18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Inês Gouveia [1] 

Agradeço à Revista por novamente ocasionar este diálogo, celebrando o Dia Internacional de Museus. O desafio proposto é refletir sobre o futuro dessas instituições e para tal projeção, opto por substituir a palavra “recuperar” por “reparar”. Ao imaginar o futuro, indago sobre as representações do presente, compreendendo-o como um tempo marcado pela sobreposição de traumas sociais. Indago sobre como os museus podem contribuir para processos de reparação, fundamentais para a construção de futuros. [2] 

Em “Memórias da Plantação”, Grada Kilomba afirma um percurso de “consciencialização coletiva”, remarcado por 5 estados: negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação. [3] A autora analisa episódios cotidianos de racismo que reencenam o passado colonial, no presente, figurando uma realidade traumática. É como se o tempo da plantação não cessasse, repetindo-se e violentando as pessoas negras num ciclo que busca atualizar as condições de força geradoras do trauma. Conforme observa Paulo Endo, numa perspectiva freudiana, a experiência do trauma pode comprometer tanto a possibilidade de lembrar quanto a de esquecer. [4] Relacionam-se, em síntese, o impedimento de situar a experiência no tempo e na memória, o recalque e a repetição. Conforme explica Seligmann-Silva: “o trauma é caracterizado por ser uma memória de um passado que não passa”. [5] Nessas condições, o futuro não existe como potência do novo, apenas como reiteração do pretérito.

Aquilo que hoje projetamos como futuro está em 2022 e além. Nesse tempo (cuja antessala já está sendo preparada) depositamos alguma dose de esperança. [6] No Brasil, o “22” se apresenta como um ano celebrativo por no mínimo dois eventos: bicentenário da independência e centenário da Semana de Arte Moderna. Para o campo museológico também é tempo de remarcar um ciclo: 50 anos da Mesa de Santiago do Chile. [7] 

As celebrações convidam as instituições do campo da preservação a uma espécie de redundância no seu papel com a memória. A partir de sua própria historicidade (e com compromissos já manifestos em determinadas linhas de colecionamento e tipologias de acervo), as instituições são convidadas a narrar os ciclos que celebram. Circunscritas ao seu presente-passado, arquitetam o futuro.

Como infelizmente sabemos, o presente no Brasil está circunstanciado pela gestão criminosa da pandemia de Covid-19, pela degradação do frágil pacto democrático, por episódios cotidianos de violência – a exemplo da Chacina do Jacarezinho – crimes ambientais que destroem o planeta, etc. Seria possível acreditar em futuro sem buscar alterar as condições do presente? [8] 

Considerando que lidar com a memória social é uma das funções atribuídas aos museus, reflito sobre a possibilidade dessas instituições incidirem nos traumas coletivos, contribuindo para que a vergonha e o reconhecimento dos crimes do passado e do presente resultem em reparação. [9] Enquanto agentes da formulação do tempo socialmente partilhado, como o museu pode agir com relação ao percurso da “consciencialização coletiva”?

Os museus estão inseridos nas lógicas globais de consumo, da indústria cultural, um aspecto já inerente à instituição. Ao pensar sobre o futuro dos museus, reflito sobre como essa experiência traumática do presente será transformada em recurso, pelos agentes que operam os interesses econômicos internacionais. [10] Conforme Ulpiano Bezerra de Meneses destacou, as memórias traumáticas também são consumíveis. [11] Mas, a espetacularização da dor, da morte, ao invés de contribuir para a “consciencialização coletiva”, pode vender uma experiência falsamente apaziguada, contribuindo para conservar as condições que levaram ao trauma.

Se ao tratarem do período da pandemia os museus não fizerem menção à sobreposição das violências associadas e não possibilitarem a ampliação da compreensão sobre as responsabilidades de quem nos trouxeram até aqui, estarão contribuindo para o futuro? E se as instituições de memória simplesmente ignorarem esse tempo e seus traumas? Ainda pensando na complexidade da indústria cultural, há que se considerar que alguns traumas são menos consumíveis que outros. Os museus, que têm secularmente lidado com a morte, pela glorificação dos vencedores, suas armas e tecnologias, saberão representar e comunicar ao futuro a experiência da pandemia? [12] 

