18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Ana Vilela [1] 

Espaços de contemplação da arte, vivência, aprendizado e perpetuação da história, os museus encantam pessoas ao redor do mundo há séculos. Desde a Biblioteca de Alexandria, do século II a. C., considerada o primeiro espaço do mundo destinado a guardar saberes, passando pelo Ashmolean Museum, criado em Oxford no século XVII, até os dias de hoje, esses espaços carregam consigo uma aura de viagem no tempo e formação de conhecimento.

Em 2020, quando as portas de estabelecimentos precisaram ser temporariamente fechadas para conter a contaminação por Covid-19, surgiu um grande desafio: como continuar engajando os públicos e manter o contato entre as instituições culturais e as pessoas? À época, a Casa Fiat de Cultura se preparava para um ano de intensa programação, com temáticas que fariam brilhar os olhos dos visitantes. Logo, as medidas de segurança recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – totalmente necessárias e seguidas à risca pela instituição – tiveram impacto significativo nos planos.

A mudança de direção exigiu rápida adaptação da programação para as plataformas online. Entretanto, cabe aqui ressaltar que não basta transpor uma exposição, por exemplo, para a tela. É preciso conhecer o público e suas motivações, para garantir experiências realmente significativas no universo digital.

A comunicação foi a bússola que orientou as iniciativas da Casa Fiat de Cultura no novo caminho que começamos a percorrer. A princípio, quando ainda se acreditava que o fechamento duraria um breve período de tempo, ressaltamos nossa programação e começamos a produzir vídeos sobre grandes obras de arte. Mas, rapidamente, ficou claro que o público queria e precisava de mais.

Encaramos as dificuldades do momento como oportunidade para inovar. Assim, criamos uma programação totalmente nova e 100% digital, ampliando a experiência de nosso visitante, ao propor um diálogo entre as artes, as tecnologias e diferentes expressões culturais, sempre com resultados muito positivos.

Sob o conceito de “mobilidade cultural”, mudamos rapidamente nossos formatos de produção e linguagem e passamos a levar a programação para onde o público está. Vale ressaltar a atuação do Programa Educativo, que também se adaptou à nova realidade, criando e implementando ferramentas e estratégias de diálogos com o público – desde ações de mediação e experimentação cultural, até ações formativas em formato completamente digital.
Se, antes, as pessoas precisavam ir até nossas galerias e ateliês, a partir de então, entramos na casa de cada uma delas, proporcionando novas experiências por meio de computadores, celulares e outros dispositivos tecnológicos. Como disse Hélio Oiticica, “o museu é o mundo”! E o mundo, hoje, pulsa nas palmas das nossas mãos.

fachada da Câsa Fiat de Culturafachada da Câsa Fiat de Cultura

A cultura está em todo lugar!

Já estamos há mais de um ano realizando exposições e eventos online. A cada nova ação, aprimoramos as etapas de produção e experimentamos novos recursos técnicos. A expertise da equipe e o entendimento sobre o que mais engaja nossos públicos têm garantido excelência em todos os projetos e a certeza de que levamos cultura a novos lugares.

Se estávamos restritos aos públicos que podiam ir até nossa sede, chegamos, agora, aos lares de pessoas em todos os rincões do Brasil – e até de outros países. Transformamos o desafio em oportunidade, e garantimos, cada vez mais, a consolidação de uma arte acessível e sem fronteiras.

Para se ter melhor ideia sobre a mudança de perfil geográfico do público, apresento alguns números. Cerca de 40% das pessoas que participaram de nossa programação em 2020 eram de Belo Horizonte e 21%, de outras cidades mineiras. Os 39% restantes provêm de outros estados – percentual robusto e bem diferente do que tínhamos até então, com a grande maioria do público de origem local.

Importante ressaltar, ainda, a força da acessibilidade, valor sempre expressivo para a Casa Fiat de Cultura, que foi potencializado pela programação virtual: mais pessoas puderam ser alcançadas nos eventos com tradução em libras e vídeos legendados.

Já a realização de palestras e bate-papos com convidados de outros países, com tradução simultânea, ampliou o acesso ao conhecimento. Soma-se a isso a gratuidade em toda a programação, que possibilita, ao público, com apenas um clique, interagir com obras de arte, conteúdos didáticos, ateliês experimentais, cursos, bate-papos e palestras sobre temas diversos.

Painel Portinari, Casa Fiat de CulturaPainel Portinari, Casa Fiat de Cultura

Convergência de mídia para aprimorar experiências

Henry Jenkins, um dos pesquisadores de mídia mais importantes da atualidade, cunhou, em 2006, o conceito de “cultura da convergência”. Baseada em inteligência coletiva, cultura participativa, e uso de novas mídias, a definição diz respeito à maneira como essas mídias circulam pela sociedade.

Mais do que usar diferentes plataformas de comunicação, a cultura de convergência propõe a criação de mensagens que se complementam e ajudam a criar novos sentidos. É justamente isso o que tem acontecido nos museus. Ao adotar novas plataformas para fazer a programação chegar ao público, a exemplo do YouTube e do Instagram, a Casa Fiat de Cultura não replica a mesma mensagem: ela cria conteúdos que atendem à expectativa do público em cada canal, e que, juntos, promovem o acesso à arte e ao conhecimento por meio de diferentes linguagens.

