18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Gen. Bda. Marcio Tadeu Bettega Bergo [1] 

Introdução

O presente ensaio aborda, em especial, o papel dos museus no inconsciente coletivo da sociedade, porém focando um segmento específico, os museus da cultura militar, que integram o complexo a que chamamos de Cultura Militar.

Inexiste, no mundo, qualquer País, Cidade ou Estado, digno de assim ser chamado, que não tenha, em algum momento de sua história, prescindido, para sua formação e para sua sobrevivência de forma soberana, da manu militari, a expressão latina que significa “com o poder militar”, “pela força das armas”. Ações levadas adiante com o uso desse instrumento são constantes no desenvolvimento da humanidade. No Brasil não é diferente.

A Cultura Nacional, que particulariza e distingue cada povo, é o somatório dos comportamentos, das crenças, dos costumes, dos conhecimentos e dos valores (intelectuais, institucionais, morais e espirituais) amealhados por uma sociedade. Será robusta e marcante na medida em que existam patriotismo e sentimento de nacionalidade. Chamam-se compatriotas aqueles que partilham tais valores. Para tanto, é imprescindível o conhecimento da própria História, a reverência aos seus vultos e fatos importantes. Engloba, ainda, as atividades e instituições ligadas à criação e difusão das artes, ao culto à memória, à manutenção de prédios, monumentos, sítios históricos e outras. Trata-se de um patrimônio que precisa ser obstinadamente protegido e honrado.

Logicamente, os museus estão aí inseridos, eles fazem parte fundamental no patrimônio histórico de um povo. Inclusive os museus militares, que desempenham papel precioso na divulgação e no incentivo aos brasileiros de sentimentos de brasilidade.

A história e suas lições

A História estuda o homem e sua ação no tempo e no espaço. A essência do estudo histórico está na busca dos elementos da existência humana nas realizações dos seus antepassados. Procuram-se, no presente, respostas sobre o passado. É incalculável o valor e inquestionável a importância da História para a compreensão do estágio atual de desenvolvimento de um povo, bem como para explicar suas crenças, suas tradições, suas idiossincrasias e seu modo de proceder. E também para construir o futuro.

Soren Kierkegaard, filósofo/teólogo dinamarquês (1813/1855) afirmou que “A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.

No caso das ações bélicas, seu estudo nos ensina “o quê?” aconteceu, “como?” se passou, o “porquê?” dos conflitos, além de “que consequências?” estes trouxeram.

As atividades militares, em adição, têm imensa contribuição tecnológica ao desenvolvimento da humanidade, visto que incontáveis benefícios de que hoje desfrutamos são resultantes de pesquisas voltadas às campanhas militares. Artigo de nossa autoria, “Tecnologias provenientes das atividades militares” mostra em detalhes tais produtos e serviços.

Dentro da História, destacaremos a História Militar, basicamente o estudo das guerras e das batalhas, abordado ao lado da evolução dos materiais, do armamento, da Tática e da Estratégia. Ligada à Política, ela é partícipe plena, agente ativo na consolidação das diversas nacionalidades, nas delimitações das fronteiras e na formação de Estados, ao lado de outras influências. Multidisciplinar, ela pode ser abordada pelos aspectos humanos, sociais, econômicos ou tecnológicos, entre outros.

Em resumo, afirmamos que a História do homem é a História de seus conflitos! E se museus contam histórias, os museus militares aprofundam o tema, mostrando mais detalhadamente como e porquê confrontos armados ocorreram, ou foram evitados, em determinados momentos e locais, de uma ou de outra maneira.

Os militares e a construção do Brasil

Temos em nosso País uma História bastante rica, recheada de fatos e vultos que se destacam e, por intermédio dela, entendemos a nossa exuberante extensão territorial.

Nosso passado inclui, no campo interno, a expansão e definição das fronteiras, além da defesa da soberania, da incolumidade e da coesão. Também abrange a integração e o desenvolvimento socioeconômico: a primeira escola de formação de engenheiros em nosso País foi militar; soldados construíram fortes e fortalezas ao longo do litoral e de rios, em cujas proximidades surgiram vilas, que se transformaram em cidades; os militares atuaram na implantação de indústrias, no estabelecimento de estruturas de comunicações e de transportes. Tal cooperação prossegue, com o desbravamento do Oeste e da Amazônia. Unidades militares atuam na Garantia da Lei e da Ordem, constroem estradas, distribuem alimentos, apoiam campanhas de vacinação e auxiliam nas calamidades. Além disso, ocupam posição de vanguarda em importantes pesquisas científico-tecnológicas (medicina, eletrônica, comunicações e outras). Em episódios marcantes, quando ocorreram intervenções políticas e participações diretas de militares na condução dos destinos brasileiros, estas foram exigidas e apoiadas pela sociedade civil.