Em texto recentemente publicado observei como a pandemia de gripe dos anos 1918-1920 foi aparentemente apagada da memória, o que pode ser evidência de um trauma social. [13] Mesmo considerando que testemunhas da época relatam com horror os acontecimentos e que suas consequências se prolongaram por gerações, existiu um silêncio imediatamente posterior àquele período pandêmico. Em 1922, quando agentes a serviço do Estado, das elites nacionais (conservadores e modernos) e o capital internacional construíram no Brasil a celebração do “centenário da independência”, a experiência do passado pandêmico foi aparentemente ignorada. [14] O discurso de enunciação do futuro moderno dissimulou a superação das condições do passado imediatamente anterior. Num país recém-saído da escravização colonial, sem adotar medidas compensatórias para as pessoas violadas, o que se teve ao invés de reparação foi reiteração. Ao invés de construção de futuro, de algo efetivamente novo, o tempo que se seguiu repetiu e repete o passado enquanto farsa [15], atualizando até mesmo a experiência pandêmica. Como os museus vão exprimir os tempos e os traumas em 2022 e nos anos seguintes? Ignorar, consumir ou tratar o trauma?

Considerando as questões sintetizadas aqui, parece-me que para reimaginar os museus é fundamental trabalharmos para que tenham cada vez mais contribuições a dar para a “consciencialização coletiva”. Na perspectiva de Paulo Freire, a esperança é “um condimento indispensável à experiência histórica”, sem a qual não haveria história, “mas puro determinismo”. [16] O esperançar freireano requisita a ação transformadora no presente. Minha expectativa é que os museus se posicionem cada vez mais contrariamente às violências sobrepostas e impostas às pessoas negras, indígenas, mulheres, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e outros sujeitos e que isso se traduza em participação, acervos, pesquisas, documentação e exposições...

Que Obaluê nos auxilie para a compreensão desses tempos! Atotô!


[1] Professora do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Doutora em Museologia e Patrimônio, mestra em Memória Social, historiadora.
[2] As reflexões apresentadas resultam dos diálogos com autoras e autores, pesquisadoras, pesquisadores e estudantes, no contexto do Curso “Patrimônio Cultural – Movimentos e Lutas Sociais – IEB5050”, que ministro no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Identidade Brasileira do IEB-USP. http://www.ieb.usp.br/sobrepos/
[3] KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
[4] ENDO, Paulo. Pensamento como margem, lacuna e falta: memória, trauma, luto e esquecimento. Revista USP, São Paulo, n. 98, 2013.
[5] SELIGMANN-SILVA, Márcio. Narrar o trauma: a questão dos testemunhos de catástrofes históricas. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, vol. 20, n. 1, 2008, p. 69. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652008000100005&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 10/08/2020.
[6] A antessala aqui se refere aos diversos eventos que têm sido realizados em 2021, principalmente alusivos à memória do Modernismo.
[7] Remarco também os 60 anos de criação do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.
[8] Esta indagação poderia parecer mera abstração, mas as condições que o capitalismo submete o planeta colocam as coisas em termos bastante concretos.
[9] Cf. MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Os museus e as ambiguidades da memória: a memória traumática. Conferência de abertura do 10º Encontro Paulista de Museus. São Paulo: Sistema Estadual de Museus de São Paulo. 2018. Disponível em: https://www.sisemsp.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Ulpiano-Bezerra-de-Meneses.pdf
[10] Refiro-me ao recurso aludindo à: YÚDICE, Georges. Capítulo 1. A Conveniência da Cultura. A conveniência da cultura na era global. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
[11] Cf. MENESES, Op. Cit.
[12] Cf. JÚNIOR VIEIRA, Itamar. Carregaremos culpa por toda a vida pelos 400 mil mortos na pandemia. Folha de São Paulo, São Paulo, 30/04/2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/itamar-vieira-junior/2021/04/carregaremos-culpa-por-toda-a-vida-pelos-400-mil-mortos-na-pandemia.shtml. Acesso em 05/05/2021.
[13] GOUVEIA, Inês. O Ar do Tempo: uso do passado e idealização de futuro nos paralelos 1922-2022. In: PAIXÃO, Fernando; TONI, Flávia (Orgs.). Estudos Brasileiros em 3 Tempos: 1822 – 1922 – 2022 – Pensar o Brasil: Desafios e Reflexões. São Paulo: Editora Fino Traço. Coleção Estudos Brasileiros, 2021.
[14] Importante recordar que o Museu Histórico Nacional, marco na criação dos museus históricos no Brasil, foi criado no ensejo dessas celebrações. Não há indícios de que a memória desta pandemia tenha sido destacada nesse museu.
[15] Em alusão a frase de Karl Marx em 18 do Brumário, quando em diálogo com Hegel, afirma que os eventos históricos se repetem, primeiros inscrevendo-se como tragédia e a segundo enquanto farsa.
[16] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 20 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 80.


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