18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

 [1] 
Luiz Henrique Assis Garcia
Míriam Célia Rodrigues Silva
Daniella Parreiras Dutra
Isac Santana
Danielli Di Ming

Diante de um evento da proporção da pandemia de Covid-19, que continua a vitimar e atribular populações ao redor do planeta, é necessário um grande esforço coletivo em todas as áreas do conhecimento. Também a Museologia se engaja nesta busca por compreender e lidar com problemas diversos desencadeados por uma crise desse porte. De imediato, a adoção de medidas de restrição do contato social, impossibilitando o público de frequentar pessoalmente os museus, aumentou visivelmente a intensidade e o apelo pela realização de atividades “remotas” e instou profissionais do campo e museus de todo o mundo a intensificar ou adotar esforços para garantir presença nas redes digitais. Quando o ICOM Brasil realizou uma oportuna pesquisa online, com os profissionais (Parte I) e os públicos (Parte II), constatou-se que “43% dos respondentes participaram de alguma atividade digital promovida por museu durante a pandemia, e 24,1% afirmaram ter tido seu primeiro contato com o museu por meio do ambiente digital” (ICOM BRASIL, 2020).

Entre ações diversas podemos citar desde a simples manutenção ou criação de canais e disponibilização de conteúdo nas chamadas redes sociais e plataformas digitais, investimento nos sites próprios para expor coleções digitalizadas, promover visitas mediadas online e mesmo criar exposições totalmente concebidas para o meio digital. Algumas delas tomam esses meios apenas como veículo, enquanto outras manejam melhor sua linguagem e possibilidades, como por exemplo, o Museu da Imigração (SP), ao utilizar suas redes sociais para interagir com seus seguidores por meio da ação #AcervoemCasa. O museu escolhia semanalmente um objeto de seu acervo, disponibilizando informações sobre ele e convidando os internautas a responder a publicação com uma foto de outro parecido e um texto sobre sua relação com o objeto associado. Também propostas colaborativas fora de espaços institucionais ganharam mais visibilidade, como a página Arte Fora do Museu [2], que reúne quase duas mil obras compreendendo coleções arquitetônicas, esculturas e arte em murais espalhadas por espaços públicos do mundo. Ali, fotos enviadas pelos internautas são avaliadas e catalogadas com informações sobre elas e seus artistas. É possível compartilhar, criar roteiros personalizados e utilizar um sistema de geolocalização que identifica as obras próximas dos usuários.

Interessa-nos sobretudo a possibilidade de interação nesse meio específico, que consiste num desafio para as possibilidades do comunicação com o público dos museus e aventa futuras possibilidades para os museus recuperarem e reimaginarem os bens culturais pelos quais lhes compete zelar. Provocados pelo tema proposto para as reflexões do Dia Internacional dos Museus, intentamos aqui um pequeno exercício para examinar as possibilidades de intervenção dos museus ante o fluxo comunicativo nas redes, a partir de um significativo episódio ocorrido em 07 de agosto de 2020. Após a apresentação ao vivo pela internet (vulgo "live") de Caetano Veloso e filhos naquela data, a edição brasileira da revista Rolling Stone [3], cometeu essa tremenda ga(r)fe: "Um dos momentos mais inusitados e cômicos aconteceu em 'Pardo', quando Moreno Veloso, na falta de instrumentos, usou um prato e um talher para fazer o som. Quem sabe faz ao vivo, não é?”

Constatar o desconhecimento desse patrimônio e da história da música popular no Brasil, por parte do autor da notinha e da revista que o publica, é imediato [4]. O texto denota falta de repertório, de um mísero átomo de conhecimento sobre a tradição do samba de roda, seja no Recôncavo Baiano - onde fica Santo Amaro da Purificação, terra da família Veloso - seja do samba em geral, uma vez que esse "recurso" seguiu sendo usado em terras cariocas "desde que o samba é samba". O samba de roda incrementa a lista de expressões que fazem parte de políticas nacionais e internacionais de salvaguarda do patrimônio imaterial. Nas políticas de patrimônio nacionais, expressões musicais tradicionais estão registradas no "Livro de Registro das Formas de Expressão - Bens Culturais Imateriais" e o samba de roda do Recôncavo Baiano faz parte da lista junto de outras expressões entre elas o Frevo, Carimbó, Jongo e Matrizes do Samba no Rio de Janeiro (ALMEIDA, 2011). Também consta da terceira lista de obras-primas do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade da UNESCO, promulgada em 2005.