Na esfera externa, os brasileiros fardados muito contribuíram (e seguem contribuindo) para a preservação da paz, da harmonia e da democracia entre as Nações do mundo: nos efetivos que lutaram na Guerra da Tríplice Aliança, na atuação da gloriosa Força Expedicionária Brasileira (FEB) nos campos da Itália na Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, nas Missões de Paz, o soldado brasileiro demonstrou seu valor e sua fibra, não só nas operações especificamente militares como em ações de construção de obras públicas e educacionais.

Ao lado do Exército, as forças coirmãs Marinha e Aeronáutica compartilham nossas tradições e são igualmente partícipes em nossa História, bem como merecem destaque as forças policiais, auxiliares, que preservam certas tradições e costumes herdados de tempos anteriores, quando constituíam partes efetivas do poder militar propriamente dito.

A cultura militar e seus valores

A Cultura Militar, entendida como um dos ramos da já citada Cultura Nacional, compartilha com esta os mesmos parâmetros, porém vinculados às atividades castrenses. Como já visto, a ação dos militares, de mar, terra e ar, se faz notar ao longo da trajetória de construção do Brasil. Desde o Descobrimento, uma operação mavórtica (relativa a Mavorte ou Marte, o deus da guerra romano; é o mesmo que militar) até os dias atuais, a presença fardada nas diversas atividades ligadas ao nosso desenvolvimento é relevante ao extremo.

Os profissionais das armas comungam e observam, com justo orgulho, memórias e costumes, por intermédio dos quais se identificam e se caracterizam. Tais aspectos comportamentais, consolidados e agregados a uniformes, símbolos, insígnias, canções, brados, ditos, linguajar característico e outros, integram um conjunto amplo conhecido como tradições militares. Estas, por sua vez, são delimitadas e conduzidas pela ética e pelos valores militares. A solidariedade organizacional por eles cultuada, extremamente apurada, é conhecida como Espírito de Corpo.

A Cultura Militar alavanca valores anímicos, criando um diferencial na identidade da instituição. O agir pelo exemplo se vale essencialmente de valores que estão no passado, se conservam no presente e balizam o futuro. As ações dos grandes chefes e heróis, os nossos próceres, atuam como fontes de inspiração, são verdadeiros faróis que iluminam obscuras e íngremes veredas a percorrer, animam nobres e patrióticas vontades, vocações e pendores. Enfim, trazem forças a corpos muitas vezes combalidos por periculosas e extenuantes jornadas. Seus comportamentos se constituem em dimensões para os soldados de hoje pautarem seus atos, ajuizá-los como úteis, normais ou desejáveis. Tornam-se proporção, regra e norma.

Desta forma, o Sistema Cultural Militar busca, em resumo, estudar e pesquisar a evolução da arte da guerra e do pensamento militar no mundo moderno e no Brasil, com vistas ao desenvolvimento da doutrina e da liderança militar; preservar seu rico patrimônio, tanto material (obras, sítios históricos, equipamentos, materiais etc) como imaterial (sua história, seus vultos, fatos relevantes, seus valores e suas tradições); e contribuir com a disseminação, no seio da sociedade brasileira, de tais valores, em particular do patriotismo e do pertencimento - esta terra me pertence, mas eu também pertenço a esta terra.

A importância dos valores para a nação

O ser humano, ao desempenhar qualquer ato, é impulsionado ou contido por duas forças, que podem atuar solidárias ou independentemente, no mesmo sentido ou em oposição. Tais forças dizem respeito ao conhecimento e ao caráter. Mais precisamente, podemos chamá-las de “instrução” e “educação”. Elas são “irmãs de sangue”, porém não siamesas, embora muita gente as confunda, julgando-as “a mesma coisa”.

