Dia Internacional dos Museus 2022

Luiz Henrique Assis Garcia [1] 
Míriam Célia Rodrigues Silva [2] 

Visitas em museus voltadas para bebês, curadorias participativas e intervenções extramuros. O que essas práticas têm em comum? Podemos dizer que, dentre outros aspectos, elas são atravessadas pela inversão de lógicas predominantes na sociedade, fundamentadas pelo diálogo com públicos de perfis distintos e marcadas pelo deslocamentode conceitos, posturas e ações institucionais. Paulo Freire (1979) falava de uma educação capaz de transformar a realidade em que o ser humano está inserido, mas essa transformação pressupõe mudanças no sujeito e no próprio processo educativo. As proposições freirianas desconstroem as concepções de um saber unidirecional e abrem caminhos para práticas dialógicas que, no contexto museológico, ganham destaque a partir sistematização de uma museologia social (MOUTINHO, 1993; SILVA,2018).

Com trabalhos que abrem as portas para novos conhecimentos e perspectivas, os espaços museais têm contribuído para desconstrução de estereótipos e pensamentos enraizados na sociedade. Neste processo há também potencial para descoberta de novas metodologias e saberes que corroboram para o desenvolvimento da instituição. O Brooklin Museum tem em sua programação uma visita destinada aos bebês. O Programa Baby Friendly (amigável ao bebê) apresenta a coleção do museu de forma interativa, por meio de músicas e do toque em artefatos. As atividades têm como objetivo propiciar a conexão dos bebês com o espaço e com seus acompanhantes. O museu localizado em Nova York realiza trabalhos que abordam a exclusão e o apagamento dos povos indígenas, confrontando o legado do colonialismo. A coleção do Brooklin Museum é constituída por arte americana, africana, egípcia, asiática e europeia (BROOKLIN MUSEUM, 2021).

Para Marília Cury (2019) a experimentação é uma estratégia que vem sendo adotada frequentemente na contemporaneidade, sendo relevante para desenvolvimento novas propostas museais. A pesquisadora discorreu sobre o trabalho colaborativo entre o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e comunidades indígenas. A ação, que foi denominada “Resistência já! Fortalecimento e uniãodasculturas indígenas – Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena”, consistiu em açõeseducativas e curatoriais para uma exposição temporária. No trabalho colaborativo osprofissionais do museu apresentavam a instituição e o processo curatorial para os indígenas, enquanto que eles inseriram os profissionais na compreensão de suas culturas (CURY,2019).

Cury (2019) destacou a importância do exercício contínuo de aproximação e distanciamento com os grupos indígenas, haja vista que a cautela é uma atitude relevantes para que conhecimentos apreendidos não conduzam os profissionais a se colocarem no lugar de fala dos grupos indígenas ou, ainda que eles venham a interferir na aldeia onde são recebidos. As ações colaborativas devem ser embasadas por interesses comuns, por isso as discussões do projeto devem respeitar as perspectivas dos grupos envolvidos. Após os encontros para discutir sobre as coleções e reuniões em torno dos objetos, os artefatos para exposição foram selecionados, o grupo optou pela utilização da estratégia de autonarrativa, composta por memórias e saberes dos indígenas ecaracterizada pela produção de informações que abarcam outras racionalidades, distintas da ciência moderna. O projeto indicou outras possibilidades para apresentação da coleção da instituição museológica e trouxe reflexões sobre o lugar dominante do museu como curador, lugar que reproduz as características da estrutura colonialista que concentrava as decisões, discursos e narrativas sobre “os outros” nas mãos de grupos com lógica e cultura distintas, sem considerar os conhecimentos dos grupos retratados nas exposições (CURY,2019). Propostas participativas e colaborativas tendem a articular noções de protagonismo, autonomia e compartilhamento, seja de ideias, espaços ou tomada de decisões. É sempre importante ressaltar que se deve evitar uma postura condescendente ou paternalista diante do público, o que no fundo revelaria uma incompletude no reconhecimento do Outro como sujeito. De fato, o profissional da instituição museológica deve desempenhar importante papel como mediador, já que a participação “[...] não substitui a problemática específica da valoração histórica e estética dos bens culturais [...] mas oferece outrossim uma referência – uma fonte de sentido [...]”. (GARCÍA CANCLINI, 1994, p.106).

