18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Gabriela de Lima Gomes [i] 

Para meus alunos do curso de Museologia da UFOP

Que 2020 foi um ano atípico, triste, marcado por estratégias de sobrevivência, com alterações no cotidiano de todo mundo, ninguém poderá negar. Este ano ficará marcado na história da humanidade e, como disse Emicida [1] “um ano todo, só de sexta feira treze”. A doença causada pelo novo Coronavírus, a COVID-19, foi classificada como pandemia pela Organização Mundial de Saúde e, em fevereiro, o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (ESPIN).

Diante de todas as situações emergenciais impostas, o calendário acadêmico da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) foi suspenso. Ou seja, os discentes matriculados nos cursos presenciais de graduação tiveram suas atividades interrompidas. Como professora do curso de Museologia da UFOP senti, dentre muitas outras coisas, uma falta tremenda da sala de aula, da convivência universitária e, especialmente, dos estudantes.

Em novembro de 2020, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFOP decidiu pela retomada do ano letivo para os cursos de graduação presenciais, regulamentando a oferta, em caráter especial, das atividades acadêmicas em formato remoto. Um novo desafio nos foi apresentado. Será sobre este processo de construção que farei um breve relato com o intuito de buscar a interface da prática do ensino remoto, dedicado à disciplina de Preservação e Conservação de Bens Culturais, com o tema da 19ª Semana Nacional de Museus, “O Futuro dos Museus: recuperar e imaginar”.

Idealizar a metodologia de uma disciplina teórica e prática, ministrada habitualmente presencialmente, para o formato à distância e mediada por tecnologia, não foi uma tarefa simples. Porém, esta situação provocante me colocou em um estado de atenção. Tentei encontrar pistas, vestígios nas situações cotidianas que poderiam me ajudar na criação do conteúdo da disciplina Preservação e Conservação de Bens Culturais [2]. Algo, no entanto, já estava posto desde o início, não seria uma disciplina apenas de leituras e aulas expositivas.

Vigilante com minha intenção, fui tomada por uma boa surpresa ao assistir o documentário Emicida: AmarElo – É tudo pra Ontem!, dirigido por Fred Ouro Preto e distribuído pela Netflix. Pronto! Havia encontrado a inspiração para a elaboração do plano de aulas da disciplina que me colocaria, novamente, em contato com os estudantes.

O percurso didático pedagógico adotado na disciplina visa o investimento e o desenvolvimento de atividades voltadas para a Conservação Preventiva em um processo que busca despertar, nos sujeitos, as referências culturais e as possibilidades de construções de identidades e de paisagens. A Conservação Preventiva é um campo interdisciplinar que avalia as condições ambientais nas quais o acervo está submetido. Essa metodologia permite evidenciar os prejuízos desencadeados pelas constantes variações de temperatura, de umidade e de luz, que podem provocar degradações físicas, químicas e biológicas nos bens culturais. E, quando diagnosticadas, esta ciência nos apresenta o estado de conservação dos acervos e nos possibilita uma tomada de decisão preventiva, capaz de propor soluções de salvaguarda e preservar o passado.

O documentário nos traz uma riqueza de fatos históricos e personalidades que afetam a construção de nossa identidade sociocultural. A narrativa provocada pelo roteiro apresenta o ontem como a marca que não devemos e não podemos esquecer. Foi construída a partir do inventário de referências culturais do narrador, ora Leandro, outrora Emicida. Levar a comunidade para dentro do teatro Municipal de São Paulo é um espetáculo à parte. A possibilidade do uso e da fruição daquele espaço aristocrático pelo povo é uma manifestação de resistência e de direito à cultura.

O que extraí da experiência com o documentário para a construção da disciplina foi a possibilidade de discutirmos as referências culturais exibidas, a pesquisa documental, os recortes de jornais, as fotografias e os arquivos, evidenciando como eles constituem elementos importantes para a preservação da nossa identidade e memória. Escolher um objeto pessoal, contar sua história e identificar os tipos de materiais que o compõe, buscar notícias de jornais sobre os agentes que degradam o patrimônio, criar receitas de conservação e, principalmente, exaltar a atenção para o cuidado com as coisas e com as pessoas foram algumas estratégias adotadas nesse processo, que ocorreu de forma fluida, com atividades inventivas e lúdicas.

O documentário apresenta a cartografia de afetos do narrador e proporciona ao expectador uma viagem no tempo, expõe, educa, documenta e apresenta a nossa história, como uma experiência em Museu. Seria este o futuro dos Museus? Não afirmaria. Mas o fato é que precisamos recuperar nossa compreensão de mundo, de ser e de estar com o outro, coletivamente. Para os alunos de museologia este é o desafio: criar estratégias de comunicação que permitam ao homem a fruição híbrida, capaz de alcançar o público cada vez mais diverso. Que nos aproximemos da comunidade e a levemos para dentro dos museus. Afinal, “tudo, tudo, tudo que nóiz tem é nóiz”!


[i] Gabriela de Lima Gomes tem formação interdisciplinar. É graduada em Comunicação Social, mestre em Artes e doutora em Geografia. Investiga os meios para a preservação de bens culturais, os processos fotográficos analógicos e sua conservação, as paisagens e suas relações com os sujeitos e suas subjetividades. Líder do grupo de Pesquisa do CNPQ Preservação e seus Meios e orientadora das linhas de pesquisa: Cultura Popular e Paisagem: interfaces patrimoniais e Gestão de Preservação e identidade territorial: práticas polifônicas. Professora do Departamento de Museologia, desde 2010 e, atualmente, ocupa o cargo de Pró-Reitora Adjunta de Extensão e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto.
[1] EMICIDA: AmarElo – é tudo pra ontem. Direção: Fred Ouro Preto. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2020 (89 min). Disponível em https://www.netflix.com. Acesso em: 10 dezembro de 2020.
[2] GOMES, Gabi; REZENDE, E.F. A transversalidade no ensino da preservação e conservação de bens culturais no curso de graduação em museologia da UFOP e sua associação com o museu universitário e a cidade patrimônio. Revista CPC. São Paulo: CPC-USP, v. 15, n. 30, pág. 348-374, 2¬º semestre de 2020. 


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