Os temas ligados ao conhecimento dizem respeito a “ensino” (escola) ou a “estudos” (pesquisa), atividades destinadas a adquirir, aumentar, codificar e transmitir “saber”. O que significa instrução, qualificação, habilitação, ensinar pessoas a produzirem algo. A ação instrucional recai mais sobre a inteligência, as habilidades cognitivas e o talento. É treinar alguém a fazer certo as coisas.

Já os componentes do caráter se inserem no “território” da ética, conjunto de princípios ou padrões sociais aceitos ou mantidos por um povo. São valores, normas de conduta, atitudes de respeito aos seus semelhantes e ao meio ambiente. A formação individual se dá pela transmissão de modelos comportamentais, ou seja, educação, e influencia os sentimentos, a emoção e a motivação. É o orientar a fazer as coisas certas (e também a não fazer as coisas erradas).

Assim, educação é muito mais do que ensino, vai além de informar, ela também molda o cidadão. A verdade é que enquanto a instrução tem a ver com “conhecimento”, a educação tem a ver com “comportamento”. Desta forma, o sistema cultural militar busca desempenhar relevante papel no processo educacional da gente brasileira.

Infelizmente, contudo, o “produto” cultura, com tantas dificuldades “gerado” e “ofertado” ao público em geral, não é um artigo de grande demanda no contexto nacional. Infelizmente, uma parcela do nosso povo não dá muita atenção e não o “compra”, e muitos não cultuam vultos, ou desviam o conceito de “herói” daquilo que, em nosso entendimento, consideramos como prestação de relevantes serviços à Pátria. É difícil “engolir”, mas, apenas como exemplo, lembramos que já houve iniciativas para troca do nome de logradouro, um grande chefe militar histórico, pelo de um jogador de futebol.

Relevante, ainda, é o fator “renda” da população. Quem “consome” cultura geralmente está nas camadas mais elevadas da pirâmide. A grande maioria do povo, portanto, se encontra mais preocupada em atender às suas necessidades mais imediatas, de sobrevivência.

Isso acarreta, para os museus em geral, um sério complicador adicional, o fator orçamento. Além da baixa afluência de público, a atividade é meio que secundária nas prioridades e preocupações governamentais e padece, assim, de carências materiais de diversos matizes, frutos de escassez de recursos e, também, de incúrias administrativas. Desnecessário citar, como exemplo, o pavoroso incêndio ocorrido, há muito pouco tempo, em imponente museu, no Rio de Janeiro, abrigo de acervo de incalculável valor, quase todo perdido.

Apesar disso, ratificamos o pensamento de que é importantíssimo, para uma nação, o culto aos valores. Estes podem ser tanto coletivos, respectivos à sociedade brasileira, como harmonia, soberania, liberdade, fraternidade, Pátria (Brasil), respeito ao ambiente e igualdade de oportunidades. Como podem ser individuais, relativos a cada um dos cidadãos, tais como cuidados com a res publica (a coisa pública, o Estado), o consumo consciente, a pureza de caráter, a responsabilidade, o desprendimento, a noção do dever, a determinação, a humildade, a disciplina, o altruísmo, a iniciativa, a coragem, a vontade e a fé.

Assim, listamos os principais aspectos que devem ser constantemente protegidos, difundidos e cultuados, ou seja a nossa História, o nosso idioma, as nossas tradições, os nossos usos e os nossos costumes. Os museus estão inclusos neste rol e desempenham papel intenso, principalmente como fontes primárias de História que são.

Os museus - presente e futuro

Nesse contexto já explicado, destacam-se os museus, guardiões de tesouros incalculáveis objetos ou locais que salvaguardam memória, protegem História, mostram arte e outras construções que atestam o grau de desenvolvimento de um povo. Ao contarem suas histórias, eles contribuem para a divulgação de atos, fatos, utensílios, ocorrências etc, daí decorrendo enriquecimento cultural, ampliação do patriotismo, sentimentos de júbilo pela Pátria.

Temos uma data a considerar, 18 de maio, o Dia Internacional dos Museus, quando, adotada pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), se prevê uma ênfase à temática “O Futuro dos Museus: Recuperar e Reimaginar”. O propósito é que os profissionais que tratam deste setor criem, imaginem e compartilhem novas práticas de (co-)criação de valor, novos modelos de negócios para instituições culturais e inovadores soluções para os desafios sociais, econômicos e ambientais da atualidade.Trata-se, pois, de repensar o museu do futuro para enfrentar os desafios do presente.

