Dia Internacional dos Museus 2022

Pedro Paulo A. Funari [1] 

A associação da palavra poder a museus não parece óbvia. Museus associam-se a arte, engenho, preservação, curiosidade. O poder pode aparecer em sua face externa, algo que vem de fora para dentro, como quando o museu apresenta manifestações do poder. Podem ser estátuas de figuras dominantes, como imagens ou quadros de reis, presidentes ou outros hierarcas, mas podem ser outras em tudo diversas, em questionamento da violência do poder, como no quadro de Picasso (1881-1973), Guernica (1937). A pintura do espanhol retrata os horrores do poder a serviço da morte, da destruição e da submissão, no caso por parte de forças nacionalistas e fascistas. Mas, qual o poder dos museus, para além dessa exposição, de fora para dentro, do poder?

Para explorar o tema proposto em 2022 para a reflexão no dia dos museus, convém retornar a poder e a liberar, os verbos, e os seus substantivos, poder e liberação. Poder, palavra de origem latina, significa “ser capaz”, com sentido semelhante ao grego dýnamis, capacidade, dýnamai, sou capacitado para, dýnamei, em potencial, expressão muito usada por Karl Marx, entre outros filósofos. Esse sentido nem sempre é lembrado, frente a outros, relacionados à noção de imposição, como se poder fosse dominação, submissão, imposição. Estes últimos relacionam-se à força de cima para baixo, enquanto a capacidade refere-se a algo de dentro para fora, o que se pode fazer, não o que se quer impor. Deve entender-se o poder dos museus como sentido de algo de dentro para fora, criativo, não impositivo.

Em seguida, convém voltar-se para o outro termo: libertação. Inicia-se a trajetória do conceito com o sentido de crescimento, aquilo que cresce. A liberdade é a possibilidade de crescer, também no sentido de crescimento de geração a geração, populacional, daí o sentido derivado, em diferentes idiomas e contextos, de pessoas, gente (como Leute, em alemão). Liberdade e libertação diferenciam-se pela ênfase, neste último, da ação em prol do crescimento. Daí que libertação se identifica com a ação, como em Teologia da Liberação ou Movimento de Liberação Feminina. A junção de poder e liberar, neste enunciado do Dia dos Museus, em 2022, pode ser entendido nestes aspectos potenciais e capacitadores. Os museus podem e são capazes de atuar de dentro para fora, em prol do ambiente e da sociedade, em sua interação. Isso pode ser em diversas frentes: ambiente, digitalização e acesso, interação com a comunidade, por meio da educação. Esta mensagem enfatiza três aspectos essenciais e interligados. A comunidade funda-se na transmissão, ou educação, cujo acesso depende da relação com o ambiente, entendido como aquilo tudo que está em volta.

Museus tornam-se poderosos, capazes de fazer crescer, quando incluem as pessoas e as comunidades em sua gestão. Pode parecer pouco, mas não, se isso for feito, os resultados poderão ser imensos. A inclusão empodera as pessoas e as próprias instituições, as comunidades e a sociedade como um todo. Essas comunidades podem ser estudantes de uma escola, os moradores de um bairro, as ativistas de um coletivo feminista, indígena, quilombola, não importa, nem se limita a esses: todo tipo de coletividade pode contribuir. Mesmo indivíduos podem e devem ser incluídos, como idosos, pessoas com necessidades especiais ou transtornados (quem, em são consciência, não é também um transtornado?). Os museus podem servir para libertar, não para emprisionar, para empoderar, não para dominar.

Nos 30 anos do Museu da Cidade, Campinas, uma menção pode ser feita, neste sentido. O Museu surgiu das cinzas do culto das elites, em movimento de inclusão social. Para além das origens aristocráticas e ricas, foi logo incorporada a presença indígena, tanto histórica ou etnográfica, como arqueológica, dos últimos milhares de anos. Também, de comunidades afro-brasileiras, caipiras em geral, mineiras, das migrações e imigrações, em uma simbiose criativa. Só de Minas Gerais, provém um quarto da população da cidade de Campinas e Região Metropolitana. Caso particular, mas que espelha algo geral: gente de toda parte, de todas as tradições, gêneros, comportamentos, costumes, religiosidades, presentes e ativos na cidade, na região e no Museu. Isso vivifica. O poder dos museus está neste imenso impulso, de dentro para fora, de permitir o florescimento da diversidade. A mensagem última pode ser resumida no lema “vida e deixe viver” (live and let live, mensagem do Gun n’Roses), tão importante neste momento de guerra, como em tantos outros. Este 18 de maio, em 2022, pode nos levar a pensar e agir para um mundo mais diverso e inclusivo e, para isso, os museus podem contribuir.


[1] Unicamp.


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