A nota desconhece ainda que esta forma de se reapropriar de objetos do dia a dia para fazer música é recorrente desde tempos imemoriais. Lembramos que objetos são semióforos, “portadores de significados” (Pomian, 1986), eles carregam informações em sua materialidade, e reverberando polifonicamente ajudam a contar histórias de povos, culturas e seus modos de saber e fazer. E finalmente, que a marca do improviso revela um tanto sobre a criatividade popular e as formas de desdobrar as evidências do precário, do provisório. Tensões sociais que as classes pobres desvelam e enfrentam nas táticas improváveis e soluções imprevistas que nascem da força do improviso. Nada há de inusitado, ou cômico, nem faltou instrumento e muito menos a habilidade de percussionista de Moreno poderia ser assim desconectada de sua aproximação orgânica com tal tradição, e muito menos massacrada pelo clichê roto proferido aos borbotões por certo apresentador de programa televisivo.

Comentários publicados pelos leitores da revista em seu próprio sítio e nas redes sociais em geral, com críticas e apontamentos sobre a riqueza do tema, seguidos da retratação, evidenciam o potencial da rede mundial de computadores para criar espaços colaborativos e participativos que possibilitam a construção de conhecimentos e novas formas de apropriação do patrimônio. Em meio às objeções lançadas por gente que conhece do riscado vimos menções a Dona Edith do Prato, baiana de Santo Amaro que deixou belos registros dessa arte em disco, ou João da Baiana, um dos artífices maiores do samba brasileiro desde as rodas e terreiros do Rio de Janeiro.

E aqui queremos destacar a intervenção do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro - que começou por João da Baiana sua coleção de "Depoimentos para a posteridade" e incorporou prato que ele tocava em seu acervo de objetos, que pode inclusive ser visualizado em 3D digital [5]. Com senso de oportunidade e responsabilidade, o MIS interviu no debate disponibilizando ao público informações e material digitalizado, na condição de detentor de acervo e conhecimento referenciais sobre o assunto [6]. Estudando o emprego da rede social Facebook pelo Museu da Música de Mariana (MMM), Mayra Marques (2018, p.79-80) constata seu alcance, convite à interação, que pode implicar eventualmente em colaboração e ampliação do público. Isso ficou evidenciado especialmente a partir da adoção do que foi denominado na instituição como “mediação digital pedagógica”, em que um uso mais adaptado do meio em questão revela-se eficiente para apresentar conteúdos de pesquisa acadêmica para uma audiência maior e incentivar a interação com os frequentadores da página e do museu.

No exemplo que trazemos aqui nos interessa destacar a importância manter registros preservados, devidamente estudados, para que o comentário de ocasião, no calor do momento, sendo consequente e bem fundamentado, reforce a relevância de instituições como os museus, na condição de custodiadoras, colecionadoras e disseminadoras dessas memórias históricas e culturais. O MIS-RJ foi fundado em 05 de setembro de 1965 em uma inédita proposta para salvaguardar a memória da música brasileira, ali representada a partir do samba carioca (MESQUITA, 2011). Foi o primeiro museu brasileiro dedicado exclusivamente à preservação e difusão do patrimônio registrado em suportes audiovisuais que buscou musealizar essa tipologia de acervo, e sua criação provocou um grande impacto no universo museológico (LENZI, 2018). Vale observar que os depoimentos e gravações de histórias orais são elementos centrais das políticas de acervos do MIS-RJ assim como de todos os outros MISes [7] fundados posteriormente pelo país (MENDONÇA, 2012). Constatamos que o registro do patrimônio imaterial em suportes audiovisuais foi um fator determinante para a patrimonialização do audiovisual, e que, mais recentemente, a digitalização dos acervos e também o surgimento de acervos nativos digitais possibilitou que as instituições disponibilizassem muito material na rede.

