Dia Internacional dos Museus 2022

Denise Studart  [1]

 Mario Chagas [2]

Os museus, em permanente devir, são produtores, irradiadores e estimuladores de conhecimentos e descobertas, bem como conectores e articuladores de diferentes experiências sociais e espaço-temporais. Os museus, potência em devir, exercem – ou podem exercer – papéis importantes na sociedade, entre eles: locais de educação e irradiação cultural, centros de pesquisa e documentação, antros poéticos, campos discursivos e arenas de disputa política pela ocupação da memória.

Existem museus que, em perspectiva cidadã, operam a favor da dignidade social e de uma ideia inovadora de museu. Mas também existem instituições museais que estão divorciadas de temas sociais e desconectadas do interesse pela preservação do meio ambiente e manutenção das condições de vida no planeta.

A Carta da Terra, lançada no Rio de Janeiro, durante a Eco-92, assinada, ratificada e assumida pela Unesco em 2000, no Palácio da Paz em Haia, Holanda, registra em seu Preâmbulo:

“Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.” (Carta da Terra, 2000)

Três décadas depois da Eco-92 e duas da assinatura da Carta da Terra, perguntas chaves continuam a aguilhoar o pensamento contemporâneo: afinal de contas, qual é o compromisso das instituições culturais brasileiras com a construção de uma sociedade sustentável global, baseada numa cultura de paz, justiça econômica, direitos humanos universais e respeito à natureza? Que planeta se quer deixar para as futuras gerações?

Em nosso entendimento, os museus contemporâneos estão desafiados a enfrentar essas e outras questões. O desafio implica o reconhecimento de que as instituições museológicas têm potencial para exercer papel de relevância na disseminação, divulgação e abordagem de questões relativas à sustentabilidade integrada, em pelo menos quatro de suas dimensões: ambiental, cultural, social e econômica (CHAGAS,ALVARES, SILVA, 2021).

No ano em que o Conselho Internacional de Museus (Icom) recomenda que o “Poder dos Museus” seja o tema adotado como referência para práticas e reflexões dos museus espalhados pelo mundo; no ano em que a cultura da guerra explode na Europa; no ano em que no país da ibirapitanga os povos indígenas são atacados, agredidos e vilipendiados e a destruição ambientalcresce de modo extraordinário (desmatamento e garimpo ilegal); é neste ano também que os museus podem colocar em movimento os seus poderes, afirmar e defender a Constituição, fomentar as ações de cidadania, defender os direitos humanos, incluindo o direito à vida, à educação, à memória, aos patrimônios culturais e naturais. A capilaridade dos processos museais é um ativo a favor do “Poder dos Museus” comprometidos com a democracia e as transformações sociais em direção à Carta da Terra.

Em 2022, comemoram-se também os 50 anos da Mesa Redonda de Santiago do Chile (MRSC), realizada em 1972, durante o governo socialista de Salvador Allende, democraticamente eleito e violentamente derrubado por um golpe político-militarem setembro do ano seguinte. A MRSC continua sendo importantíssima para os museus e a Museologia, da América Latina e de boa parte do mundo, devido a sua ênfase no papel social dos museus. Na atualidade, o desafio que está colocado para o campo museal, não é apenas o de celebrar e comemorar a MRSC, mas o de estudá-la e reexaminá-la, visando o aperfeiçoamento de conceitos ali explicitados. Nesse sentido, rever, e criticar, a âncora desenvolvimentista presente no documento da MRSC, é indispensável (fica aqui a sugestão para outros pesquisadores).

A distinção entre natureza e cultura resulta de um arbítrio conceitual da sociedade ocidental, que não responde às questões contemporâneas. A rigor, a cultura fora da natureza não tem existência; e a natureza, por sua vez, decorre de um conceito cultural.

Em junho de 2010, com o objetivo de examinar o papel dos museus diante dos desafios ambientais, foi organizado no Rio de Janeiro,pelo Ibram e pelo Museu da Vida/Coc/Fiocruz, com o apoio do Cnpq, o “Simpósio Museus, Biodiversidade e Sustentabilidade Ambiental”, realizado no Museu Histórico Nacional. À época, o Simpósio constituiu para o campo museal brasileiro, um gesto inaugural e contribuiu para a ampliação e o aprofundamento dos debates em torno das questões da manutenção da vida no planeta e para a construção de uma política ampla de sustentabilidade ambiental nos museus (CHAGAS, STUDART, STORINO, 2014).

Entre os principais objetivos do referido Simpósio,destacavam-se:

  • debater o papel dos museus diante dos desafios ambientais e buscar formas de atuação criativas e éticas;
  • incentivar o diálogo com a sociedade no que se refere à produção de conhecimentos, favorecendo a educação ambiental e a valorização da cultura;
  • fomentar a discussão sobre questões nas áreas da comunicação museal e da divulgação científica e cultural com o objetivo de ampliar o conhecimento e o debate socioambiental, incluindo a biodiversidade e a sustentabilidade;
  • apresentar exemplos expográficos e soluções arquitetônicas sustentáveis e aplicáveis a espaços museais; e
  • promover reflexões sobre o patrimônio natural e sua conservação/preservação (STUDART, 2011).