O tema é atrativo, instigante e apropriado. Já vimos, acima, os obstáculos que o produto “cultura” enfrenta, no Brasil. Prepararmo-nos para os enfrentar é gloriosa missão à qual nos devemos dedicar.

Em nosso caso, militar, acrescentamos mais um ingrediente, outra data, 18 de abril, que é o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, comemoração criada pelo ICOMOS - Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios, um “irmão” do ICOM na UNESCO. Esta, destinada a proporcionar mais visibilidade aos monumentos, locais históricos e sítios arqueológicos. Aqui se inserem fortes e fortalezas, campos de batalhas etc.

Também participamos do projeto Memória do Mundo, da UNESCO. E o Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB) representa o nosso País na Comissão Internacional de História Militar (ICMH), igualmente vinculada àquele mesmo organismo.

Assim, unimos aos museus propriamente ditos, entidades que cuidam e estudam os patrimônios materiais que resguardam e mantêm vivos os locais onde relevantes fatos históricos aconteceram, além do imaterial, a História.

Este conjunto, museus e sítios, com sua “alma” a História, é, em suma, o repositório que dispomos para o culto ao nosso passado (contemplação e rememoração), a compreensão do presente (estudo e entendimento de fatos), e a antevisão do futuro (um dos itens integrantes da formulação de planos). O raciocínio se aplica a todo patrimônio histórico-cultural do País, incluindo o castrense.

A cultura militar no processo educacional

Vista, portanto, a Cultura em geral, a Cultura Militar em particular, e sua importância para a motivação da sociedade como um todo, depreendemos o imenso valor que representa e o quanto importante é sua preservação, sua difusão, sua utilização como instrumentos de aprimoramento educacional do nosso povo.

O Brasil atual padece no tópico “ética”: atravessamos uma tempestade com mazelas que campeiam nos tribunais, nas investigações policiais, nos noticiários e, infelizmente, “atazanam” o cotidiano do povo com dificuldades de infraestrutura e econômicas de toda ordem. São atitudes, invariavelmente, com raízes solidamente cravadas em carências éticas e parcos valores nacionais. O maior obstáculo que se apresenta, pois,está no psicossocial, convencer as pessoas, incutir sentimentos de orgulho, patriotismo e interesse pela coisa pública nacional. Além das barreiras, ainda, no campo econômico: equalizar oportunidades e elevar padrões de renda.

A ação educacional das Forças Armadas se dá sobre seu público interno (militares, servidores e familiares) e externo (sociedade em geral). Os conscritos, uma vez incorporados, além do treinamento militar, são preparados para exercer a cidadania em sua plenitude, quando retornarem à vida civil. Com fundamentadas causas, somos considerados escolas de civismo, e por certo, a ação desenvolvida nos aquartelamentos, não só nas datas festivas, mas também no cotidiano, envolve a todos com espírito patriótico.

Diuturnamente, as Forças exteriorizam, através de cultos, o respeito aos seus heróis e à sua memória. Em todas as oportunidades, perfilam os seus soldados em cerimônias e solenidades para relembrar homens, datas e feitos, assinalando-os como lídimos exemplos, de modo a emular não apenas os seus integrantes, mas a todos, buscando extravasar o respeito austero e a reverência pertinente para fora de seus portões, como uma contribuição sua ao restante da Pátria. Os museus, os fortes e fortalezas, os sítios históricos, instalações, equipamentos e outros tantos itens ou locais são normalmente abertos à visitação. Ainda se realizam exposições, demonstrações, apresentações musicais, mais os desfiles de tropas em datas específicas. Tudo difundindo este aspecto cultural aqui abordado. O exemplo dos militares ao prestar seu culto de respeito aos heróis e símbolos nacionais espalha-se na sociedade presente às solenidades cívicas, que se alia ao preito militar em comovido respeito. Também na vida familiar e social, o militar difunde seus valores, com ações específicas e pelo seu comportamento. A Cultura Militar é magnânima fonte de insignes modelos. É um fator de genuíno orgulho que a gente brasileira fardada ostenta com incontestável razão.

