18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Karla Estelita Godoy [1] 
Helio Henrique Waizbort
 [2]
 

musa eu sou seu museu
aberto pra visitação
museu da luz
museu da pessoa
museu da espera e do encantamento
do calçamento ainda não pisado
da calçada explodindo em flor
(Chico César)

Não há novidade em afirmar que a comunicação é uma função constantemente repensada pelas instituições museológicas, a julgar por seu esforço incessante para elaborar estratégias comunicativas com o público. A comunicação ocorre quando dois sujeitos estão em interação por meio da linguagem e realizam o que Patrick Charaudeau, na Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso, denomina ato linguageiro.

Os sujeitos do ato linguageiro são formados por suas identidades social e discursiva, que atuam em conjunto. A identidade social, de acordo com o linguista, tem como característica a necessidade de reconhecimento pelos outros e, portanto, confere ao sujeito legitimidade, algo como uma autorização prévia. A identidade discursiva se constrói pelo modo como a palavra e a narrativa serão enunciadas, envolvendo uma série de atitudes e estratégias de discursividade.

Quando os museus de todo o mundo se depararam com o período pandêmico, aqueles que não estavam preparados para lidar com saídas alternativas de comunicação com o público não apenas tiveram suas portas físicas fechadas, mas literalmente fecharam-se em si mesmos. Ainda que muitos tenham adotado a internet como meio de contato e divulgação, ela não se mostrou suficientemente eficaz para resolver o problema da ausência do público nas sedes físicas das instituições. Além disso, os museus passaram a enfrentar todos os problemas técnicos e operacionais decorrentes de tal situação e a lidar com a emergente conjuntura que exigia a proteção de seus acervos, mas sobretudo de seus profissionais.

Assim, uma das soluções mais comuns encontradas pelos museus foi a adoção das redes sociais e de recursos como “exposições” simuladas em plataformas on-line. Observou-se, então, uma avalanche crescente de publicações flopadas (do inglês flop, “fracasso”), a frustrar e esgotar tanto o público como as próprias instituições, perdidas em um mar internético sem plano de navegação.

Em matéria da Folha de S.Paulo, de 17 de abril de 2020, a artista e professora da USP Giselle Beiguelman escreveu uma incisiva crítica aos museus, galerias de arte e instituições culturais que estariam, segundo ela, na “era do byte lascado”. Sob o título “Atropelados pela pandemia, museus rastejam na internet”, a autora alerta para a ausência de conteúdo artístico e cultural elaborado para a web por parte dessas instituições e para sua adesão “aos únicos campos da vida on-line que conhecem, as redes sociais, o ecommerce e saídas de emergência apontadas para o Google Arts and Culture” (BEIGUELMAN, 2020).

Essa percepção pode se associar ao fato de que alguns museus, legitimados por sua identidade social, transferiram para o ambiente digital seus saberes institucionais e limitaram-se a postar informações descritivas sobre sua história e itens de seu acervo, curiosidades a respeito de obras e artistas e até, na falta de publicações atualizadas, a famosa hashtag “TBT” (oriunda do termo throwbackthursday, em tradução literal, “quinta-feira do regresso”), acompanhada de fotos de viagens, lembranças e legendas que manifestam certa nostalgia. Ainda que possam fazer uso de recursos tecnológicos esteticamente interessantes, como animações em vídeo, imagens em alta resolução e posts sequenciais em carrossel, a massificação e a repetição dessas fórmulas rapidamente tornaram as publicações enfadonhas.

Mas Beiguelman também menciona iniciativas que se mostram alvissareiras, que são capazes de demonstrar potencial criativo e a “compreensão da internet para além de um repositório de links”. Entre elas, visitas virtuais a coleções de net art, mostras com acervos de filmes, acesso a interfaces de dados e a plataformas com fotografias e imagens digitalizadas de acervos variados, que possibilitam filtrar informações por data, tema, gênero e outras especificidades. A autora igualmente indica sites que oportunizam “contextualizar as obras em relação ao momento histórico, à arquitetura, à ciência, e também às artes cênicas, filosofia, literatura, música e pintura” (BEIGUELMAN, 2020).

Todos esses exemplos, que não são construídos de uma hora para a outra, podem estar relacionados, em alguma medida, com as estratégias de “credibilidade” e de “captação” da identidade discursiva e suas diferentes atitudes discursivas, de acordo com a classificação de Patrick Charaudeau (2009). Sem entrar propriamente em uma discussão semiolinguística – o que exigiria aprofundamento e desdobramentos teóricos–, pode-se dizer que há estratégias e atitudes que “fazem pensar recorrendo à razão” e outras que “fazem sentir recorrendo à emoção”, e elas não deixam de constituir bons planos a projetar um futuro dos museus.

No entanto, pensar no “Futuro dos Museus” – temática proposta pelo ICOM para o Dia Internacional dos Museus, em 2021 – é associá-los diretamente à sua dimensão social, com base no pressuposto de que suas soluções tecnológicas, econômicas e comunicacionais estejam a serviço dos valores simbólicos, ambientais e humanitários.

Portanto, não deveria importar, de fato, se os museus vão se tornar estrategicamente eficazes ou quantitativamente atrativos, mas sim o quanto serão capazes de desobjetificar as relações entre os sujeitos e de exercer empatia como ser-museu.

O ato linguageiro exige coconstrução de sentidos, e “o jogo entre identidade social e identidade discursiva, e a influência daí resultante, não podem ser considerados fora de uma situação de comunicação” (CHARAUDEAU, 2009). Portanto, um museu que não se coloque na posição de sujeito cocriador não se comunicará com sua comunidade, com seus visitantes, com seus profissionais, tampouco consigo mesmo como instituição que exerce um papel social.

Os versos da música de Chico César parecem corroborar a ideia de que esse sujeito-museu é a memória de futuro no presente, o “museu da memória de ontem, [...] fundação trêmula dos afetos acidênticos, [...] museu do abraço experimental” (CÉSAR, 2015).

Os sujeitos e os museus não estão situados no futuro, mas na urgência do agora.


[1] Professora Associada da Universidade Federal Fluminense. Professora do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Turismo (PPGTUR/UFF). Graduada em Museologia (UNIRIO), mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPMS/UNIRIO), doutora em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPFH/UERJ), com pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF). Coordenadorado Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade (UFF/CNPq), do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Turismo e Museus (EpisTemus) e do Laboratório de Pesquisa, Produção e Análise da Imagem (L’Image). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[2] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, Especialista em Língua Portuguesa (Liceu Literário Português), Licenciado em Português-Literaturas (UFF), Professor da SME/RJ. Pesquisador do Laboratório de Pesquisa, Produção e Análise da Imagem (L’Image) e do membro do Grupo de Pesquisa Leitura, Fruição e Ensino (LEIFEN). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


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