Durante a Rio+20, a Declaração Final da Cúpula dos Povos apelou por “Justiça Social e Ambiental”, afirmando a necessidade de se defender os bens comuns contra a mercantilização da vida. A referida Declaração, datada de junho de 2012, diz, entre outras coisas:

Há vinte anos o Fórum Global (...) denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema econômico-financeiro." (O Eco, 2012)

Como indica Leonardo Boff (2012), um dos idealizadores e assinantes da Carta da Terra, “devemos começar a elaborar um modo sustentável de vida em todos os âmbitos, seja na natureza, seja na cultura. Não se trata de salvar nossa sociedade de bem-estar e de abundância, mas simplesmente de salvar nossa civilização e a vida humana junto com as demais formas de vida.” Os museus, processos ancorados na comunicação, na pesquisa e na preservação, podem promover com êxito ações focadas em questões ambientais. Destaque-se que eles foram formalmente reconhecidos na COP24 em Katowice (Polônia), em dezembro de 2018, como locais de relevância para trabalhar a favor das Ações de Empoderamento Climático (MCGHIE, MANDER, MINNS, 2020; STUDART, GUIMARÃES, 2020).

Comunicar a temática ambiental e sua relação potencialmente forte com os museus não significa apenas divulgar informações e avanços da ciência e da tecnologia nesse âmbito. Outros desafios se impõem: é vital promover um debate contínuo na sociedade sobre este e outros assuntos de importância cidadã; é preciso rebater e estancar a propagação de fake news indiscriminadas nas mídias e redes sociais; é necessário que os setores da educação e da cultura participem conjuntamente em favor desses propósitos. Nessa direção, os museus têm muito a dizer e contribuir, especialmente aqueles que são capazes de se comunicar com mais profundidade e de forma mais efetiva junto à comunidade e seus públicos diversos, bem como estabelecer processos de diálogo e participação.

É essencial se posicionar firmemente contra a pobreza e a ganância, contra a barbárie, contra a política da guerra, tanto em nível municipal, estadual, regional, federal ou internacional. É fundamental que a temática ambiental seja incorporada de forma criteriosa à agenda dos museus e das políticas públicas. Em nosso entendimento, todo e qualquer museu comprometido com o seu tempo e com a vida não deve fugir à responsabilidade de ser centro irradiador de ações de valorização da biodiversidade e de reflexões sobre os direitos e deveres humanos com relação ao bem-estar comum e do planeta. Esse comprometimento exige mudanças de comportamentos e de mentalidades, o abandono de certas práticas e o reconhecimento da sustentabilidade ambiental como um assunto basilar.


[1] Denise Studart. Museóloga e PhD em Museum Studies pela University College London. Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Público e Avaliação, Museu da Vida/Fiocruz, e do Observatório de Museus e Centros de Ciência/OMCC&T.

[2] Mario Chagas. Poeta, Museólogo, Professor, Mestre em Memória Social e Doutor em Ciências Sociais. Diretor do Museu da República/Ibram e Presidente do Movimento Internacional para uma Nova Museologia (Minom). 


Referências

  • BOFF, Leonardo (2012) Sustentabilidade: o que é – o que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012, p.13-29.
  • CARTA DA TERRA (2000). Comissão Internacional Independente. Haia: Holanda. Disponível em: http://www.cartadaterrabrasil.com.br/prt/Principios_Carta_da_Terra.pdf . Acesso em abril de 2022.
  • CHAGAS, Mario; ALVARES, Lucia Capanema; SILVA, Cassia Rodrigues da (2021). Os Museus e a Cidade: contribuições para a sustentabilidade integrada. Niterói: UFF. 228p.
  • CHAGAS, Mario; STUDART, Denise; STORINO, Claudia [Orgs] (2014). Museus, Biodiversidade e Sustentabilidade Ambiental. Rio de Janeiro, Espirógrafo Editorial: Associação Brasileira de Museologia. 208p.  ISBN 978-85-68002-00-1. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/340661351_Museus_Biodiversidade_e_Sustentabilidade_Ambiental. Acesso em abril de 2022.
  • MCGHIE, Henry; MANDER, Sarah; MINNS, Asher (2020). “The Time Machine: challenging perceptions of time and place to enhance climate change engagement through museums”. Museum& Society, July 2020. 18(2) 183-197.
  • O ECO (2012) Declaração final da Cúpula dos Povos. O Eco, Jornalismo Ambiental. 27 de junho de 2012. Disponível em: http://www.oeco.org.br/noticias/26168-declaracao-final-da-cupula-dos-povos. Acesso em abril de 2022.
  • STUDART, Denise; GUIMARÃES, Vanessa (2020). “A questão ambiental e a comunicação do conhecimento científico pelos museus para a promoção de consciência social sobre o desenvolvimento sustentável”. Anais Eletrônicos do 17 Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. SBHC – Sociedade Brasileira de História da Ciência. 23 a 27 de novembro de 2020.Disponível em: https://www.17snhct.sbhc.org.br/resources/anais/11/snhct2020/1597008034_ARQUIVO_da6d8e7767f2b848d4f161ee291f5483.pdf . Acesso em abril de 2022.
  • STUDART, Denise (2011) Relatório Técnico “Museus, Meio Ambiente e Sociedade”, CNPq, Modalidade ARC. Documento não publicado. Fevereiro de 2011. 31pag.

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