Dia Internacional dos Museus 2022

Milene Chiovatto [i] 

Anualmente o Conselho Internacional de Museus (ICOM) lança um tema em comemoração ao Dia Internacional dos Museus, comemorado todo 18 de maio.

Em 2022 o tema escolhido trata do poder dos museus. Ao explanar o tema, o ICOM aponta para alguns aspectos que nos auxiliam a pensar sobre esse poder. Um delesversa sobre a associação entre os museus, as tecnologias digitais e a acessibilidade. O texto afirma:

“O poder de inovar na digitalização e acessibilidade: Os museus se tornaram espaços de diversão inovadores onde novas tecnologias podem ser desenvolvidas e aplicadas à vida cotidiana. A inovação digital pode tornar os museus mais acessíveis e envolventes, ajudando o público a compreender conceitos complexos e sutis.” [1] 

A associação entre tecnologia e acessibilidade pode até parecer óbvia em um primeiro momento, mas há que se refletir sobreaexistência de realidades muito distintas se considerarmos o contexto global. Após a experiência de dois anos e meio de isolamento em função da pandemia de COVID-19, os museus tiveram que repensar sua atuação e agir principalmente por meio das mídias digitais, o que propiciou uma capacidade inegável de ampliação geográfica do alcance de suas ações, e uma penetração sem precedentes em diferentes meios sociais, encontrando ressonância em públicos que nunca estiveram presencialmente nos museus. Entretanto, esse mesmo cenário favoreceu a constatação de que não basta a divulgação de imagens e informações sobre as coleções, e que muito ainda há que ser desenvolvido para propiciar uma dinâmica mais participativa, inclusiva e dialógica com os públicos nos meios digitais. Além disso, deixou claro que a ideia da plenainclusão digital não é uma realidade, pois em sociedades como a brasileira, uma grande parcela populacional não tem acesso a um dispositivo para conexão, o acesso à rede ou ao ambiente digital que permitam uma conexão estável e constante e possibilitem seguir e interagir com as emissões dos museus. [2] Em 2018, uma em cada quatro pessoas no Brasil não tinha acesso à internet o que significava que cerca de 46 milhões de brasileiros sem acesso à rede.

Assim, tecnologia e acessibilidade não necessariamente andam juntas. É necessário lembrar, ainda, que o conceito de acessibilidade é complexo e não se resumeao acesso às informações e muito menos à “tradução” de conceitos complexos. Ela é formada por camadas que incluem o acesso físico (que nesse caso poderia ser substituído pelo acesso aos dispositivose à rede de internet); mas esse é apenas um primeiro nível de acessibilidade, já que o conceito, numa concepção mais ampla, deve contemplar também outras formas de ultrapassar as barreiras que permitam uma participação efetivadaqueles histórica e socialmente apartados de vários âmbitos da vida social, tal como a cultura.

Outro aspecto destacado na explanação do tema é a perspectiva de os museus auxiliarem na implementação dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) das Nações Unidas. Esses objetivos foram desdobrados dos oito primeiros Objetivos de Desenvolvimento, nomeados no ano de 2000, como do Milênio (ODM) e que estabeleciam metas globais para o período de 2000 a 2015. [3] As conquistas alcançadas nessa primeira proposta deram origem a metas para os próximos 15 anos, ou seja, computando o período de 2015 a 2030, discutidas e acordadas durante a Rio+20, realizada em junho de 2012, pelos 193 países presentes.

Trata-se de 17 conceitos propostos pela ONU como agenda para 2030 como apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que todas as pessoaspossam desfrutar de paz e de prosperidade. Entre eles, destacamos a erradicação da pobreza; a fome zero e a agricultura sustentável; energia limpa e acessível; indústria, inovação e infraestrutura.

Desde um ponto de vista pragmático há alguns desses importantes objetivos que são mais afeitos ao campo dos museus, e para os quais a contribuição dessas instituições poderia ser mais efetiva, tais como assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades; assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos; alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas; assim como promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos.

Esses nos parecem objetivos que poderiam ser apoiados desde o cotidiano mesmo dos museus, iniciando-se internamente, reavaliando-se, por exemplo, a política de contratações tendo como foco a equidade não apenas nas quantidades de trabalhadores homens e mulheres, mas também seus cargos e salários; e avançando para incorporar nos quadros de trabalho pessoas que foram e têm sido sistematicamente distanciadas do contato e convívio com a cultura, por diferentes fatores, tais como pessoas negras, LGBTQIA+; com deficiência etc.; abrindo o potencial de trabalho e atuação nessa área. Uma ação efetiva no apoio a esses ODS seria, por exemplo, diminuir as distâncias hierárquicas internas à essas instituições em que, de forma muito recorrente, um pequeno grupo é considerado conceitualmente superior, gozando de privilégios institucionais e impactando inclusive nos valores de remuneração dos funcionários dos museus.

