18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Dra. Flavia Maria Cruvinel [1] 
Ms. Maria Tereza Gomes da Silva
 [2]
 

As tecnologias digitais de informação e comunicação estão presentes no cotidiano das pessoas de forma crescente desde a popularização das redes sociais na primeira década do século XXI. O compartilhamento de conhecimento, experiências, sentimentos e arte vem sendo modificado, assim como novas formas de criação, produção, fruição e meios de difusão são criados, levando os espaços culturais a repensar seus processos e programações.

O cenário cultural atual, como outros campos de produção, têm sofrido limitações devido à crise sanitária decorrente da Covid-19, em que pese as perdas de relevantes expoentes em suas áreas de atuação, e que deixaram vácuos, o que afeta este período de pandemia e de distanciamento social trouxe igualmente, um convite para reflexões sobre os processos de interações em diferentes contextos culturais.

Os espaços e acervos museológicos também estão vivenciando esta necessidade de reflexão sobre o papel e a função social que ocupam neste momento histórico. A disponibilização de seus acervos para o público, por meio de plataformas digitais, se apresenta como imperioso.

A Universidade Federal de Goiás tem colaborado em projetos de desenvolvimento de acervos digitais em rede desde 2014. Com a criação do Museus de Ciências da UFG, a partir da concepção e da consolidação de acervos artísticos e científicos em rede, em 2016, foi iniciada uma política de desenvolvimento e estruturação de processos de organização, catalogação, digitalização, preservação, colaboração, divulgação e difusão dos acervos envolvidos.

Naquele momento já havia um desejo de disponibilizar publicamente suas coleções, por se compreender a importância das ferramentas digitais como um dos caminhos para a democratização do acesso aos bens culturais, em diálogos de diversas naturezas formativas. Com o desenvolvimento do Projeto Tainacan, plataforma criada no âmbito da instituição para aplicação no WordPress, foi permitida a criação de repositórios digitais e suas respectivas coleções. Vale ressaltar que este é um projeto que promove alicerce para uma política nacional voltada para acervos digitais, e atualmente desenvolve o produto Plataforma de Catalogação e Difusão de Acervo Museológico por meio do Programa Acervo em Rede, do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM em parceria com a Universidade Federal de Goiás - UFG.

Desde 2018, as obras que compõem as coleções do acervo do Centro Cultural UFG - CCUFG, órgão suplementar ligado a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, estão em processo de revisão da catalogação, organização de documentos e produção de fotografias com a finalidade de disponibilização digital por meio da Plataforma Tainacan. O lançamento do repositório do CCUFG, acervo artístico voltado para a Arte Contemporânea, foi realizado em 2019 em conjunto com o acervo etnográfico do Museu Antropológico, igualmente ligado à rede de museus da UFG.

Com as medidas de isolamento ou distanciamento social em decorrência da pandemia, os esforços da gestão deste espaço cultural intensificaram no sentido de focalizar a inserção de novas obras e conteúdos no seu repositório digital, o que acarretou em reorganização do trabalho e capacitação da equipe para executar tal tarefa. Desta forma, a partir dos investimentos na priorização e no desenvolvimento de ações em meio digital, permitiram que duas experiências artísticas acontecessem neste período, que apresentamos a seguir.

Janelas/ redes - entrelugares… Ações interativas com o acervo do CCUFG

Buscando repensar possibilidades e formatos curatoriais mais participativos em consonância com a própria produção artística atual, o Centro Cultural UFG aposta em propostas e abordagens que ampliam os campos de atuação do artista, do curador e do espectador. Este órgão vem ocupando espaços cada vez mais dilatados nos circuitos culturais e têm investido em ações artísticas que priorizem o uso de ferramentas e meios virtuais como possível alternativa para refletir mecanismos de mediações entre os espaços culturais, acervos e o público em geral.

Neste sentido, o Projeto Olhares diversos diálogos com o acervo do CCUFG, realizado a partir do segundo semestre de 2020, é um convite para refletir sobre o seu acervo, a partir deações artísticas virtuais com recortes específicos em diferentes áreas, onde artistas, curadores, historiadores, educadores, antropólogos e o público em geral, são convidados a compor este leque de possibilidades dialógicas que resulta dos diferentes olhares e possibilidades apresentadas a partir de interações com o acervo do CCUFG.

