Dia Internacional dos Museus 2022

Inês Gouveia [1] 

Juliana Leite Schiavoni [2] 

Neste ano, o Conselho Internacional de Museus (ICOM) propõe dialogarmos sobre o poder das instituições museais. E, para participar dessa celebração do dia internacional de museus, relacionamos performance e poder, tomando em conta o fechamento do Museu da Diversidade Sexual (MDS), ensejando análises sobre alguns dos aspectos deste ultrajante episódio.

Quem pode o quê?

Como é sabido, o poder tem sido tema de diferentes campos do conhecimento. Trata-se de um debate que nos chega influenciado por escolas de pensamento e intelectuais que creditam maior ou menor importância às ações empreendidas pelos sujeitos, em face da estrutura que, com mais ou menos força, dita suas condições. O poder dos museus, neste sentido, pode ser o de conservar ou o de alterar a forma como as classificações sociais [3] são impostas e performadas, como meio e estratégia de dominação. Também pode ser o poder de se contrapor, buscando alterar a correlação de forças dada. E, como sugere a análise de George Yúdice [4], pode ser o poder de fazer ambas as coisas ao mesmo tempo. Cumpre indagar, neste caso, como o museu exerce o “seu” poder institucional, e como o poder, inclusive na sua microfísica, é exercido por meio do museu. Assim, não se trata de poder, mas de poderes. É, portanto, sob este enfoque que buscamos problematizar quais agentes são autorizados a performar esses poderes. Diante da compreensão do peso da estrutura, mas ciente de que o tempo da ação é o presente [5], em que medida nós (com nossos trabalhos, instituições, reflexões, corpos, vozes…) podemos agir com essa/nessa correlação de forças?

Conforme aquilo que temos argumentado em torno da museologia social, resguardar uma postura analítica, e cientificamente ética, não deve nos impedir de sermos conscientemente agentes em ação. Importa, assim, a ocupação dos espaços, inclusive como atos performáticos, pois é também o que permite a criação de outros repertórios, para além dos recorrentes arquivos/registros expressivos (de uma história única [6]), que enchem as paredes e reservas técnicas museais [7]. Nos termos de Diana Taylor [8], nessas “outras” performances do corpo (que ela chama de “incorporadas”), “outras” práticas culturais que se estabelecem por meio de uma presença diversa – ousaríamos dizer “presenças a contrapelo” – é que conseguimos ver presentificada, política e historicamente, a nossa memória cultural, de fato coletiva, nesses que serão, para ela, “momentos de revisualização”. Dito de outra forma, as performances sistêmicas de poder resguardadas nos museus, para serem reconfiguradas, carecem também dos atos performáticos, que atuam reivindicando outros repertórios.

Ao considerarmos a genealogia do poder das teses foucaultianas, retomada por Judith Butler [9], temos que as relações de poder precisam ser compreendidas nas dimensões simbólicas da linguagem e da cultura, uma vez que se presentificam nas práticas performativas deflagradas nos atos e na estilização dos corpos. Isto ocorre, por exemplo, quando determinado grupo exerce o poder (de escolha e decisão) e define quais museus podem existir, o que podem guardar e expor. Considerar, neste sentido, o poder de um museu é colocar em questão um conjunto de práticas – da ordem do discurso e do corpo – que, na esteira do raciocínio butleriano, são performadas em um sistema estruturado e estruturante, ou seja, que é tanto reprodutor das manifestações já legitimadas (realizadas por agentes também previamente legitimados/as) quanto eixo irradiador daquelas expressões que podem passar a figurar como “autorizadas”.

Museu da Diversidade Sexual - poder, close e lacração

O Museu da Diversidade Sexual é uma instituição pública, criada pelo Decreto n.º 58.075, de 25 de maio de 2012, e atualmente ligada à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Inicialmente instituído como Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual, consolidou-se paulatinamente enquanto museu, assumindo a preservação do patrimônio histórico e cultural da comunidade LGBTQIA+ brasileira, visando assegurar o direito à sua memória e história política, econômica, social e cultural [10]. Seu surgimento e continuidade se devem, em grande medida, ao diálogo com movimentos sociais LGBTQIA+. Em sua sede, localizada na estação República do metrô, o MDS promove o respeito à diversidade sexual, resguardando a dignidade humana e promovendo os direitos civis [11]. A escolha pela estação República decorre do território em questão ser referência histórica para a sociabilidade de pessoas LGBTQIA+, além de um local de resistência contra crimes LGBTQIA+fóbicos que lá ocorreram. [12] Desde a sua abertura, o Museu vem realizando a salvaguarda de acervo, exposições, atividades educativas diversas e ainda uma ativa articulação de lideranças. Trata-se da única instituição pública do país com este propósito; uma possibilidade para o Estado brasileiro exercer seu dever de memória juntamente e a favor de uma população que precisa ter seus direitos afirmativamente assegurados.

No dia 29 de abril de 2022, o MDS foi fechado, em decorrência de uma decisão judicial que incidiu sobre a Organização Social (OS) que faz a gestão da instituição. [13] No dia seguinte seria inaugurada a exposição Duo Drag, que, como as paredes de vidro do museu deixam entrever, reúne imagens de drag queens consagradas da cena paulistana. Ao invés da festa de abertura, o que se passou foi um ato público de protesto e articulação que reuniu ativistas, artistas, parlamentares e demais agentes da área da cultura.