Sobre fortes e fortalezas, é imprescindível deixar registrado que as nossas fronteiras foram moldadas através dos séculos, inicialmente pelos lusitanos e, após a independência, pelos brasileiros, configurando esta colossal extensão de riquíssimo solo, valiosíssimo patrimônio nacional. Foram conquistas épicas, episódios marcantes da expansão e do povoamento destas terras em que, se plantando, tudo dá. A partir das expedições pioneiras dos bandeirantes, forjou-se um admirável projeto arquitetônico-militar, erguido ao longo do vasto perímetro da América de origem lusitana nos séculos XVI, XVII e XVIII, consolidado nos séculos XIX e XX. Homens de ferro construíram muralhas de pedra e as guarneceram com canhões de bronze!

Dezenove exemplares, entre fortes e fortalezas, deste sistema defensivo edificado ao longo do nosso contorno terrestre e marítimo, constituindo um “conjunto de bens seriados”, foram apresentados pelo Brasil à UNESCO, como postulantes ao título de Patrimônio Mundial, previsto para ser concedido 2022, ano do Bicentenário da Independência. Alguns deles estão aos cuidados do Exército, outros são administrados por universidades ou prefeituras municipais. Todos, contudo, cumprem papel relevante na educação, sendo utilizados numa função social.

Outras unidades ou repartições têm desempenhado bem esta função. Como exemplos, mostraremos alguns.

No Rio de Janeiro, temos o Museu Histórico do Exército, situado junto ao Forte de Copacabana, protagonista de episódio marcante, conhecido como “A Revolta dos 18 do Forte”. Hoje, se constitui na terceira atração carioca mais visitada, com menos visitantes apenas do que o Corcovado e o bondinho do Pão de Açúcar. A Marinha, em seu Espaço Cultural, oferece um empolgante passeio marítimo pela baía da Guanabara, com visita à Ilha Fiscal, local de beleza arrebatadora.

No Mato Grosso do Sul, palco da epopeia conhecida como “A Retirada da Laguna”, perfeitamente descrita em obra do Visconde de Taunay, as cidades de Nioaque e Jardim empreendem encenações onde militares e civis das comunidades se empenham em recriar fatos históricos, com imenso afluxo de público e constantes nos calendários turísticos estaduais.

Espetaculares são, tanto em grandeza de significado como em atração popular, as apresentações da Banda Sinfônica do Exército e da Banda Marcial do Corpo de Fuzileiros Navais, além das acrobacias mundialmente famosas da Esquadrilha da Fumaça.

Somam-se, ainda, outras instalações históricas franqueadas à visitação pública (fortes e fortalezas, no Nordeste em especial, muitas abrigando exposições de armas, viaturas e utensílios), museus militares, administrados pelas Forças, museus da iniciativa privada mas voltados às exposições militares, os grupos de preservadores de veículos militares antigos e os grupos de encenações de episódios militares, mormente voltados à participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial, enaltecendo a nossa Força Expedicionária Brasileira (FEB).

A propósito, esta parte da História, parcamente conhecida pelos brasileiros e muito pouco divulgada em nossas escolas, é intensamente rememorada na Itália, país que muito sofreu com as agruras da guerra! O dia 25 de abril, naquela nação, é festivo, um feriado nacional. Sua denominação é Anniversario della Liberazione (Aniversário da Libertação), mas também é chamado de Giorno della Liberazione (Dia da Libertação) ou, ainda, Festa della Liberazione (Festa da Libertação). O povo italiano mantém vivas as lembranças da atuação dos Aliados em seu território. A FEB, particularmente, é sempre referenciada em solenidades, nomes de logradouros públicos, escolas e outras homenagens nas cidades e vilas da região onde nossos “Pracinhas” atuaram, seus moradores souberam reconhecer os esforços e o comportamento dos heróis brasileiros, lá conhecido como “Os Libertadores”. Em Montese, em grande ato público, que se repete anualmente nessa data, as crianças das escolas elementares entoam a “Canção do Expedicionário”, em português! É de se perguntar: quantos alunos, em nosso Brasil, fora das escolas militares, conhecem esta belíssima canção? E, mais ainda, seu significado?

Estes são alguns exemplos de como a Cultura Militar, e aí enquadrados os museus, como partícipes deste sistema, contribuem com o processo educacional de nossa gente. Repetindo, o termo “educação” aqui sendo empregado com o sentido, já expresso, de “conhecimentos” mais “valores”.

