Dia Internacional dos Museus 2022

Eliane Marchesini Zanatta [1] 

Neste ano o Conselho Internacional de Museus – ICOM propõe como tema norteador às comemorações do Dia Internacional dos Museus a reflexão intitulada “O Poder dos Museus” [2]. Nada mais sugestivo e desafiador considerando o atual momento político e social em que vivemos, exponencialmente agravado pela crise sanitária mundial que nos assola, para se refletir sobre algumas questões que possam de alguma forma suscitar mudanças num campo tão sensível como o museal.

Essas questões estão inevitavelmente interligadas com a dinâmica relacional estabelecida entre os museus e o seu público, especialmente no tocante às potencialidades que podem ser desempenhadas por esse em meio ao processo de desvalorização que o estrato cultural vem sofrendo nos últimos anos. Mais do que nunca é preciso refletir e buscar ativamente a implementação de novas práticas museológicas capazes de trazer equilíbrio entre o mínimo necessário, balizado pela função social atrelada a toda entidade museal, face aos cerceamentos impostos pelos desafios da atualidade.

Tais considerações, generalizáveis em maior ou menor grau a todos os museus brasileiros, repercute vividamente, no caso do Museu Regional de São João del-Rei, com a carência de recursos financeiros, a falta de recursos humanos especializados e pelo ainda insistente modelo centralizador e intimidador da gestão pública [3] que restringe a autonomia da unidade museal. Contudo, essa realidade não é o nosso alvo determinante, mas sim as práticas que mantém a capacidade dos museus em fomentar a participação ativa da comunidade no exercício pleno da cidadania, colocando-se como instituição que busca formar o sujeito reflexivo diante da sociedade que o acolhe.

Diante do traçado cenário, o objetivo dessa breve reflexão perpassa pela apresentação da experiência do Museu Regional de São João del-Rei tomado como um espaço ímpar de interação social. Direcionamento que é aportado na ênfase de que apesar dos momentos tortuosos atravessados nos últimos tempos, principalmente com o fechamento das dependências físicas do museu em meio a uma série de questões relacionadas com obras de infraestrutura e em virtude da pandemia do covid-19, é possível manter uma conexão responsável com o público destinatário por meio do desenvolvimento de ações cujo direcionamento assentado em novos formatos, propiciados principalmente pelas atuais ferramentas tecnológicas, mantém o fluxo produtor de conhecimento através de conteúdos advindos de fontes confiáveis.

De imediato, não se deixará de mencionar que a referida tentativa de adequação a um cenário negativo somente se mostra possível quando presente uma equipe, ainda que em número reduzido, inteiramente comprometidade servidores e colaboradores resistentes e resilientes. Parafraseando Mário Chagas em sua analogia com Mário de Andrade, tomemos que “há uma gota de sangue em cada museu” [4], especialmente quando atravessamos momentos políticos mais sensíveis em relação ao empenho com o setor cultural. Outrossim, o diálogo com a equipe para enfrentar os desafios contemporâneos deve estar presente a todo momento, sempre que possível cultivando a índole criativa eo reconhecimento pelo esforço e dedicação no desenvolvimento dos projetos e atividades do dia a dia.

Nesse particular clamor por transformação, foram idealizadas, planejadas e executadas pelo Museu Regional de São João del-Rei uma série de ações virtuais, com especial destaque para o I e II Simpósio Virtual do Museu Regional de São João del-Rei, tendo como foco principal o compartilhamento de pesquisas no campo museal e a busca por novas contribuições para o desenvolvimento da área museológica, através da visão de profissionais e instituições legitimados pelo saber acadêmico, bem como, de integrantes da sociedade de forma geral.

Mesmo considerando o conjunto de transformações ocorridas na segunda metade do século XX no campo museal, quando mudanças na conjuntura cultural, econômica, social e política permitiram ampliar as reflexões sobre o campo, certamente discutir sobre museus e museologia, principalmente a ponto derepensar a identidade e alcance de um Museu, ainda é uma ação desafiadora no Brasil. E o desafio foi posto, o “I Simpósio Virtual do Museu Regional de São João del-Rei: identidade e identificação” foi um primeiro pequeno passo para alcançarmos a proposta de ampliar tais discussões e, ao final, definir novas estratégias para o futuro do nosso, tido como “regional”, Museu Regional de São João del-Rei. Nesta edição, foram escolhidas uma série de mesas temáticas caras aos processos de institucionalização, a saber: Patrimônio Cultural e Museus; Museus em Minas Gerais; e Museu Regional: reflexões identitárias.

Convém destacar que o Museu Regional de São João del-Rei não dispõe, ainda hoje, de recursos técnicos e tecnológicos para atender as demandas advindas do mundo virtual, cada servidor e colaborador, com um esforço particular, motivou a incorporação do Museu a esse novo paradigma. Não foi fácil lidar com a escassez de equipamentos e a carência de experiência profissional para gerir os recursos de transmissão disponíveis. Ainda assim, mesmo perante ocorrências deindisponibilidade da rede de internet, causando alguns momentos confusos, o evento se mostrou um verdadeiro marco transformador e um poderoso mecanismo de informação.

