as mensagens que são deixadas. São pensamentos por vezes desencontrados, não sistematizados, inquietantes... mas me fazem sentir vivo e atuante, ainda presente na sociedade apesar dos problemas e circunstâncias.

O contato entre as pessoas (preocupadas e conscientes) diminuiu imensamente, mas a troca de mensagens entre todos aumentou inversamente. Veja que escrevi “troca de mensagens” e não “informação”, pois são diferentes na essência.

Não podemos cair na falácia que o mundo digital (as redes sociais por “excelência”) irá solucionar esta comunicação. A Nuvem engana e, como náufragos que somos, nos apegamos a qualquer destroço com esperança que acabe no calhau. Vídeos (curtos), textos (curtos), likes, lives e conteúdos (curtos) disputam a atenção das pessoas com memes e fotos de gatos [2]. A complexidade dos acervos acaba resumida “no que cabe” ou “que alguém vá ler”, limitando a mensagem. Comunicar um acervo não deve ser (só) isso.

"Não, pai! Esta é uma notícia falsa!""Não, pai! Esta é uma notícia falsa!"

Os museus não poderiam entrar nesta busca efêmera por público, por simples visibilidade, likes e seguidores; mais que nunca era necessário formar “um público”, mas não abandonando os preceitos e as certezas incertas que fazem um museu ser um “museu” e não um simples lugar [3] de exposição de “coisas”, materiais e imateriais. Museus tem que deixar claro o porquê da existência (e sobrevivência) de seus acervos, as razões de suas criações, as bases em que se fundavam. Algumas pessoas até podem contestar estas razões, mas não podemos admitir que afrontem todo o trabalho dos profissionais de museu com um movimento “museu sem partido”, num falso moralismo e isenção que denota a falta de (vontade de) pensar amplamente nos conceitos, atos e vivências da sociedade contemporânea e de como chegamos a ela.

Outra questão está na veracidade desta mensagem/informação. E aqui não estou discutindo a Verdade, mas a plausibilidade, a qualidade da fonte, a checagem e a confiabilidade do que é “postado”.

Cada um tem direito a uma opinião própria, mas devemos deixar claro as premissas (e pré-conceitos) nas quais nos baseamos. O mundo digital abriu espaços para a liberdade de circulação de ideias (algumas vezes “perigosas” para governos despóticos ou tirânicos) e para que pudéssemos ter acesso a informações de diferentes fontes. Este “paraíso digital” foi perdido quando se percebeu que a “rede” aceita tudo. As fake news nos fazem tanto mal, são tão danosas, quanto um vírus mortal, porque elas não têm “vacina”, o remédio é ter uma atitude perspicaz, de mente aberta, não acomodada e de diálogo com argumentos factíveis, já que o conceito de “fato”, mais ainda do “fato histórico” está em guerra aberta com o revisionismo oportunista e imediatista. As opiniões “sobre tudo”, mesmo que mal formuladas e criadas “do nada”, com o uso desastroso de memórias incoerentes, deslocaram a Ciência (Scientia = Conhecimento) e o Fato (não confundir com a Verdade!) para um plano inferior, muitas vezes demonizados ou tratados como “criações absurdas de gente sem ter o que fazer” e as pessoas, em sua maioria, querem ouvir aquilo que elas identificam com seus valores, ideias e ideais... não se predispunham a contestações, ao debate, a escutar os outros... criaram uma dicotomia do “nós contra eles”, sem saber ao certo de que lado estavam.

Museus são “instituições” que só florescem e se perpetuam quando não se prendem a “oferecer o que o público quer”, porque temos certas certezas que o que o “público quer”, atualmente, é o que é “oferecido” a ele. Estamos presos a algoritmos que ditam nossos gostos, o que pensamos, o nosso comportamento imediatista... até em quem votamos e “elegemos” como lideranças e paradigmas [4]. Museus podem (e devem) quebrar este círculo vicioso e ir em busca de uma atitude de contestação, polêmica e conscientização.