Olhando para o futuro, as iniciativas prosseguem, novas ideias se aprofundam em estudos. Uma, ainda embrionária mas promissora que, uma vez iniciada se pretende expandir pelo Brasil, é o Turismo Militar, segmento bastante desenvolvido em outros países culturalmente mais adiantados. Por enquanto restrito ao Rio de Janeiro, o Projeto “Turismo Militar na Baía de Guanabara: uso do patrimônio histórico e cultural militar existente no seu entorno” tem muito boas perspectivas. Está se processando estudo com o objetivo de levantar as possibilidades de desenvolvimento dessa atividade, usando o patrimônio histórico e cultural militar localizado na região, como atrativos nos roteiros turísticos das cidades do Rio de Janeiro e Niterói, particularmente aqueles que possam ocorrer por via marítima. São avaliadas, também, as condições de utilização desse patrimônio para o desenvolvimento de roteiros com base na temática histórico-cultural e militar, de forma a atender às demandas turísticas náuticas da Baía da Guanabara, atualmente restritas aos passeios contemplativos de suas águas, ilhas e fortificações. Ou seja, são as fortalezas deixando de ser apenas objetivos visuais e se tornando instrumentos culturais, propagadoras de História Militar.

Outra iniciativa de peso é o Programa Revive, parceria entre o Ministério do Turismo brasileiro e o Ministério da Economia de Portugal. O projeto prevê a recuperação de locais históricos com o apoio da iniciativa privada. Quatro espaços foram inicialmente selecionados: a Fortaleza de Santa Catarina (Cabedelo, PB); o Forte Nossa Senhora dos Remédios (Fernando de Noronha, PE); o Forte Orange (Ilha de Itamaracá, PE); e a Fazenda Pau D’Alho (São José do Barreiro, SP). A ideia é recuperar patrimônios históricos e utilizar parte do imóvel para empreendimentos turísticos como hotéis, restaurantes e outros atrativos, por meio de contratos de concessão pública.

Um fator adicional, já anteriormente iniciado porém agora acelerado, nestes tempos de pandemia, isolamento e cuidados com aglomerações e higiene, é a utilização da informática e da internet. São muitos os investimentos em digitalização de acervos, logicamente no que seja possível, e o emprego de artifícios como guias virtuais, gravações em diversos idiomas, ações com movimentos controlados por computador, transmissões de informações aos visitantes por intermédio de telefonia celular, entre muitos outros artifícios de facilitar visitas a museus e sítios históricos. E, claro, as já mais populares visitas à distância ou televisitas, quando se pode acessar de casa certos acervos, navegando por páginas e portais na rede mundial de computadores.

Assim, para o futuro que se avizinha e chega, célere, o tema “História Militar”, revestido com sua armadura de ferramenta de manutenção e transmissão de valores, segue, agora com rumo e objetivos mais bem delineados.

Conclusão

Um dos pilares mais sólidos para a construção de uma sociedade justa, fraterna e progressista deve ser, sem nenhuma dúvida, o binômio Educação (instrução mais valores éticos e morais) e Cultura.

A riqueza nacional, nos dias atuais, não é mais somente física (bens, serviços e finanças). Ela envolve também aspectos humanos (saúde, educação, valores, realização pessoal), sociais (segurança, convívio, bem-estar geral) e ambientais (ar puro, água limpa, saneamento). A distribuição justa desta riqueza é tão ou mais importante do que sua geração. E os conflitos, fruto de choques de interesses, estarão sempre presentes, fazem parte da condição humana.

Temos uma terra dadivosa e fecunda, que foi arduamente conquistada pelos nossos antepassados. É nosso dever dar continuidade ao processo de aperfeiçoamento dela, construir um futuro grandioso para o Brasil.

Assim, recuperar e reimaginar museus não se limitará a incrementar acervos, pintar paredes, embelezar salas, ajardinar alamedas, instalar parafernálias eletrônicas, distribuir equipamentos de ar condicionado, facilitar acessos a cadeirantes, deficientes visuais ou auditivos, digitalizar e disponibilizar acervos em vídeos, áudios, imagens tridimensionais, abrir estacionamentos, lanchonetes, restaurantes e lojas temáticas. Isso tudo, embora parte do processo, seria pouco, muito pouco!