Além disso, antes da realização do evento em si, foram produzidas diversas transmissões ao vivo visando introduzir o público nas singularidades do Museu Regional de São João del-Rei através da ótica privilegiada dos servidores e colaboradores que, apesar das dificuldades sistêmicas que recaem sobre os profissionais que atuam nos museus brasileiros, não tiveram qualquer receio de compartilhar um pouco dos seus anseios e angústias afloradas pela rotina no Museu.

O resultado do evento foi promissor, trouxe à luz a possibilidade de reconhecer o Museu Regional de São João del-Rei para além do contexto vivenciado na época da sua criação na década de1950, inaugurando novos caminhos para o direcionamento dos seus processos museais. Em uma breve análise foi possível perceber que o Museu Regional de São João del-Rei é configurado por uma relação dialética entre condições objetivas e subjetivas impostas por aspectos que se apresentam pelas ideologias manifestadas, por um lado, pela cultura erudita sob o olhar acadêmicoe, por outro lado, pela cultura popular partindo de pontos claramente demarcados por profissionais e instituições do campo museológico e pela comunidade acolhida pela região do Campo das Vertentes onde o Museu está inserido.

No ano seguinte, em 2021, o II Simpósio Virtual trabalhou com a Educação Museal no Panorama Atual, abrindo novamente um espaço de discussão e reflexão durante um momento tão desafiador para o segmento das instituições museológicas.Nos mesmos moldes do evento anterior se buscou, de forma democrática com a participação dos mais diversos segmentos da sociedade, refletir sobre as convicções, ideias e conceitos que moldam os entendimentos e as interpretações, obviamente com as suas implicações na construção de um pensamento crítico, na tentativa de compreender o momento em que se encontrava a educação museal.

O estímulo às trocas de experiências entre estratos representativos da sociedade, pesquisadores, estudantes e profissionais de museus, do Brasil e do exterior, proporcionou uma reflexão sobre as necessidades e expectativas no desenvolvimento de projetos e ações capazes de potencializara criação de parcerias envolvendo pesquisa ecooperação técnica.

Concretando que é possível gerar amplo interesse e honrar com a função social que serve como preceito guia para toda e qualquer entidade museológica, ainda que fechada em decorrência das mazelas impostas pela realidade fática, basta mencionar que os resultados quantitativos das citadas iniciativas superaram em muito as expectativas. O I Simpósio teve a participação de aproximadamente 623 usuários e o II Simpósio contou com 762 espectadores, com ouvintes localizados em praticamente todas as regiões brasileiras, bem como, na Argentina, Angola, Estados Unidos, Hong Kong, Índia, Portugal, Suécia e Uruguai. Os referidos eventos contribuíram ainda para alavancar o número de acessos ao website do Museu Regional de São João del-Rei em 60% comparado aos meses anteriores.

Em paralelo, oportunizando o acesso às memórias do evento, outros produtos foram produzidos, como a criação da videoteca, dos Anais dos Simpósios publicados em formato digital e a publicação do livro institucionaldo Museu Regional de São João del-Rei com o registro das posturas legitimadas nas discussões sobre a identidade e identificação da instituição, agregando ainda conhecimentos anteriormente represados com vista a orientar os visitantes, pesquisadores, instituições parceiras e demais interessados nos aspectos relacionados com a trajetória, acervo, natureza educacional e cultural do Museu.

Concluindo estas breves considerações assentadas nas experiências recentes do Museu Regional de São João del-Rei, certo é que, com o devido comprometimento, nada obsta a manutenção de um processo continuado pautado pela capacidade de recepcionar e construir a experiência dos sujeitos, enquanto cidadãos, por intermédio da garantia do acesso aos Museus de forma equitativa e em todas as suas dimensões. É preciso renascer, repensar eintervir para inspirar uma visão autoconfiante do Museu perante a região em que está inserido, somente assim é possível intensificar o seu papel a ponto de inaugurar a oportunidade de conquistar culturalmente o país e ultrapassar as suas fronteiras, agora sem temer a receptividade de um mundo globalizado cada vez mais convidativo ao diálogo. Ao caminhar desta forma os Museus atuam como verdadeiros agentes de transformação social, capazes de entender a relação entre indivíduo e sociedade, ambos também em processo constante de transformação. Aí está o “Poder do Museu”.


[1] Doutora e Mestre em Museologia e Patrimônio pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, Especialista em Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis pelo Istituto per lArte e il Restauro Palazzo Spinelli/Itália, possui graduação em História pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP e Ciências pelo Centro de Ensino Unificado de Brasilía – CEUB. Atualmente ocupa o cargo de Diretora do Museu Regional de São João del-Rei/Instituto Brasileiro de Museus em Minas Gerais.

[2] ICOM, 2022. O poder dos museus. Disponível em: <https://icom.museum/en/our-actions/events/international-museum-day/>. Acesso em: 23abr. 2022.

[3] GUIMARÃES. Fernando Vernalha. O Direito Administrativo do Medo: a crise da ineficiência pelo controle. Disponível em: <http://www.direitodoestado.com.br/colunistas/fernando-vernalha-guimarares/o-direito-administrativo-do-medo-a-crise-da-ineficiencia-pelo-controle>. Acesso em: 26 abr.2022.

[4] CHAGAS, Mário. Há uma gota de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. Chapeco: Argos, 2006.


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