O blog #CartasParaUmaCasa de autoria de Glayson Arcajo e Paulo Duarte foi a primeira ação realizada neste projeto. Segundo os autores, esta é uma ação de extensão que se desenvolve na forma de correspondências visuais trocadas entre o artista Glayson Arcanjo e o curador Paulo Henrique Duarte, professores da Faculdade de Artes Visuais da UFG, como forma de estender e tornar público questões relativas aos processos artísticos de curadoria, do pensamento crítico e reflexivo relativos a exposição Entre Ruínas e Demolições. Esta exposição estava programada para acontecer em março de 2020, em comemoração aos 10 anos do Centro Cultural UFG e foi adiada por motivos da Covid-19. Esta ação artística em formato de blog é também um convite aberto à participação de pessoas interessadas em escrever sobre diversos aspectos da Casa: casas vividas, casas lembradas, casas imaginadas, casas habitadas em tempos passados e nos dias atuais, nesse momento de distanciamento social. Esta proposta possibilitou significativas interações participativas entre público, artista e curador.

Outra ação realizada neste projeto foi De fora para Dentro - Diálogo entre obras do acervo do CCUFG e jovens artistas da FAV/UFG. O catálogo virtual, resultado desta ação, é uma proposta curatorial compartilhada que reuniu o historiador e professor Samuel de Jesus, dezenove jovens artistas estudantes do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UFG e equipe do CCUFG. O catálogo em sua concepção, linha curatorial e trajeto conceitual foi elaborado a partir da relação entre a produção artística de cada jovem artista e as conexões estabelecidas entre as obras e os artistas escolhidos presentes no acervo de arte contemporânea do CCUFG. Esta configuração possibilitou uma construção rizomática e transversal de múltiplas possibilidades, olhares e conexões com o acervo onde todo processo de produção foi realizado a distância, por meio do uso de ferramentas e recursos digitais.

Possíveis caminhos para museus e acervos na era digital

O fechamento forçoso dos museus e dos equipamentos culturais similares provocado pela crise sanitária em escala mundial em virtude da Covid-19, provocou várias mudanças nos seus funcionamentos e nas estruturas organizacionais de trabalho.

Um dos legados que ficarão destes tempos difíceis, é a necessidade de novos olhares sobre os acervos, os espaços expositivos e as ações educativas via plataformas digitais. Os investimentos em repositórios digitais como uma das formas de disponibilização pública dos acervos para fins de fruição, de pesquisa, de processos formativos se fazem necessários e urgentes para o funcionamento pleno dos espaços museológicos.

Há que se considerar ainda, as discussões que vêm sendo colocadas por gestores, museólogos, artistas e públicos que dizem respeito ao armazenamento, a conservação, a salvaguarda e as exposições das obras em acervos digitais, além de questionamentos ligados aos direitos de exibição de obras nato digitais, os usos de imagens e áudios, constituem-se em novas problemáticas a serem consideradas.

Por meio do investimento em gerenciar e capacitar a equipe para a utilização da Plataforma Tainacan, antes mesmo da pandemia, se apresentou como decisão acertada para a gestão de acervos, em um momento em que somos rodeados pelas tecnologias digitais de informação e comunicação.

A disponibilização pública do acervo do Centro Cultural UFG possibilitou de forma assertiva duas ações artísticas iniciais descritas: #CartasParaUmaCasa e De fora para Dentro. Acreditamos assim, que essas ações colaboram para novas possibilidades de exploração de acervos e exposições em uma perspectiva transversal que abrace as diversidades. Estas propostas, trafegam entre e inter lugares em processos rizomáticos de produção da arte contemporânea, imersas em estéticas participativas neste período de distanciamento social, propiciando reflexões acerca de novos formatos e ocupações em espaços artísticos.


[1] Pro-reitora Adjunto de Extensão e Cultura e Diretora de Cultura da UFG. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[2] Diretora do Centro Cultural UFG. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


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