Dia Internacional dos Museus 2022

Marco Antonio Xavier [i] 

Semente.

Bem plantada e cuidada, cresce e floresce; se o solo é fértil os frutos serão fortes, as pessoas e a natureza se deliciam com eles...

Mas e se o solo é árido, pedregoso, pisado... mas não estéril?

Pela “lei” da seleção natural, tal semente, por ser uma sobrevivente, tem qualidades que a tornaram melhor adaptada ao meio. Ela não venceu uma “luta” com as outras, mas uma luta por si mesma. Vencer ou perecer. E há grandes possibilidades de que, chegando a uma fase fértil e reprodutiva, seus rebentos também sobrevivam.

 

Poder.

É substantivo e verbo. É latência e também realização. Não tem lado ou carga moral. Não é bom ou mau. Capacidade de transformar com base numa vontade.

 

Museu é semente que se planta. Planta que sobrevive.

É o Poder que se constrói de forma coletiva.

No nascimento do atual modelo dos museus, há uns 250 anos, frutos de uma estrutura ocidental, grego-latina (Cultura), judaico-cristã (Religião) e eurocêntrica, as relações entre a entidade Museu e as Pessoas alcançadas pelas suas finalidades reproduziam as estruturas da sociedade naquele momento. Estas “relações de poder” foram sendo mantidas e pouco modificadas por gerações [1]. Com isso as expressões de poder neles acabaram por serem superadas ou transformadas tardiamente.

Museus são organismos dinâmicos em essência; embora preservem o “velho” é no “novo” que se baseiam. Releitura constante de seu acervo por um público inconstante.

Interações entre partes, geralmente, são relações de poder (verbo) que podem levar a expressões de Poder (substantivo); sempre melhores se benéficas para os lados, os opostos e/ou os pares.

O que o Museu deve perpetuar são estas discussões, pois o acervo é perecível e as pessoas efêmeras. O Poder de um Museu está na sua capacidade de interagir e mudar, dentro e fora. Assim, se um museu desaparece, não desaparece o efeito de mudança que deixou nas pessoas.

Para os administradores (ou, como está em moda atualmente, os gestores) há várias formas de exercer o Poder sobre os seus subordinados ou nos processos de produção e controle. Poder por coerção, por informação, por legitimidade, por capacidade, etc. Mas o Poder é fruto e não semente.

Onde está o Poder dos Museus?

Não há dúvidas: está no humano [2].

Da “escolha” [3] de um objeto (visível ou intangível) ao discurso e mensagem há sempre uma pessoa por trás das ações.

 

Medo e submissão.

Impor o Poder pelo medo ou submissão é a dominação e/ou controle de um indivíduo pelo outro ou de um sistema ou sociedade sobre os indivíduos que não se submetem aos seus “parâmetros”. O fascismo não usa somente ou basicamente esta forma de Poder, mas as ditaduras, por exemplo, usam e abusam.

Os museus não só não usam (ou não deveriam usar) esta forma de Poder, de opressão, mas devem repudiar, nos seus discursos e ações, este tipo de poder, que é menor pela sua abrangência e efetividade, mas também pela qualidade moral.

O Poder latente dos museus não está na coerção, no enfrentamento de forças, mas na potencialidade, na perenidade, na capacidade de mudar musealizando o imutável acervo.

Desta forma, os museus não são estáticos, pois se fossem “parados no tempo” não teriam relevância ou importância.

Mutatis mutandis [4].

 

Conhecer e se reconhecer

Reconhecimento é uma forma de poder/Poder. Quando nos submetemos a algo por reconhecimento é, por assim dizer, que compartilhamos a expertise, as qualidades e qualificações e, até mesmo, a fama. Museus renomados e muito (re)conhecidos são arquetípicos para o público em geral, tornando-se modelos e referências. Mas isso não basta. Uma tal legitimidade não pode ser dada ou outorgada (como o “poder” raso, débil e frágil de um “influencer”), ela é conquistada e perdida e reconquistada... vai crescendo lentamente e pode ser sazonal. Semente.

Museu não é monumento; Museu é momento.

Servatisservandis [5].

 

Sei que nada sei, mas quero sempre saber ou nada serei

O saber também é uma forma de poder. Não o saber cumulativo, acadêmico ou pernóstico, pois estes saberes são estanques e não se relacionam com outras áreas além dos domínios cada vez mais restritos e limitados. Uma vez, no transporte público, voltando da universidade, escutei dois alunos comentando sobre as teses da pós-graduação; eles chegaram a uma conclusão: um doutorado era como “saber quase tudo sobre quase nada!”
Os saberes produzidos e (re)criados num Museu não podem (ou não deveriam) ser voltados às suas materialidades e interesses, eles devem conversar, dialogar, discutir e conjecturar com outros museus, outros acervos, com seu público e o público em geral, buscando diferentes formas de pensar o mundo.

Informação é poder, mas se equivoca aquele que acha que tudo saber, toda informação, é capacidade real e realizável de mudança; muitos atualmente (mais que antes) querem ouvir o eco surdo dos seus pensamentos.

 

Poder e Dominação

Vemos que os museus tem Poder, mas cabe entender como este poder pode levar à dominação, a “submissão do indivíduo ou grupo pela entidade”. A grosso modo, segundo Max Weber, há basicamente três formas de dominação: legal, tradicional e carismática. Cabe aos museus escolherem e transitarem, conscientemente, entre estes tipos. Enquanto as duas primeiras dependem de convenções sociais, de práticas estabelecidas entre e com os indivíduos, seja um “contrato social” ou uma tradição ritualística, o carisma é algo fugidio. Palavras como “mística” e “encantamento” (também charme) se aplicam neste caso.

Romper a dominação não quer dizer se opor ao poder. Assim como ser dominado não é a aceitação de todo poder. Como o budista devemos buscar o caminho do meio, mas sem esperar equidistância dos lados da estrada, da vala lamacenta. É não perder o caminho. É dar espaço para ser ultrapassado e ultrapassar. É ajudar os que pudermos pelo caminho; sinalizar para os que venham atrás e saudar os que retornam. Seguir em frente, voltar, tornar a seguir e parar de vez em quando.

Não há destino, mas a prática do caminho.


[i] pesquisador do Museu Casa da Hera (Ibram – Vassouras RJ).

[1] Creio que a melhor medida de tempo para um museu seja o conceito de Geração ao invés do tempo controlado(r) de calendários, embora praticamente todos atualmente estejam submetidos a “ditadura do relógio” (produção e consumo capitalista). Para Espaço seriam os primevos\ “Aqui” e o “Lá”.

[2] Tecnologias, receitas, recursos, instituições, trabalho... tudo isso são Meios que deveriam justificar os Fins (ou Começos).

[3] Pois nada será acervo – entrará num museu – por conta própria.

[4] Mudando o que deve ser mudado.

[5]  Conservando o que deve ser conservado.


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