18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Alessandro Batista, Héliton Barros e Denise Studart [1] 

Este artigo se insere no tema proposto pela Revista Museu para a celebração do Dia Internacional dos Museus 2021, que trata das adaptações que se fizeram necessárias nas instituições museais, devido ao prolongamento do cenário pandêmico, que já dura desde o início de 2020, bem mais longo do que se poderia imaginar. Apresentaremos aqui as estratégias realizadas nesse período pelo Museu da Vida, localizado no bairro de Manguinhos, Rio de Janeiro, dentro do campus da Fundação Oswaldo Cruz - uma das maiores instituições de ciência, tecnologia e saúde da América Latina. O Museu da Vida (MV) é um espaço público de divulgação e popularização da ciência e da saúde da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, concebido como um espaço de integração entre ciência, cultura e sociedade; é um misto de museu e centro de ciência e tem a missão de despertar o interesse e promover o diálogo público em ciência, tecnologia e saúde, e seus processos históricos, visando à promoção da cidadania e à melhoria da qualidade de vida.

1. Um museu que valoriza a saúde

O MV é um museu atípico em termos de disposição geográfica, tendo em vista que ocupa várias construções espalhadas dentro do enorme campus da Fiocruz, um território que está inserido numa área rodeada por populações socialmente vulnerabilizadas. Possui vários espaços museais: o Centro de Recepção, o Parque da Ciência, a Pirâmide, o Castelo e o Ciência em Cena, um Salão para exposições temporárias, um Borboletário - único em funcionamento na cidade, entre outros equipamentos (para saber mais, visite o site www.museudavida.fiocruz.br ).

Antes da pandemia chegar, o Museu realizava várias ações extramuros, seja por meio das suas exposições itinerantes que alcançam diversas regiões do Brasil, seja pelas ações do Ciência Móvel - Vida e Saúde para Todos, que é um museu itinerante que viaja no Caminhão da Ciência levando jogos, equipamentos interativos, multimídias, oficinas e outras atividades para várias cidades da região Sudeste. Ou, ainda, pelas ações territorializadas, uma relação que o museu vem construindo com parceiros atuantes, moradores de favelas e periferias do entorno da instituição, trazendo visitantes desses territórios para visitar os espaços museais no ônibus do MV chamado Expresso da Ciência.

Em 2020 a pandemia de Covid-19 atingiu todo o planeta e nesses meses nos impôs uma realidade totalmente diferenciada de tudo o que já havíamos experimentado antes. Tivemos que mudar nossos hábitos diante da necessidade de adaptação ao isolamento/distanciamento social. Segundo o ICOM, vários espaços museais fecharam pelo mundo afora. Muitos desses equipamentos culturais estão usando exclusivamente a comunicação virtual (internet e mídias sociais) para dialogar com a sociedade. É bem verdade que esse modelo de comunicação já existia antes da pandemia e já vinha sendo bastante utilizado, mas durante o isolamento social o modelo virtual foi alçado a outro patamar de relevância como o principal meio de comunicação das instituições museais com seus públicos.

O contexto pandêmico encontra o planeta em uma conjuntura extremamente complexa de movimentos anti-ciência que se espalham por todo o globo, pelas redes sociais em ambientes virtuais, muitas vezes com a disseminação de informações falsas, conhecidas como fake news. Nesse momento de informações verdadeiras e falsas sobre a pandemia, o papel de um museu de ciências como o Museu da Vida passou a ser o de agir como protagonista na busca de ações que articulem e dialoguem com a sociedade sobre o papel da ciência e de esclarecimento de informações seguras sobre o quadro da Covid-19.

2. O papel de um museu de ciências em tempos de pandemia

A criatividade do Museu da Vida foi posta à prova durante a atual crise sanitária. Foi necessário nos reinventarmos, o que proporcionou a continuidade do funcionamento do museu e colocou à prova nossa capacidade de trabalhar na fronteira da arte, ciência, educação e comunicação, mais do que nunca, nos apresentando como um ambiente - agora virtual - de congraçamento, memória e identidade para diversos públicos.

Por um lado, buscamos reforçar a estrutura, processos e fluxos de trabalho na comunicação com o público, por meio do nosso site e redes sociais, inclusive contratando profissionais de comunicação que pudessem ajudar a equipe do Núcleo de Mídias e Diálogo com o Público e para dar suporte à enorme demanda que se apresentava.

Certamente um dos maiores desafios para os museus nesta crise tenha sido a necessidade de repensar suas ações e sua própria lógica de comunicação, de forma abrupta, em curtíssimo espaço de tempo, e isso não foi diferente para o MV. A equipe se empenhou com plena dedicação para fomentar as redes sociais do Museu. A estratégia de criação de conteúdo para cada rede social e a produção de relatórios para avaliar o que mais tem funcionado, são novidades que nos ajudaram a reorientar ou confirmar rumos no nosso trabalho de comunicação. Assim, as análises realizadas apontam que o MV tem preenchido uma lacuna na demanda por conhecimento confiável sobre o coronavírus nas mídias virtuais, o que demonstra a importância da referida estratégia.

Muito provavelmente os setores educativo e de itinerância tenham sido os setores mais impactados. O fechamento repentino ao público colocou em xeque, ainda no terceiro mês de 2020, todo um planejamento exaustivamente pensado e revisado. Estamos falando especificamente de eventos, de exposições itinerantes diversas, de ações com parceiros internos e externos, das Ações Territorializadas, do Encontro de Professores, entre tantos outros projetos programados para o ano. O programa Pró-Cultural do MV, voltado para estudantes de nível médio de escolas públicas de territórios de favelas, recebeu todo apoio da Fiocruz. A nona turma recebeu notebooks e pacote de dados para acesso à internet a fim de que a equipe da Seção de Formação do Serviço de Educação pudesse implementar as aulas via modalidade remota. Em 2021, estamos iniciando as atividades nesta modalidade com a décima turma. Além disso, diversos pesquisadores do Museu continuaram lecionando, através de aulas online,no Curso de Especialização em Divulgação e Popularização da Ciência/COC e no Mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde/COC.

