18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Diná Marques Pereira Araújo [1] 
Wellington Marçal de Carvalho
 [2]
 

Livros e textos são artefatos históricos que registram as formações das sociedades. Eles revelam como as culturas formulam os seus modos de pensar; como e quais materialidades são escolhidas para compor os discursos desses documentos; a circulação de ideias e as censuras; e, ainda, os muitos modos de apropriação, invenção e produção de significados produzidos a partir da escrita e da leitura.

As bibliotecas têm em suas práticas, desde o período medieval, a constituição de coleções que são reservadas para acesso restrito por motivos de censura moral, religiosa ou política. Com o surgimento das universidades, além da formação dos acervos para os estudos de professores e de alunos, também foram formadas coleções que ficavam reservadas por questões atinentes à preciosidade, raridade e, por vezes, por razões de censura para alguns textos. Na era moderna as coleções luxuosas de reis e de bibliófilos também constituíram espaços de acesso restrito para um público exclusivo. A formação das bibliotecas nacionais, de um modo geral, herança das bibliotecas de reis, ou do confisco de patrimônio escrito de ordens religiosas, ou mesmo da herança de bibliófilos, também constituíram coleções raras, preciosas e especiais.

Nas bibliotecas brasileiras podem ser identificadas coleções especiais formadas para preservar o patrimônio bibliográfico da instituição, algumas enquanto memória dos primeiros livros que formaram o acervo, outras oriundas da doação de intelectuais com algum rebatimento, no campo de sua atuação, para aquela comunidade. A monumentalidade e a memória são, de um modo geral, os motivos frequentes para a presença dessas coleções em arquivos, bibliotecas e museus. A formação de tais coleções resulta, assim, de escolhas sociais, culturais e políticas do que um dia foi decidido que deveria ser preservado. Sua seleção pode seguir conjuntos tipológicos ou temáticos e representam enquadramentos arbitrados de parcelas do patrimônio transmitido por gerações precedentes como uma herança que carrega um comum a ser partilhado.

Nesse sentido, arquivos, bibliotecas e museus podem ser reconhecidos como uma das instâncias, de lavra humana, aptas a performar o papel de guardiões da cultura escrita, inserida em um conjunto patrimonial de um povo manifesto em uma acepção ampla, como documentos gráficos - que são os livros (manuscritos e impressos), os jornais, as revistas, as multiplicidades de escritos e impressos (cartas, cartazes, panfletos, folhas volantes), os registros iconográficos (desenhos, gravuras, fotografias), as obras de artes sobre papel e os documentos cartográficos.

Do ponto de vista institucional, para a salvaguarda dessas coleções, é necessário o estabelecimento de políticas para conservação, organização, catalogação, digitalização, guarda e difusão dos documentos gráficos, por serem reconhecidos enquanto referenciais culturais, bem como, parte da herança material e simbólica de um povo. Nesse sentido, os acervos gráficos de valor patrimonial são salvaguardados, para as gerações futuras, pela força que possuem para comunicar ideias, símbolos, práticas sociais, histórias e, desse modo, permitirem a construção permanente de identidades.

Em tempos de pandemia, em que as perspectivas de retorno ao acesso físico aos acervos se tornam, a cada dia, uma incógnita, como se pode pensar os acervos bibliográficos especiais? Eles têm um potencial inestimável para a educação patrimonial, para o reconhecimento de representatividades e para a memória. Mas, como pensar o diálogo desses acervos com a sociedade em tempos de pandêmicos?

Para refletir sobre essas questões e inspirados pelos movimentos que os museus têm realizado na direção de se repensar o conceito de museu, produzir novas práticas e (co-) criar valores ligados à igualdade e à representatividade social, como podemos pensar os desafios para se reimaginar e recriar os sentidos que balizam as coleções bibliográficas especiais?

De primeira ordem, sem titubear, o redesenho desses lugares refúgio, sobretudo da memória, merece, por parte de quem gerencia ambientes de informação tão peculiares, o encampamento de estratégias para povoar com outras discursividades as lacunas identificadas ao longo dos tempos de intenso trabalho com cada um dos itens que, reunidos, formatam as respectivas coleções. A significativa redução das distâncias e as recentes formas de acessar, conhecer e navegar, principalmente com o uso de tecnologias e dispositivos cibernéticos esses espaços-receptáculos-próteses das mentalidades humanas, ousa-se concluir, mais do que afastar acabou por trazer nova militância tanto para a manutenção dos acervos, como também, para a necessária e inadiável inserção, nessas coleções, de artefatos que registram as histórias até então “não autorizadas” a existir.

Pensados por essa lente, arquivos, bibliotecas e museus subvertem a lógica da oficialidade que se quer tradicional e passam a funcionar, ou, exponencializam a sua verve insurgente, inaugurando, se assim for, uma nova quadratura na trajetória dessas instituições, sob vários aspectos, seculares. É, sob novo apelo, chegada a hora e a vez de reimaginar e recriar as coleções bibliográficas.

Esses ventos que podem afastar do lugar comum, precisam acalentar, inclusive, a forma como se problematizam os conceitos de coleções bibliográficas especiais e, por conseguinte, é necessário verificar se tais coleções mantêm o compromisso com a educação ao gerir esses acervos a partir da premissa que sua missão é, antes de tudo, retroalimentar sua difusão em três grandes bases de comunicação: conhecer, conservar, compartilhar. Todos os envolvidos (instituição e comunidades da qual faz parte – mesmo a comunidade idealizada) participam dos processos de conhecer, para reconhecer a importância de preservar; de conservar, para que as gerações futuras conheçam esses registros; e de compartilhar, a difusão em seu sentido máximo que objetiva também reiniciar o ciclo (conhecer, conservar, compartilhar). Essa última fase é, em essência, a comunicação dos acervos com a sociedade, que precisa ser planejada para se efetivar dialogicizada no mais amplo espectro social, não ficando restrita a grupos específicos e privilegiados da sociedade. Nesse sentido, fomentar a reflexão sobre os acervos, por meio do diálogo com diversas comunidades (acadêmica, não acadêmica, escolar, não escolar, quilombolas, indígenas, pessoas em situação de risco...) é oportunizar a construção democrática do reconhecimento da memória gráfica para a cultura de cada um dos grupos.

Por fim, e sem pretensão de esgotar a presente provocação, para reimaginar e recriar os conceitos das coleções bibliográficas especiais é ponto crucial questionar se elas, as coleções, têm como eixo direcional o compromisso com a democracia em sua formação, organização e difusão. A inclusão democrática pode se dar, por exemplo, com a adoção de posturas de combate às censuras, às opressões de gênero, de raças, de lutas sociais e, ainda, com o combate à subalternização de culturas e de saberes.

Avizinhar-se-ão de um lugar menos injusto para com as maiorias que a oficialidade tem insistido em minorizar, aquelas unidades de informação que carrearem significativo esforço para acolher, salvaguardar, facultar e promover acesso e visibilidade para os documentos gráficos que não foram, ainda, por soberba avolumada, monumentalizados. O desafio está lançado e, para incômodo geral, há muito tempo já.


[1] Doutoranda e Mestra em Ciência da Informação (ECI/UFMG) Belo Horizonte, MG – Brasil. Bibliotecária da Divisão de Coleções Especiais da Biblioteca Universitária da UFMG. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 
[2] Pós-Doutorando em Estudos Literários (FALE/UFMG). Doutor em Letras / Literaturas de Língua Portuguesa (PUC Minas) Belo Horizonte, MG – Brasil. Bibliotecário coordenador da Biblioteca da Escola de Veterinária da UFMG. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


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