Ainda na explanação do tema, o ICOM propõe que os museus têm “o poder da construção da comunidade por meio da educação: Por meio de suas coleções e programas, os museus tecem um tecido social essencial na construção da comunidade. Ao defender os valores democráticos e proporcionar oportunidades de aprendizagem ao longo da vida a todos, contribuem para a formação de uma sociedade civil informada e empenhada” [4]. E é exatamente nesse ponto que quero concentrar minha reflexão, uma vez que esse enunciado resvala em outra discussão corrente, qual seja, a da reformulação da definição de museu.

Primeiramente é necessário reconhecer que nesse enunciado a educação é reconhecida como função primordial dessa instituição, coisa que nos recentes processos de revisão da definição de museus continua a ser um ponto de discussão que deveria, há muito, ter sido superado. Continuamos acreditando que não há espaço para dúvidas numa definição e que o fato de um museu ser essencialmente uma instituição educativa não deve ser tratado como conhecimento tácito, mas pelo contrário, deve estar claramente presente na redação final do ICOM.

Por outro lado, sabemos que éum antigo desejo (desde aDeclaração de Santiago do Chile, em 1972) [5] que os museus possam emaranhar-se no processo de construção das comunidades na quais atuam; mas é necessário refletir que na redação sobre o tema deste ano difundida pelo ICOM parece haver uma inversão sobre a qual precisamos refletir. É preciso reconhecer que sem um museu, a sociedade é capaz de sobreviver, mas que a recíproca não é verdadeira, ou seja, sem a sociedade, um museu não se sustenta. É o museu que precisa da comunidade e não o inverso. Aliás, na melhor hipótese, ambos devem confundir-se e caminhar juntos para um futuro construído coletivamente.

Dessa forma, o museu pode e deve contribuir para a construção e fortalecimento das comunidades, mas isso não é prerrogativa dessa instituição, ela é apenas um dos atores nesse processo e pode até desempenhar um papel crucial, desde que compartilhado com a sociedade e seus demais atores. Por isso, enquanto os museus não se conscientizarem de forma definitiva de que sua função primordial é a educação e que todas as outras atividades que desempenham devem tê-la por finalidade, continuarão a pautar suas açõesem uma ilusória posição hierarquicamente superior e distante das comunidades às quaisdeveriam servir.

Também é importante, como brevemente exposto pelo ICOM e reafirmadopelo IBRAM em seu texto de apresentação do tema [6], questionar o poder dos discursos emitidos pelos museus, já que podem optar por uma posição mais democrática e polifônica, ou continuar investindo em coleções e discursos autoritários e acríticos, muitas vezes reforçando posições historicamente aceitas, mas francamente excludentes.

Finalmente, há que se considerar que se os museus têm poder, esse se encontra na categoria nomeada de “poder suave” ou “poder brando”. Termo cunhado na década de 1980 pelo cientista político Joseph Nye, que explicita a capacidade cooptar ao invés de coagir, ou seja, de influenciar a opinião pública de forma quase subliminar, moldando preferências da sociedade por meio de apelo e atração. [7] 

É esse o tipo de poder difuso que os museus podem gerar, um poder muitas vezes invisível e processual, mas capaz de transformar mentalidades, questionar paradigmas e contribuir na construção de uma sociedade mais equitativa.


[i] Coordenadora do Núcleo de ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo. Presidente do Comitê de Educação e Ação Cultural do ICOM.

[1] https://icom.museum/en/news/international-museum-day-2022-the-power-of-museums/ acessado em 21/04/2022.

[2] Conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC) 2018. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-04/um-em-cada-quatro-brasileiros-nao-tem-acesso-internet acessado em 21/04/2022.

[3] https://brasil.un.org/pt-br/sdgs acessado em 22/04/2022. 

[4] https://icom.museum/en/news/international-museum-day-2022-the-power-of-museums/ acessado em 21/04/2022.

[5] https://www.revistamuseu.com.br/site/br/legislacao/museologia/3-1972-icom-mesa-redonda-de-santiago-do-chile.html acessado em 22/04/2022.

[6]  https://www.gov.br/museus/pt-br/assuntos/eventos/20-semana-nacional-de-museus/20snm-texto-de-referencia.pdf acessado em 22/04/2022.

[7]  O melhor exemplo é o caso do cinema produzido por décadas em Hollywood, responsável por disseminar conceitos do estilo de vida norte-americano, bem como a percepção mundial sobre outras culturas, como a mexicana, russa e mesmo brasileira; o que teve e continua tendo imenso impacto nas negociações políticas e econômicas mundiais acessado em 22/04/2022.


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