Passado o primeiro impacto, iniciou-se o processo de reinvenção dos trabalhos dos diversos setores do Museu, entre eles o Serviço de Educação e o Serviço de Itinerância. Interação foi o mote durante esse processo de reinvenção. No Museu da Vida, em tempos normais, todas as visitas acontecem com mediação humana, com bastante interatividade entre equipe de mediadores e visitantes. Como manter a interatividade à distância? A resposta veio por meio do site do museu e, sobretudo das redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter e YouTube). O MV intensificou ainda mais sua articulação entre os setores e passou a produzir conteúdo para todas estas plataformas.

Realizamos junto com a direção da Casa de Oswaldo Cruz e a Vice-Presidência de Educação Informação e Comunicação da Fiocruz, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, de maneira totalmente virtual, com elementos e ferramentas de acessibilidade. O MV também apoiou algumas importantes ações da Instituição, como a campanha de comunicação Se liga no corona, o Edital de Ações Solidárias e a disponibilização do seu Centro de Recepção para atuar como posto de testagem para Covid-19.

Mesmo em condições modestas, começamos a gravar e postar vídeos com assuntos de interesse do público. Criamos uma sessão de perguntas e respostas sobre o novo coronavírus denominada Um Biólogo Responde, escrevemos artigos para o site, produzimos conteúdo para despertar o interesse e aguçar a curiosidade do público sobre borboletas, microrganismos, atividades circenses, uma série sobre nosso planetário itinerante, sobre cientistas negras e outros assuntos. Mantivemos ações de comunicação específicas em projetos com movimentos sociais de favelas, além de um boletim regular com nossas atividades e informações de enfrentamento à pandemia voltado para a rede de parceiros cadastradas pelo trabalho do Ciência Móvel. Estas ações ajudaram a engajar o público nas redes e manteve a conexão com nossos visitantes e parceiros.

3. E o futuro?

Os planos para o futuro são desafiadores. Pouco antes desse isolamento social estávamos trabalhando em ritmo acelerado no mais novo espetáculo teatral do Ciência em Cena: Invasores. O tema principal da peça é vacinação, uma discussão muito importante nos dias atuais, que acabou ganhando contornos ainda maiores com a pandemia gerada pelo novo coronavírus. Com o teatro do MV fechado, e sem perspectivas de reabertura, tomamos a decisão de sair da zona de conforto e produzir a primeira websérie do Museu da Vida. O texto está sendo adaptado para este novo formato; depois seguirá o processo de pré-produção e futura gravação. A previsão, a depender do desenrolar da pandemia, é lançar uma websérie de sete episódios, que será disponibilizada de forma gratuita por meio dos canais virtuais do Museu.

De uma forma geral, a reorganização do Museu da Vida - além de permitir todas as ações inovadoras de diálogo com o público aqui descritas – permitiu também uma continuidade dos trabalhos considerados estratégicos pela Fiocruz e que não poderiam simplesmente serem interrompidos, tais como: a política de exposições da Casa de Oswaldo Cruz (onde o MV tem protagonismo pela natureza de suas atividades) e o plano de requalificação de alguns prédios históricos e espaços urbanos localizados no campus sede da Instituição, denominado Núcleo Arquitetônico e Histórico de Manguinhos (NAHM), com várias equipes desenvolvendo exposições de longa duração para o uso cultural dos referidos edifícios, trabalhando de casa, em home office.

O Museu permaneceu participando de diversas articulações nos territórios de favela adjacentes à Fiocruz, tais como: Manguinhos Solidário; o Fórum Favela Universidade juntamente com a UFRJ, Museu da Maré e Conselho Comunitário de Manguinhos, entre outros atores; apoio ao Gabinete de Crise da Favela da Providência, com materiais impressos informativos sobre coronavírus, e o projeto Favela Cineclube contemplado na lei cultural Aldir Blanc; apoio às ações do Ballet Manguinhos, um projeto que atende crianças, adolescentes e jovens das comunidades desse território vulnerabilizado e que tem a dança como elemento de socialização, cidadania e ampliação dos sentidos; e a parceria com o projeto de Valorização da Memória de Manguinhos com o coletivo cultural Experimentalismo Brabo, por meio de lives e produção de cordéis de personagens marcantes do território.

A pandemia da Covid-19 nos impôs diversos aprendizados, alguns dolorosos, mas todos importantes. À luz da experiência do Museu da Vida aqui relatada*, gostaríamos de destacar três pontos: a centralidade dos museus de ciência para a divulgação científica e de informações fidedignas; a democratização do conhecimento; e a relevância de um trabalho das instituições públicas voltado para o bem-estar da população, num momento em que desigualdades sociais profundas atingem a sociedade brasileira.


[1] Museu da Vida/Fiocruz - Alessandro Batista (Chefe do Museu), Héliton Barros (Chefe do Serviço de Educação), Denise Studart (Pesquisadora).

* Agradecimentos especiais a todos os trabalhadores e trabalhadoras das diversas equipes do Museu da Vida, que vêm contribuindo ativamente para a sobrevivência das atividades do MV, neste momento crítico.


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