Um case de sucesso que vale ser destacado é a exposição “4 As do Made in Italy”, que integrou a programação do Janelas CASACOR. A Casa Fiat de Cultura ocupa um prédio de arquitetura modernista, com grandes vitrines. Essa característica permitiu a montagem da mostra, de maneira física, no hall principal, durante o período em que as portas estavam fechadas em função das medidas sanitárias. De forma criativa, as vitrines ganharam status de sala expositiva. Até mesmo quem passava do outro lado da rua conseguia apreciar as obras. Paralelamente, foram criados conteúdos especiais para os canais online.
Esse modelo de exposição híbrida garantiu um novo tipo de programação para o público, em que o digital e o offline se complementam, para ampliar a experiência sensorial, ultrapassando os espaços da galeria e das telas (do computador e do celular).

Novas dinâmicas de trabalho

Impossível falar sobre a comunicação dos museus na era pós-Covid sem abordar as novidades tecnológicas. Em poucos meses, adquirimos experiência em transmissões ao vivo pelo YouTube, produção de vídeos de mediação, criação de e-books e realização de mostras 100% virtuais. A tecnologia sai do lugar de plataforma de comunicação e se torna o espaço onde toda a experiência acontece.

E, se experimentamos produções culturais em diferentes tecnologias, também desenvolvemos novos formatos de comunicação com os públicos. As redes sociais tornaram-se responsáveis pela ativação dos conteúdos. Por meio delas, as pessoas descobrem mais sobre obras que integram as exposições, interagem com a programação e se mantêm em contato permanente com a Casa Fiat de Cultura.

Esses canais – embora não sejam novos – ganharam novos significados no cenário atual. A comunicação está ainda mais humanizada e personificada, de maneira a aproximar e a fortalecer as relações da instituição com os públicos. Seguimos mantendo viva a arte e a poesia, a exemplo de como fizemos em uma ação poética com a atriz Inês Peixoto, que celebrou com o público 300 anos de mulheres mineiras poetas.

A tecnologia também é intrínseca aos novos modelos de trabalho. Com a equipe trabalhando de forma remota, a conexão virtual tem sido facilitadora na realização de projetos, inclusive com parceiros de outras regiões.

A Casa Fiat de Cultura sempre valorizou a relevância dos parceiros em suas ações. Graças ao encurtamento de distâncias propiciado pelos dispositivos tecnológicos, esse movimento se fortaleceu nos últimos meses. A partir de projetos realizados em conjunto, conseguimos falar sobre diferentes expressões artísticas, tradições culturais, estilos de vida, comportamentos do mundo contemporâneo, e apresentar nomes como Domenico De Masi, Ailton Krenak e Marcelo Gleiser, entre outros.

Foram iniciativas produzidas de forma colaborativa e compartilhada entre instituições, que ampliaram ainda mais o alcance do público, integraram equipes de trabalho e otimizaram custos, viabilizando discussões enriquecedoras com personalidades de várias partes do mundo, compondo o mesmo palco virtual.

Ana Vilela, gestora da Casa Fiat de CulturaAna Vilela, gestora da Casa Fiat de Cultura

A experiência transformadora das galerias

O futuro ainda é incerto, mas já dá para apostar qual será o principal desafio para os museus no retorno à “vida normal”: trazer as pessoas de volta às galerias. É importante ressaltar que, apesar de seu papel fundamental, principalmente nos novos tempos, a tecnologia não substitui a contemplação das obras de arte e a experiência in loco que as diversas iniciativas culturais proporcionam.

O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu, em “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica” (1936), que “mesmo na reprodução mais perfeita, uma coisa se perde: o aqui e agora da obra de arte – sua existência única, no local em que se encontra”. Para ele, as obras de arte autênticas tinham aura própria, que o espectador só poderia sentir ao contemplá-la presencialmente, e não suas reproduções. “A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo o que nela é originalmente transmissível, desde sua duração material até seu testemunho histórico”, defendia.

Em tempos como os atuais, em que a reprodução tecnológica serve de alternativa para que as pessoas continuem em contato com as diversas manifestações de arte, é preciso reafirmar o caráter complementar de tais iniciativas, que não devem ser compreendidas como solução definitiva. A tecnologia abriu novas possibilidades para o fazer artístico, ativou novos públicos, criou nova agenda cultural. Mas nada substitui a contemplação silenciosa de pinturas seculares, o prazer de se envolver com a obra de novos artistas, a relação que se estabelece no acolhimento do visitante e na mediação presencial dos acervos, as interações estéticas e sociais que acontecem dentro dos espaços museais.

É sempre importante lembrar que uma exposição é mais que ver um quadro pendurado na parede: ela contempla iluminação, expografia e percurso de visitação, elementos que o visitante só consegue experienciar dentro de uma galeria, em atmosfera única.

Ir ao museu é uma experiência inspiradora, uma imersão capaz de transportar as pessoas para outro universo, despertando emoções e aguçando novas percepções. Vivenciar essa experiência é levar consigo um pouco da aura que envolve cada obra. É ser transformado para sempre. É, a cada nova exposição, lançar diferentes olhares sobre o mundo e suas próprias vivências. Estamos muito felizes com as possibilidades da comunicação digital e com os novos públicos conquistados nesse novo território. Este é um caminho que abriu novos horizontes. Porém, não vemos a hora de estarmos novamente juntos, de portas abertas ao belo, à arte, à cultura e à (sempre encantadora) presença dos públicos. Esta energia move a história e impulsiona o olhar para o futuro.


[1] Ana Vilela, Gestora de Cultural Experience da Casa Fiat de Cultura.


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