O que se tem que fazer é, sim, entrar nas cabeças das pessoas, convencê-las a visitar tais espaços! E, mais: visitando, elas entenderem o que ali está exposto, conhecer a História que lhes é contada, assimilarem que as pessoas, objetos e fatos mostrados são testemunhos de esforços que alguém, outrora, empreendeu, para nos legar o grandioso País em que vivemos hoje. E que nós temos por obrigação amar, proteger e o entregar melhor para os nossos descendentes. Portanto, uma ação educacional terá que ser incrementada, em especial na disciplina História. As escolas têm um papel relevante neste processo, incentivando visitas e mesmo aulas nesses locais. O grande desafio que se apresenta diante de nós, portanto, está no campo psicossocial, no pensamento humano, com ações voltadas a despertar ou reavivar sentimentos de orgulho, patriotismo e interesse pela coisa pública nacional. Além de se buscar moldar um comprometimento de todos com a nação, consolidar propósitos de harmonia, boa convivência, estudo, pesquisa e trabalho.

Complementando, estarão as ações no campo econômico, que resultem em melhoria da renda das camadas mais baixas da população, de modo a que elas se integrem ao contingente que pode consumir o “produto” cultura. Em paralelo, ao ser incentivado o turismo, o conhecimento histórico a ele vinculado, em particular o já mencionado turismo militar, advirão imensos benefícios aos museus e sítios de memória.

O IGHMB, juntamente com outras organizações similares e parceiras, se dedica a atividades acadêmicas e culturais, abordando, com variados graus de ênfase, a História (em particular a História Militar), a Geografia, a Geopolítica, a Estratégia, a memória de vultos e fatos relevantes na formação, consolidação e construção do Brasil, a manutenção e a divulgação de valores éticos, morais e psicossociais caros à nacionalidade brasileira. Estes temas são tratados em palestras, seminários, estudos, cerimônias e outras formas de enaltecimento.

As palavras-chave que norteiam nossas ações e que incentivamos são Pesquisar, Honrar e Defender o Brasil. Nós nos dedicamos a estes nobres propósitos, com fervor conclamamos os leitores, aqui, a se unirem a nós: sejamos, todos juntos, PHD em Brasil!

Maio de 2021


[1] Presidente do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil - www.ighmb.org.br 


Referências

  • BERGO, Marcio T. Bettega. O Pensamento Estratégico e o Desenvolvimento Nacional - Uma Proposta de Projeto para o Brasil. 2 ed. São Paulo: MP Editora, 2008.

  • ______.Idioma, a identidade de um povo. In Revista ADESG (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra), nº 284, Novembro 2013; pag 20-21.

  • ______ . Educação no Brasil: um remédio certo com a bula errada. Revista ADESG, Ano 39, nº 279, Junho 2013, p. 16; Revista Ideias em Destaque, INCAER, nº 42, set/dez 2013, p. 37-40; e Revista do Clube Militar, Ano LXXXVI, nº 454, ago/set/out 2014, p. 30-32.

  • ________. Patrimônio Cultural Militar - História e Valores. Revista ADESGUIANO, Ano 37, nº 265, Abril 2012, p. 04.

  • ________. A Verdade Histórica: Projetos e subprojetos para o resgate e a manutenção da memória militar. Revista Verde-Oliva, Ano XXXVIII, nº 208, Out/Nov/Dez 2010, p. 14-17.

  • ________. Tecnologias provenientes das atividades militares. A DEFESA NACIONAL, Rio deJaneiro, RJ, Ano CII, n° 825, 3° Quadrimestre 2014, p. 23-33.

  • Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial/Departamento de Educação e Cultura do Exército. História do Brasil: Império e República - Rio de Janeiro: BIBLIEx, 2011.

  • Estado-Maior do Exército. História do Exército Brasileiro - Brasília: 1972.

  • ICOFORT (International Scientific Committee on Fortifications and Military Heritage), integrante do ICOMOS (international Council on Monuments and Sites) https://www.icofort.org/
    Filial brasileira - Conselho Internacional de Monumentos e Sítios https://www.icomos.org.br/

  • MAGALHÃES, João Baptista de. A compreensão da Unidade do Brasil. Rio de Janeiro: BIBLIEx, 2002.


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