Dia Internacional dos Museus 2022

Juliana Monteiro [i] 

Minha experiência profissional é totalmente voltada para a documentação de acervos museológicos. Não foi uma área que originalmente pensei em seguir, mas a vida é cheia de surpresas e caminhos não lineares e desde 2007 tenho me dedicado a esse fazer, tão característico dos museus. E desde o ano de 2010, tive a oportunidade de levar esse fazer para a sala de aula, no curso técnico de Museologia da ETEC Parque da Juventude, na cidade de São Paulo.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Trabalhei em museus, em órgãos públicos, me lancei como freelancer e agora, atuo em projetos variados. Hoje, meu trabalho de maior vulto é o de acompanhamento de projetos de implantação de softwares de gestão de acervos em museus.

Essa trajetória, que tem algo de inusitada, teve um episódio que mudou radicalmente minha visão: os projetos GLAM [1] Wiki, que têm por objetivo aproximar o universo de instituições de memória do universo Wiki. Tais projetos tem como propósito primeiro fazer com que conteúdos relativos aos acervos culturais possam ser disponibilizados por meio de plataformas como a Wikipédia ou o Wikimedia Commons. A perspectiva do acesso livre, que preconiza a liberação ampla e praticamente irrestrita de dados e recursos/materiais, é a que orienta a execução de projetos dessa natureza.

A mudança que projetos GLAM Wiki pode trazer para o universo particular dos museus é de uma potência a ser considerada. A partir do momento que uma instituição decide abrir seus acervos para o mundo, num universo aberto à colaboração de quaisquer pessoas interessadas, ela abre uma forma de diálogo muito mais direta, livre e intensa. A construção colaborativa de conhecimento por meio da comunidade de editores e editoras da Wikipédia, por exemplo, faz com que um museu possa ter a chance de outras pessoas acrescerem informações sobre objetos e obras sobre seus acervos – algo que, sozinhos, os museus talvez até conseguissem fazer, mas com muito menor alcance mobilização e gastando um tempo maior.

Projetos de disponibilização de acervos como os GLAM Wiki trazem, portanto, uma profunda oportunidade para museus mudarem suas formas de atuação em relação aos processos de produção do saber. Muito tem se discutido sobre a urgência do reposicionamento das instituições museológicas na sociedade atual – o que passa, necessariamente, pela postura que adotam em relação às sociedades nas quais se encontram.

Eu, particularmente, acredito em um museu contemporâneo cada vez mais aberto, democrático, atento às demandas sociais que se colocam na pauta do dia (embora muitas sejam, na realidade, antigas). Museus que acreditam que é fundamental postar dados, imagens, áudios e textos sobre o patrimônio cultural que preservam em espaços como a Wikipédia, sendo esse, talvez, um primeiro passo para ações mais profundas e radicais – no sentido de irem na raiz do problema. Penso que abrir acervos é uma forma possível de adentrar em novos e outros caminhos para suprir lacunas históricas sobre a presença de indígenas, mulheres, negros e negras, pobres, população LGBT+ nos museus. E a forma de fazer isso também é diferente, pois as lacunas podem ser supridas em conjunto com essas mesmas comunidades e suas vozes potentes.

Por isso, é tempo de mudar, é tempo de mudança.


[i] Museóloga graduada pela UFBA. Mestre em Ciência da Informação (ECA-USP). Trabalhou no Museu da Energia de São Paulo e Museu da Imigração. Professora do Curso Técnico em Museologia da ETEC - Parque da Juventude. Consultora para projetos relacionados à gestão da informação em coleções culturais. Coordenadora de projetos OpenGLAM no capítulo brasileiro do Creative Commons. Embaixadora regional para o ciclo 2019-2020 da campanha Art+Feminism.

[1]  GLAM é um acrônimo em inglês, que em uma tradução livre significa Pinacotecas, Bibliotecas, Arquivos e Museus.


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