Dia Internacional dos Museus 2022

Hugo Barreto [1] 

“O Poder dos Museus”, tema escolhido pelo ICOM - Conselho Internacional de Museus para celebrar o Dia Internacional dos Museus este ano, se torna especialmente instigante quando consideramos os desafios do mundo contemporâneo e pós-pandêmico. A reflexão sobre a natureza desse poder é uma questão que me acompanha há algumas décadas, desde que comecei minha trajetória no universo museal, participando da concepção e liderando a criação de alguns novos museus em nosso país.

Quando vivi, por exemplo, o desafio de liderar a concepção e construção do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e, agora, mais recentemente, como um dos curadores da nova exposição permanente, nos guiamos pela premissa de criar possibilidades para que, ao entrar em contato com o patrimônio imaterial da língua exposto no museu, o visitante também pudesse visitar a si mesmo. E, ao se reconhecer, nessa interação, pudesse ele também pensar, imaginar, criar novas formas de conviver e estar no mundo. Da mesma forma, quando coordenei a concepção e implantação do Museu do Amanhã, recorremos a uma imersão em torno do nosso próprio modelo de sociedade, de nossa trajetória civilizacional para provocar reflexões sobre o passado, o presente e, a partir dessa tomada de consciência coletiva, convidar o visitante para cocriar amanhãs possíveis.

Nesse sentido, recorro à ideia de “poder”, como propôs o filósofo francês Michel Foucault, como algo que é sempre relacional, como uma via de mão-dupla que depende da rede de relações tecida entre a instituição museu e os seus diversos públicos para se constituir e se movimentar. Assim, o museu tem poder quando cria espaços para circulação de ideias e novas formas de significar as coisas – inclusive, e quiçá especialmente, aquelas que representam resistência.

Sabemos que museus são, pela soma de memórias, criações e resistências, instrumentos de desenvolvimento e transformação social. No Instituto Cultural Vale, onde hoje atuo buscando contribuir com o propósito de melhorar a vida das pessoas por meio da cultura, é esse o “poder” que perseguimos. Seja nos espaços culturais próprios que mantemos em Belo Horizonte (Memorial Minas Gerais Vale), Espírito Santo (Museu Vale), Maranhão (Centro Cultural Vale Maranhão) e Pará (Casa da Cultura de Canaã dos Carajás), seja nos museus que patrocinamos (Museu Nacional, Museu do Ipiranga, Museu do Pontal, Inhotim, MAR-Museu de Arte do Rio, Museu Boulieu, entre outros), temos buscado nos tornar cada vez mais porosos e dialógicos.

Acreditamos que quanto mais o museu se abre às narrativas que estiveram à margem nos processos de validação e construção histórica, e se permite ser transformado por elas, mais poderoso ele se torna. É esse poder que temos experimentado em iniciativas como a itinerância da 34ª Bienal de São Paulo, que patrocinamos, ao Centro Cultural Vale Maranhão; ou quando levamos o acervo do IHGB-Instituto Histórico Geográfico Brasileiro para o Museu Vale, numa mostra que abre ainda este ano; e no movimento do Memorial Minas Gerais Vale na realização de exposições como “Arte na Maternidade” preparada para a 20ª Semana Nacional de Museus e criada pelo Movimento Arte na Maternidade (MAM).

Vivenciamos esse poder também nas programações que temos ajudado a construir como parte do projeto Museu Nacional Vive, após o trágico incêndio de 2018; ou ainda na exposição “Fruturos Amazônicos”, no Museu do Amanhã, que visibiliza saberes dos povos da Amazônia, e na nova exposição de línguas indígenas do Museu da Língua Portuguesa, programada para ser o evento inaugural da Década Internacional das Línguas Indígenas da Unesco, no Brasil.

É desse poder que depende o presente e o futuro dos museus. 


[1] Diretor de Investimento Social da Vale e Diretor-Presidente do Instituto Cultural Vale.


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