18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Monica F. Braunschweiger Xexéo [i] 

Museus, segundo o historiador e crítico de arte Antonio Paolucci em seu livro Pensieri d’arte: Dentro e Fuori i Musei Vaticani, são territórios onde “as ocasiões são múltiplas (um restauro, uma mostra, uma descoberta científica, uma feliz atribuição, a revisão de uma obra de arte, de um autor) e as emoções são numerosas”. [ii]

O tema O Futuro dos Museus: Recuperar e Reimaginar, proposto pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) para celebrar o Dia Internacional dos Museus 2021 é extremamente oportuno e necessário, em decorrência do novo cenário mundial, apresentado pela pandemia do Coronavirus que afetou todas as classes sociais e a economia dos países ao redor do mundo. Repensar e ressignificar o nosso papel e a nossa responsabilidade com a sociedade, independente da área a qual estejamos engajados é fundamental.

Repensar, reinventar, reimaginar e recuperar? Para quem? O que? E como?

A crise da pandemia do CODIV-19, ocorrida em 2020, trouxe graves conseqüências ao ambiente acadêmico - cultural, aos seus interlocutores, artistas, museólogos, historiadores, educadores, cineastas, arquitetos, bibliotecários, restauradores, escritores, estudantes, artífices, músicos, patrocinadores, produtores e gestores. Todos os setores da cultura foram impactados e necessitaram se reinventar, rapidamente, a partir do cenário apresentado. Organizações nacionais e internacionais, objetivando a segurança dos patrimônios culturais, das atividades e seus “atores”, iniciaram diagnósticos, protocolos e ações, objetivando orientar a sociedade e as instituições para esse novo ciclo em construção.

Segundo levantamento realizado pelo o ICOM “Os museus não fogem a estas mudanças, e o setor cultural está entre os mais afetados.... Mas essa crise também serviu como um catalisador para inovações cruciais que já estavam em andamento, notadamente um foco maior na digitalização e na criação de novas formas de experiência e disseminação cultural”. [iii]

Os museus são o território de todos nós. São estruturas plurais e interdisciplinares que trabalham com diversas categorias profissionais e possuem múltiplas funções sociais, artísticas, pedagógicas, econômicas e culturais. Independente de sua classificação e tipologia, os museus são espaços de conhecimento, investigação, inovação, reflexão, sentimento, entretenimento, inclusão e preservação que buscam interpretar e escrever a nossa história, através do estudo científico dos objetos sob sua guarda. São instituições guardiãs do patrimônio nacional, em que passado, presente e futuro convivem em harmonia, na busca consciente pela tutela do inventário artístico de um país. Potencializam ações internas e externas com artistas, colecionadores, estudantes, universidades, patrocinadores e instituições culturais, através de seminários, exposições, oficinas e publicações, visando fortalecer os laços afetivos e históricos e as relações bilaterais entre as partes.

“Eu amo museus! Visitar um museu é uma experiência que faz refletir, sonhar, compreender. Os museus guardam exemplos do desenvolvimento da humanidade, são pura educação, arte e cultura, uma possibilidade de interagir com a história imaginando e ampliando o conhecimento sobre ela. Conhecer o passado, atuar no presente para construir um futuro com inovação e sabedoria.”
Beatriz Milhazes [iv]

O Futuro dos Museus: Recuperar e Reimaginar, sugerido pelo ICOM para o Dia Internacional dos Museus 2021, é um assunto desafiador para todos os profissionais do setor, embora o mote não seja novo. Repensar, recuperar, reimaginar, redescobrir e ressignificar os museus, a partir da sua missão e valores, no atual cenário global é necessário para avançarmos com segurança em tempos de incertezas. Discussões deverão ser promovidas com o engajamento de todos para garantirmos a construção de novos caminhos, sem esquecermo-nos da nossa história, das nossas raízes culturais. O passado precisa ser revisitado, compreendido e apresentado numa nova dinâmica contemporânea para gerações futuras. Não iremos ressignificar conceitos, sem conhecermos e avaliarmos o passado em que foram desenvolvidas as proposições, os protocolos e os mecanismos institucionais de preservação, inventário, pesquisa, memória e acessibilidade dos acervos e que hoje, no contexto da pós-pandemia estamos privados de alguns benefícios. Precisamos ouvir o que a sociedade e os profissionais de museus, bem como o que toda a cadeia produtiva deseja, para que esse novo ciclo em transição que está sendo escrito, consiga avançar e ressignificar a função e a relevância das instituições, sem nunca esquecer o seu patrimônio.

Ressignificar, inovar e reimaginar os museus no mundo pós-pandemia e suas boas práticas, necessitam de conhecimento, qualificação de seus profissionais e instrumentos de gestão. O confinamento, o isolamento social e, por conseqüência, o fechamento dos museus ao público, não podem ser descartados na construção de novas proposições de fruição. A era digital chegou como um caminho para disseminar as atividades dos museus. É um fenômeno global que precisa ser estudado caso a caso, de acordo com a particularidade de cada instituição. Para a Dra. Ana Carvalho, investigadora da Universidade de Évora, “Na verdade, já antes da pandemia muitos museus trabalhavam o espaço digital, trazendo novos conteúdos e diversificando os seus públicos.[...]. A crise pandêmica evidenciou que, de forma geral, os museus não estão preparados para esse passo. Não conseguem construir uma estratégia que use o digital como forma de beneficiar a sua missão.[v]. É necessário aprimorar os instrumentos de gestão para garantir que a experimentação e ativação de novos conceitos sejam realizadas com segurança e qualidade, objetivando o fortalecimento e protagonismo dos museus no mundo contemporâneo e numa perspectiva sustentável para o futuro.

“O mundo pós pandemia, será um mundo de revisão. O tempo, cristalizado, privado da dinâmica moderna que acreditava no progresso infinito, seu viu revisto, repensado. A história, vestiu a sua função de inventário, reivindicando tudo aquilo que precisa entrar para o conhecimento escrito, diante de uma iminente desmaterialização da Cultura. Recuperar ressignificando, recuperar revisando e reescrevendo, garantindo, gravando. Imaginar de novo, pois o novo nunca foi tão necessário, o inicio de outros ciclos que possam compensar os excessos que nos levaram ao colapso e ao incêndio da memória”.
Zeca Brito [vi]

Os museus somos nós! São espaços vivos, dinâmicos, inclusivos, afetivos e de memória, onde todas as etnias, linguagens e manifestações artísticas se encontram.

Meus agradecimentos aos organizadores da Revista Museu pelo convite e a todos que contribuíram nesta reflexão, em especial a Beatriz Milhazes, Janine Ojeda, Zeca Brito, Rommulo Vieira Conceição, Pedro Xexéo e Dr. Antonio Paolucci.


[i] Museóloga, Historiadora da Arte e ex-Diretora do Museu Nacional de Belas Artes/Ibram.
[ii] Antonio Paolucci, in Pensieri d’arte: Dentro e Fuori i Musei Vaticani, Editora – Libreria Editrice Vaticana, 2012.
[iii] ICOM. Site do ICOM. http://imd.icom.museum/international-museum-day-2021/the-future-of-museums/
[iv] Artista Plástica.
[v] ICOM. No Mundo dos Museus. https: //hypotheses.org - entrevista Dra. Ana Carvalho, investigadora da Universidade de Évora,
[vi] Cineasta.


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