18 Maio 2021 - Dia Internacional dos Museus

Pedro Mastrobuono 
Presidente do IBRAM

As recentes transformações tecnológicas, com a facilidade de acesso a smartphones e a grande oferta de recursos de comunicação gratuitos, transformou significativamente a maneira como consumimos cultura.

Como sinaliza Canclini (2002), importante teórico da comunicação, em seu artigo "Cidades e cidadãos imaginados pelos meios de comunicação”, passamos a depender menos

(…) Do passeio do flâneur que reunia informações sobre a cidade para depois transferi-las às crônicas literárias e jornalísticas, passamos, em cinqüenta anos, ao helicóptero que sobrevoa a cidade e oferece a cada manhã, através da tela do televisor e das vozes do rádio, o panorama de uma megalópole vista em conjunto, sua unidade recomposta por quem vigia e nos informa.

As recentes transformações tecnológicas nos fizeram assistir a uma desmaterialização da cultura. Se antes da pandemia podíamos considerar que os visitantes dos museus, dotados de suas câmeras de aparelho celular, atuavam como flâneurs tecnológicos que transmitiam sincronicamente pelas redes sociais os acontecimentos culturais das cidades, com o avanço da pandemia o fluxo de pessoas foi grandemente reduzido, ao tempo em que o fluxo de imagens cresceu em proporções incalculáveis.

O mundo vem se transformando, sobretudo na comunicação. Sem a ingenuidade de acreditar que não há consequências negativas no uso desregulado dos diversos canais de comunicação gratuitos que agora dispomos, é preciso reconhecer que houve um aumento notório da circulação de ideias e o surgimento de modos diversos de significar as coisas. As interações físicas foram substituídas pelas interações virtuais, que facilitaram o surgimento de conflitos virtuais de discursos, ao mesmo tempo em que promoveram a diversidade.

O isolamento físico imposto pela pandemia, apesar de suas consequências nefastas para a saúde física e mental das pessoas, impulsionou a realização de ações virtuais integradas entre museus. A virtualidade propiciou, inclusive, que bens culturais localizados em pontos tão distantes do globo pudessem compor uma mesma exposiçãosem os custos e obstáculos que enfrentariam para compor um mesmo ambiente presencial. Podemos afirmar que o número de exposições virtuais realizadas simultaneamente desde o início da pandemia terá sido o maior da história; e largaram evidentemente à frente aquelas instituições que dispunham dos seus acervos digitalizados. Considerando que presença virtual dos museus se faz, primordialmente, por meio da digitalização dos seus acervos, ficou ainda mais evidente que a digitalização é, essencialmente, um ato de democratização do acesso.

O Instituto Brasileiro de Museus tem sido um grande promotor de iniciativas de acesso aos bens culturais por meio digital. O Programa Acervos em Rede, por meio da ferramenta Tainacan, tem oferecido ao público o acesso a milhares de imagens digitais de bens culturais sob a guarda dos museus brasileiros. Além desse programa, importantíssimo para que o setor Museal se faça presente na vida cultural da população, vários museus encontram-se presentes na Plataforma Google Arts and Culture, colocando em evidência acervos relevantes para a memória do país.

Dentre outras iniciativas, o Ibram tem trabalhado na proposição de alteração de normas que visem o desenvolvimento dos museus brasileiros e a efetiva implementação de políticas públicas para o setor museológico. Foi construída uma proposta de alteração da Lei de Direitos Autorais, que pretende excepcionalizar os museus públicos a fazerem uso de imagens de obras protegidas que compõem os seus acervos, sem que isso configure ofensa aos direitos de autor. O objetivo da proposta é oportunizar os museus a cumprirem sua missão degarantir a universalidade de acesso digital aos bens musealizados, sem obstáculos, bem como permitir que, ao desenvolverem produtos inspirados em seus acervos, possam ter na comercialização de produtos de referência cultural uma fonte de receita.

Durante a pandemia ficou evidente a importância dos museus na vida cultural e social brasileira. Sabemos que as atividades virtualizadas dos museus puderam oferecer um alento para a solidão e o luto individual e coletivo. Museus são, pela capacidade aglutinadora de memórias e ideias, instrumentos de desenvolvimento social. Esta é a razão pela qual a Política Nacional de Museus deve ser tratada, necessariamente, como política de Estado.

Essa compreensão da magnitude do papel dos museus tem se expressado numa gestão propositiva do instituto, uma gestão que se antecipa aos desafios esperados. Os museus precisam, mais do que nunca, de estímulos para continuar cumprindo efetivamente o papel de guardiões da memória do país.

É igualmente evidente a importância da cultura para a economia, e vice-versa; e lamentavelmente ambos os setores sofreram muito com a pandemia. As instituições museais, como ativos estratégicos para a cultura, estimulam as economias locais, não apenas por meio do turismo cultural, mas por meio de uma gigantesca cadeia de produtos e serviços necessários à vida dessas instituições.

Os museus tem tentado se reinventar e o Ibram tem trabalhado incansavelmente para encontrar soluções viáveis e inovadoras para o setor. Neste sentido, não apenas o incremento de recursos públicos são necessários, mas uma responsabilidade compartilhada com a sociedade civil, em especial com o setor privado.

Assim, o Ibram tem buscado identificar fontes alternativas para a sustentabilidade econômica dos museus. No contexto do fortalecimento das políticas públicas para o setor, o instituto celebrou, durante a pandemia, acordo de cooperação técnica com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para a modelagem de fundo patrimonial filantrópico para museus, também conhecido como endowments. Os fundos patrimoniais filantrópicos visam destinar doações fi-lantrópicas para financiar causas de interesse público. A captação de recursos será uma das etapas mais desafiadoras para a proposta em desenvolvimento e esperamos contar com o amplo apoioda sociedade para a composição do fundo.

Reinventar-se é um ato de resiliência. E os museus seguem diariamente se reinventando. O ato de recuperar e reimaginar tem uma dimensão teórica importante, mas não se pode negligenciar a dimensão material dos museus para a qual o financiamento e a sustentabilidade propriamente dita são fundamentais. Os desafios para a sustentabilidade econômica do setor, já significativos antes da pandemia, agressivamente se impõem exigindo agilidade na busca por soluções de impacto.

Que possamos fazer com que o reconhecimento do papel dos museus para a preservação da memória seja traduzido em investimentos significativos no setor e na redução de obstáculos para a democratização do acesso.


Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30