18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Larissa Peixoto [i] 

Há mais de um ano, devido à pandemia, boa parte dos museus de todo o mundo teve de fechar as portas ao público. Visitas familiares e excursões escolares foram suspensas; exposições, adiadas. E, mesmo diante dessa realidade, podemos reabrir portas – e perspectivas – sobre museus. Podemos, inclusive, ampliar nosso entendimento sobre o conceito desse tipo de instituição, especialmente no âmbito de organizações que atuam no campo da educação patrimonial em todo o Brasil. Um caminho a ser traçado.

Museus enquanto instituições com vocação pedagógica estão na essência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desde a fundação do então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), Mário de Andrade [1] via nessas instituições, a partir da participação coletiva, uma zona em que convergiriam esforços entre governos e sociedade com foco na educação. E, ao longo das primeiras décadas do Instituto, ações educativas estavam centradas na criação de museus, no tombamento de coleções e acervos e no incentivo a publicações técnicas e divulgação jornalística.

Uma atuação institucional que, em 2020, se deparou com a necessidade de distanciamento social, resultando em questionamentos cujas respostas podem ser buscadas em iniciativas anteriores à pandemia. Um exemplo é a exposição “7 Povos: retratos de um território”, lançada em novembro de 2019, que expande os sentidos da educação patrimonial. A mostra conta com ferramentas especialmente desenvolvidas para ampliar a experiência e chegar a quem não está no museu. O aplicativo de celular “7 Povos” possui jogos educativos, documentários, animações e vídeos que podem ser acessados por realidade aumentada.

Museus também são casas. São instituições conceitualmente criadas a partir daquilo que é mais essencial à nossa história: o que reafirma nossa trajetória, aquilo que nos forma enquanto grupo. Objetos de nossas casas têm vida – e o museu congrega a memória coletiva que importa, não só a um país, um estado ou uma cidade como um todo, mas também a um bairro, uma vila, uma comunidade. E as memórias de cada grupo, seus artefatos, seus sentidos e significados, é que constroem uma cidade, um estado, um país.

Esse é o caso do Museu Casa de Quinca Moreira, em São Gonçalo do Amarante (CE), iniciativa reconhecida pelo Iphan como uma das vencedoras do Prêmio Rodrigo Melo Franco de 2020. Criado por Roberto Moreira Chaves, o museu conta a história de fundação da comunidade Salgado dos Moreiras. Fotografias, chapéus, rosários e utensílios de cozinha formam o acervo da instituição que recebe moradores e estudantes da região: da sala aos quartos, se atravessa à década de 1940, quando a comunidade teve seus primeiros moradores. Cada objeto foi doado pelas próprias famílias da vila.

O próprio Prêmio Rodrigo, importante instrumento para o reconhecimento e incentivo de ações voltadas para o Patrimônio Cultural, foi realizado pela primeira vez de maneira totalmente online. Em 2020, os interessados puderam se inscrever por meio de cadastro digital, resultando no recorde de 516 ações. Os encontros da comissão nacional de seleção também foram realizados virtualmente. E a tradicional cerimônia de premiação, desta vez, foi substituída por um webnário, que promoveu rodas de conversa com ganhadores e público em geral. Para a edição de 2021, está em estudo a inclusão de uma categoria para reconhecer projetos de excelência no contexto da pandemia.

Outra experiência exitosa é o Museu do Patrimônio Vivo da Grande João Pessoa [2], que consiste num projeto de discussão, formação e salvaguarda, e não está situado em um prédio fechado, mas nas ruas da região metropolitana da capital paraibana. Por meio de oficinas, moradores dos bairros de João Pessoa tornam-se agentes comunitários que atuam em inventários e na salvaguarda de bens culturais em suas comunidades. O museu transforma-se, portanto, em um espaço que, por meio de educação patrimonial, produz sentido para a população e atua na formação identitária, promovendo cidadania e melhoria na qualidade de vida.

A pandemia fechou – temporariamente – as portas de muitos museus, mas podemos pensar além. E, para isso, devemos unir as duas perspectivas: novas tecnologias e novos formatos museológicos. Mesmo com o avanço da vacinação e o fim da pandemia em nosso horizonte, teremos de lidar com protocolos que podem limitar a visitação. É preciso, assim, incentivar a formulação demeios para a democratização do acesso a bens materiais e imateriais colecionados, conservados e expostos. Ferramentas digitais, como sites e aplicativos, que já eram tecnologias educacionais utilizadas nos museus, podem ser janelas abertas ao futuro, visando à ampla participação social.

No segundo semestre do ano passado, o Iphan criou um grupo de trabalho formado por representantes de todos os departamentos e diretores de unidades descentralizadas como o Paço Imperial, Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e Sítio Burle Marx, Parque Histórico das Missões, Arquivo Central e rede de bibliotecas. O objetivo do grupo é formular critérios para a reabertura gradual dos espaços, sempre primando pela preservação das vidas de visitantes e servidores. Também foram criados canais de comunicação e, além disso, se acentuou a digitalização de acervos arquivísticos e disponibilização de publicações online.

Caminhos que se abrem para o acesso e renascimento dos museus, durante a pandemia e para além dela. Este é um momento de reflexão produtiva e elaboração – e o Iphan está utilizando todas as suas possibilidades para ampliar a articulação e diálogo com a sociedade. Juntos, Estado, organizações do terceiro setor e empresariado, devemos formular estratégias para que as soluções encontradas neste momento possam se tornar poderosos mecanismos de difusão do saber em longo prazo. E os museus sejam casas e bairros, vilas e barracões, ruas e rios.


[i] Presidente do IPHAN.

[1] Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2014.

[2] JOURDAN, Laetitia Valadares. Um museu sem paredes para um patrimônio sem limites: o Museu do Patrimônio Vivo da Grande João Pessoa. In: TOLENTINO, Átila Bezerra. Educação patrimonial: diálogos entre escola, museu e cidade.. João Pessoa: Iphan, 2014. p. 05-116.


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