Ainda hoje (e acredito que até mesmo aí, no futuro) a ideia marcante é que o principal público de museus seja formado por estudantes. Durante muito tempo [5], a “educação” em museus ficou grudada “erroneamente” neste termo, como se eles (museus) fossem apêndices das escolas. Educar e ensinar são termos irmãos, mas como os irmãos, mesmo os siameses, tem “personalidades” próprias que devem se respeitar e ser respeitadas. O uso da palavra “mediação” define melhor, para mim, esta função de comunicar os museus e nos museus. Da mesma forma que os objetos que vão para um museu não vão por conta própria, pois são frutos de escolhas e ditames [6], o que será comunicado também passa por um crivo, sendo selecionado e tratado, oferecido com uma intenção explícita ou não. Somente em poucos casos esta mediação com o público é aberta, de maneira que não há um discurso, um percurso, uma mensagem já fechada, pois isso é o contrário de mediação. De outra forma, estaremos (nos museus) reproduzindo o mesmo controle das redes sociais, “enganando” o público com uma falsa sensação de respeito e transparência.

Ainda nesta linha, a inclusão de públicos com necessidades especiais [7] estava engatinhando “a passos largos” nestas décadas iniciais do séc. XXI... mas aí veio a pandemia, o distanciamento social, a falta de contatos físicos; as limitações já eram difíceis para os ditos “normais” (com o isolamento se tornando também “normal”) e os projetos e ações de inclusão, inclusive social, tiveram que ser repensados. Gostaria muito de saber como isso será resolvido num momento pós-pandemia, pois não haverá um velho “normal” para retornar. No momento, estamos a repensar muitas questões, por vezes atabalhoadamente. A Realidade nos ataca como uma avalanche e é difícil se manter à frente do “desastre”.

E ainda há mais uma questão importante, em especial nos tempos atuais: a presença.

Não considero os museus virtuais como virtualmente um museu. Nada substitui o “contato” com um objeto ou uma obra de arte, uma sensação captada pelos sentidos. Num museu “presencial” a interação entre o acervo e as pessoas (e entre elas) é marcante. Como numa viagem, nada consegue captar e exprimir nossa interação com o que nos cerca. Estas sensações não são iguais para todos e é isso que as tornam únicas, em tempo e espaço. Flanar por um museu levou a incontáveis pensamentos e criações. Monteiro Lobato dizia que era impossível saber o quanto a Humanidade havia ganho e conquistado por visitas ocasionais a museus; respondo a ele com dois exemplos de frequentadores de museus que foram marcados por estas visitas e mudaram nossa História, a ponto de se tornarem “musealizáveis”: Van Gogh e Picasso. Nossa saúde, física e enquanto sociedade, necessita do contato, da proximidade. Somos seres gregários e percebemo-nos enquanto indivíduos quando interagimos e vivemos próximos uns dos outros.

Se esta pandemia nos ensinou algo foi que somos “muito burros” para aprender. Deixamos de pensar e seguimos consumindo. Podem dizer que estou mais pessimista, até mesmo ranheta com a situação, mas sigo comunicando e pensando livremente. Mas continuo com fé, não num deus invisível e improvável, mas uma crença forte que a Humanidade irá se superar, aceitar os desafios e recriar... tenho certeza que alguém irá ler esta mensagem... e refletir. Gostaria muito de estar aí, no Futuro, e dialogar com vocês. Espero que os museus sigam presentes e atuantes... espero e acredito.

Como um náufrago estou aguardando um resgate, não de minha pessoa, mas da capacidade do ser humano de ser, simplesmente, “humano”. Museus são expressões marcantes desta humanidade e imprescindíveis, como botes salva-vidas em tempos revoltos. São nossa tábua de salvação, nossa maneira de sobreviver para além de nossas curtas vidas. Porque preservar coisas, mesmo que a nossa sociedade passe [8]? Porque é uma forma de sobre viver! E quem vier verá!

(mensagem achada numa garrafa PET, digitalizada e impressa em papel,
cerca de 12 de maio de 2020, autor desconhecido, apelidado de “O Náufrago”;
vide https://revistamuseu.com.br/site/br/artigos/18-de-maio/18-maio-2020/8516-mensagem-na-garrafa.html)


[i] Mestre em História Social/USP. Pesquisador do Museu Casa da Hera/Ibram.
[1] Hoje.
[2] Antes que falem algo contra: sou gateiro!
[3] Em muitos casos não eram lugares simples.
[4] Para isso recomendo o excelente documentário O Dilema das Redes (2020), se é que no tempo dos leitores destas linhas ele já não estará perdido, soterrado na Nuvem por vídeos “engraçadinhos”.
[5] Tempo demais, do meu ponto de vista aqui no Passado.
[6] E pouquíssimas vezes sabemos quem fez estas “filtragens”.
[7] Mas nem por isso menos capazes que os outros indivíduos.
[8] E ela irá sucumbir.


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