O conceito de “Museu como processo”, apresentado por Tereza Scheiner (2008), indica a capacidade de transformação dos espaços museológicos ao longo dos anos, bem como traz o indicativo do caráter dinâmico dos museus, a capacidade de apropriação das novas tecnologias e adaptação ao contexto em que está inserido (SCHEINER, 2008). O período da Pandemia do Coronavírus também reafirmou o caráter de resistência dessas instituições. O encerramento das atividades de um número significativo de espaços museológicos e os cortes em orçamentos ocorreram paralelamente ao crescimento de publicações sobre acervo, profissionais da área e debates de temas relacionados ao campo museológico. Entre lives, vídeos institucionais, oficinas online e textos sobre o acervo, os museus promoviam ações para manter o vínculo com seu público e compartilhar ações de preservação e difusão do patrimônio (SILVA,2021).

O contexto pandêmico destacou tanto o potencial da utilização dos ambientes virtuais, como os desafios impostos pelas desigualdades sociais e exclusão digital. Concomitantemente, a retomada das atividades presenciais e da rotina cotidiana de circulação do público traz novamente à berlinda a necessidade de propor atividades participativas que enfatizem o protagonismo do público (GARCIA, 2010;2013) e intervenções museais (GARCIA 2009; 2013) no entorno das instituições, abrindo novos canais através dos quais possam realizar intensamente sua função social (GARCIA, 2020). Compreendendo o espaço digital como extensão do ambiente físico, é relevante promover reflexões, diálogos e reavaliação das práticas instituições para que os museus atuem como espaços formativos, produtores de sentidos e potencializadores de experiências, criando oportunidades diversas de interação e participação do público, através de quaisquer meios que possam dispor para tal.


[1] Doutor em História (UFMG). Professor do curso de graduação em museologia e do PPGCI/UFMG.

[2] Museóloga, mestre em Educação (UEMG) e doutoranda do PPGCI/UFMG.


Referências

  • BROOKLIN MUSEUM. Events. Disponível em: https://www.brooklynmuseum.org/calendar/event/stroller_tour_june_2022/. Acesso em: 20 de mai. 2022.
  • CURY, Marília Xavier. Museologia, comunicação e mediações culturais: curadoria, públicos e participações ativas e efetivas. In: ARAÚJO, Bruno Melo de. Et al. (Org.) Museologia e suas interfaces críticas: museu, sociedade e os patrimônios. Recife: Editora UFPE, 2019.
  • FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. O lugar da História: intervenções museais no espaço urbano em Belo Horizonte. In: Anais da VII Semana dos Museus USP, São Paulo, 2009, p.62-70.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico. Cadernos de Pesquisa do CDHIS (Online), v.23, 2010, p.21 - 37.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Intervenção museal no espaço urbano: história, cultura e cidadania no Parque Lagoa do Nado. História (São Paulo. Online), v. 32, p. 87-104, 2013.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Museus para a Igualdade: experiências de ensino e extensão através da disciplina Função Social dos Museus (ECI/UFMG). Revista Museu (online), 2020. Disponível em: https://www.revistamuseu.com.br/site/br/artigos/18-de-maio/18-maio-2020/8527-museus-para-a-igualdade-experiencias-de-ensino-e-extensao-atraves-da-disciplina-funcao-social-dos-museus-eci-ufmg.html
  • GARCÍA CANCLINI, Nestor. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 23, p. 95-115, 1994.
  • MOUTINHO, Mário. Sobre o conceito de Museologia Social. Cadernos de Museologia, nº1, ULHT,Lisboa, 1993, pp.5-6.
  • SCHEINER, Tereza Cristina. O museu como processo. Caderno de Diretrizes museológicas 2: Medição em museus: curadorias, exposições e ação educativa. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de cultura/ Superintendência de Museus, 2008.
  • SILVA, André Fabrício. Pandemia, museu e virtualidade: a experiência museológica no “novo normal” e a ressignificação museal no ambiente virtual. Anais do Museu Paulista, vol. 29, 2021.
  • SILVA, Míriam Célia Rodrigues. A acessibilidade nos sites dos museus e sua influência na dimensão educativa das instituições: um estudo sob a perspectiva dos visitantes com deficiência visual. 2018. Dissertação (Mestrado em Educação e Formação Humana) – Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.

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