Dia Internacional dos Museus 2022

Fernanda Miranda de Vasconcellos Motta [1] 

Estamos plenamente inseridos na cultura digital. Dispositivos tecnológicos embutidos em todas as coisas propõem funcionalidades, exercem controle, quantificam a vida. Nessa realidade artificial, programada pelo homem, impõe-se a estética do liso que, segundo Han (2019), procura eliminar complexidades, ranhuras, resultados imprevisíveis nos processos. Em resposta a essa lógica linear, buscamos ressignificar nossa relação com a natureza.

Nessa jornada, museus de arte podem se tornar ambientes instigantes, auxiliados por múltiplas ferramentas tecnológicas. É o que argumenta o curador e diretor artístico Marcello Dantas. Ele pontua que a biofilia, termo que designa o desejo do homem de se conectar com a natureza, torna-se um aspecto relevante em projetos museológicos. Estimular uma renovada sensibilidade em relação ao natural, permitindo contaminações com expressões artísticas e tecnológicas diversas, contribui para formar público qualificado. Mais ainda, cidadãos conscientes.

Em outros tempos, de predomínio das mídias eletrônicas, vídeoinstalações como TV Garden (1974), de Nam June Paik, nortearam esse debate. Ao mixar televisores coloridos,veiculando mensagens padronizadas, com plantas tropicais - criando uma espécie de “flora exótica” - o artista fez provocações ao nosso esquema perceptivo, sensorial e cognitivo.

TV Garden (1974, version 2000) | Fonte: American Art Museum (CC BY-NC-ND 2.0)Figura 1 - TV Garden (1974, version 2000)
Fonte: American Art Museum (CC BY-NC-ND 2.0). 

Avançando para o cenário cibernético, Hui (2020) questiona que tipo de conhecimento é capaz de fundamentá-lo. Ele rejeita o mecanicismo reducionista, a visão monocrática do uso da tecnologia, indicando que o organicismo - a compreensão da relação das partes com o todo - e a tecnodiversidade são elementos que devem guiar a construção do conhecimento. Para o autor (2020), a tecnologia é parte do cosmos, uma manifestação deste. Sua adoção deve ser pensada a partir de uma concepção de mundo humanista, plural e evolutiva, voltada à emancipação dos sujeitos e à conservação dos ecossistemas. Hui (2020) argumenta que a noção de tecnodiversidade tem relação com práticas culturais que tornam possível qualquer sistema técnico. Elas se apresentam a priori, e se alinham a uma postura não conformista, às percepções estésicas, a um modo de fruição artística que leva à inquietude, à dúvida, à reformulação de narrativas (MOTTA, 2021). Acontece algo que, como menciona Han (2019), movimenta veementemente o ânimo, desperta as pessoas do anestesiamento, ativa-as para que tomem parte no mundo e reflitam sobre sua relação com a natureza.

O artista Olafur Eliasson tangencia essa noção de tecnodiversidade, explorando contaminações entre arte, natureza e tecnologia. Suas obras envolvem experimentações cientificas e colaborações, incorporando tecnologias como formas de gerar interatividade, provocar incômodos, ampliar percepções. Partindo de elementos naturais como água, ar, espaço, luz, cor, humidade, temperatura, sons, Eliasson cria instalações site-specific, que afetam a relação das pessoas com o mundo, provocando sensações sinestésicas e estésicas. Com The Weather Project (2003), instalado no Tate Modern, em Londres, o artista construiu, com as tecnologias digitais, a ilusão de um sol massivo, perturbador, constante, levando as pessoas, ainda que momentaneamente, a se perceberem como parte de um sistema natural complexo, mutável, ameaçado.

The Weather Project (2003) | Fonte: simiant (CC BY 2.0)Figura 2 - The Weather Project (2003)
Fonte:simiant (CC BY 2.0).

Desse modo, torna-se possível experimentar a programação computacional não como forma de controle e condicionamento, e sim como meio para um necessário acordar das pessoas quanto à condição humana, social, ambiental. As colaborações entre os campos das artes e das ciências, e também com espécies diversas, reforçam a ideia de pertencimento a um sistema maior. O fazer artístico, ao se debruçar sobre fenômenos naturais, leis científicas, ciclos naturais, efeitos das intervenções humanas no meio ambiente, demonstra que não há dissociação entre homem e natureza. A arte e a tecnologia, como criações humanas, produzem contaminações que contribuem para a formação dessa consciência maior.


[1] Doutora em Gestão do Conhecimento PPG-GOC/UFMG. Mestre em Administração. Comunicóloga. Pesquisadora dos temas cultura, comunicação, tecnologia e conhecimento. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


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