Polêmicas como essa gerada pela publicação da revista e sua repercussão imediata nas mídias são oportunas para demonstrar o papel social das instituições, com seu conhecimento e acervos documentais e museais capazes de contextualizar e mediar a construção de sentido e conhecimento sobre a relação entre os seres humanos e sua cultura material. Termos que reivindicar importância disto com tanto esforço é, em si, sintomático, porém cabe também aos pesquisadores e instituições museológicas o trabalho de superar essa ga(r)fe.


[1] O texto é fruto das atividades do Grupo de Estudo SOMMUS (Som e Museologia) da UFMG, coordenado por Luiz H. Garcia (Museologia e PPGCI-UFMG), ao qual todos os autores estão vinculados: Míriam Célia Rodrigues Silva (doutoranda PPGCI-UFMG), Daniella Parreiras Dutra (mestranda PPGCI-UFMG), Isac Santana (mestrando PPGCI-UFMG), e Danielli Di Mingo (graduanda Museologia-UFMG).
[2] https://arteforadomuseu.com.br/
[3] Periódico jornalístico que cobre predominantemente o noticiário associado ao entretenimento e indústria cultural, fundado no Estados Unidos em 1967, publicação impressa no Brasil entre 2006 e 2018, editada atualmente apenas em formato eletrônico.
[4] Note-se que o impacto negativo foi tal – incluindo uma queixa do próprio Caetano Veloso - que o editor da revista providenciou o apagamento da nota, um pedido de desculpas e na sequência publicou um dossiê sobre o samba de roda e o uso do prato-e-faca. https://www.oliberal.com/cultura/musica/caetano-veloso-chama-nota-da-revista-rolling-stone-de-maluquice-e-ignorancia-1.294772; https://rollingstone.uol.com.br/noticia/6-melhores-momentos-da-live-de-caetano-veloso-bronca-nos-filhos-tributo-moraes-moreira-e-mais/; https://rollingstone.uol.com.br/noticia/dossie-o-samba-de-roda-e-o-prato-e-faca/
[5] http://www.mis.rj.gov.br/mis-em-3d/prato-joao-da-baiana/
[6] Cumpre notar, aliás, que alguns apontamentos iniciais que estão na origem deste texto surgiram acompanhando o debate promovido pelo curador da exposição na nova sede do MIS-RJ, ainda por ser inaugurada, Hugo Sukman, na sua página pessoal na rede Facebook, em postagem pública a 10/08/2020. https://www.facebook.com/hugo.sukman/posts/3626151184069947 . Acesso em 12/05/2021.
[7] Atualmente são cadastrados 42 MISes, segundo consulta no site do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).


Referências

  • ALMEIDA, Luiz Fernando de. Apropriação e salvaguarda do patrimônio imaterial. In: SANTʼANNA, Márcia (org.) Os sambas brasileiros: diversidade, apropriação e salvaguarda. Brasília, DF: Iphan, 2011, p.6-17.
  • ICOM BRASIL. Dados para navegar em meio às incertezas: Parte II - Resultados da pesquisa com públicos de museus. 2020. 41 p. Disponível em: https://https://www.icom.org.br/?p=2121. Acesso em: 07/05/2021.
  • LENZI, Isabella. Museu da Imagem e do Som de São Paulo: o processo de criação e as diretrizes iniciais (1970-1980). PPGMUS interunidades USP. Dissertação, São Paulo, 2019.
  • MARQUES, Mayra de Souza. Trajetórias do Museu da Música de Mariana: mutação e pluralização dos meios da memória cultural. PPGHIS UFOP. Dissertação, Ouro Preto; Mariana, 2018.
  • MENDONÇA, Tânia Mara Quinta Aguiar de. Museus da Imagem e do Som: O desafio do processo de musealização dos acervos audiovisuais no Brasil. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Tese, 2012.
  • MESQUITA, Cláudia. A trajetória de um “museu de fronteira”: a criação do Museu da Imagem e do Som e aspectos da identidade carioca (1960-1965). In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (orgs). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p.199-213.
  • POMIAN, Krzysztof. Colecção in: Enciclopédia Einaudi v.1: Memória-História. Lisboa. Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986, p. 51-86.

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