 Fachada do Museu da Diversidade Sexual. Fonte: Juliana Leite Schiavoni.Fachada do Museu da Diversidade Sexual. Fonte: Juliana Leite Schiavoni.

 

Manifestantes em frente ao Museu e o abraço à sede. Fonte: Juliana Leite Schiavoni.Manifestantes em frente ao Museu e o abraço à sede. Fonte: Juliana Leite Schiavoni.

A concentração aconteceu em frente à porta lacrada do Museu, e um dos atos da tarde foi o abraço ao espaço, entrelaçando diversos sujeitos que (em poucas horas) se mobilizaram para reivindicar a abertura do MDS. A sucessão das comunicações públicas no ato foi conduzida por algumas das drags representadas na exposição por ora interrompida. Uma delas, a Tchaka, sintetizou o seguinte:

Nós temos aqui um instrumento (o museu) que foi conquistado a duras penas. Muitas mulheres travestis, muitas mulheres transexuais, muitos homens trans foram assassinadas e assassinados pela sociedade. [...] com todo o poder que nós, LGBTQIA+, temos, a gente pegou e pressionou para que fizesse o Museu da Diversidade Sexual de São Paulo. [...] vem a exposição das drags representando a arte, a resistência, o close, o fervo também é luta [...]. Mas na véspera da abertura, lacra-se tudo [...]. Então por que nós viemos aqui hoje? Primeiro porque eu sou cidadã, porque essa luta é de toda a sociedade, ter um museu fechado, um teatro fechado, um cinema fechado, uma praça fechada, a gente perde a memória, a história, a continuidade de uma população. [...]. Para eu finalizar, é o seguinte: se tentam matar a minha existência, eu serei resistência. [14]

Estamos de acordo com Tchaka quando enfatiza a potência que o MDS pode ter, a partir da comunidade que ele representa. Este poder, evidentemente, precisa estar a favor das pessoas e dos movimentos LGBTQIA+, da integridade de seus corpos e das memórias que comportam. No entanto, até aqui, nesta quinzena de maio, a situação não se alterou significativamente. O Museu segue lacrado. E, ao mesmo tempo, da porta para fora, segue vivo na mobilização, performando sua (re)resistência.

No campo museológico, o fechamento de um museu sem o consentimento da comunidade que o institui pode ser considerado um gesto herético, que contradiz a missão, o princípio e o interesse social desta instituição, que assume a salvaguarda de um bem cultural que é coletivo. Mas, mesmo diante deste princípio, na capital do estado que concentra o maior poder econômico no Brasil e não casualmente o maior número de museus, o Museu lacrado oferece uma infeliz antítese para a noção de preservação. Lacrar suas portas às vésperas da inauguração da exposição atenta (concreta e simbolicamente) contra o clímax de sua performance. Uma afronta!

A consciência da importância desta disputa no presente, no entanto, deve nos animar na resistência pela prevalência de direitos à memória. Em 2014, acompanhamos as ameaças de despejo sofridas pelo Museu da Maré no Rio de Janeiro e, igualmente, as mobilizações que asseguraram não apenas a permanência em sua sede, mas a conquista de novos horizontes institucionais. Diante disso, no entanto, é importante indagar: quais corpos-museus vivem sob essas ameaças?

É válido lembrar que em mais de uma ocasião, em eventos promovidos pelo Museu da Diversidade Sexual, já acompanhamos debates que exprimem a desconfiança de pessoas (lideranças de movimentos sociais e/ou pesquisadores acadêmicos) de que o Estado possa ser um depositário seguro para fontes tão valorosas para a história e memória das lutas e estratégias dos sujeitos e movimentos historicamente perseguidos, inclusive pelo próprio Estado. O museu, nessa medida, pode ser o corpo que performa o poder dos movimentos LGBTQIA+, mas o Estado (da necropolítica [15], usado na defesa de interesses conservadores) também pode se valer dele para reiterar violências.

Os museus de luta seguem vivos em seus gestos de articulação, em suas bases. De nossa parte, esperamos que este capítulo apenas componha a longa história desta instituição que corporifica as violências e resistências que entrecruzam as existências LGBTQIA+. Vida longa ao Museu da Diversidade Sexual!


[1]  Docente no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Doutora em Museologia e Patrimônio, mestra em Memória Social, historiadora. Mulher, cis, lésbica.

[2] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileira do IEB-USP. Mulher, cis, bissexual.

[3] QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENEZES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.

[4] YÚDICE, Georges. A conveniência da cultura na era global. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

[5] SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2010.

[6] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[7] Referimo-nos a reflexões que têm sido desenvolvidas também no âmbito do Instituto de Estudos Brasileiros da USP a respeito de seu acervo e representação social. Trata-se de assunto a ser melhor debatido em outros textos, que pode ser também observado em: GOUVEIA, Inês; FERRO, Izi. João da Goméia – pedrinha miudinha, lajeiro tão grande nos estudos brasileiros. In: GOUVEIA, Inês; MENDES, Andrea; BEZERRA, Nielson; SOUZA, Marlúcia Santos de (org.). Joãosinho da Goméa. São Paulo: IEB-USP/Editora Fino Traço. Coleção Estudos Brasileiros, 2021.

[8] TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Trad. Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: UFMG, 2013.

[9] BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.

[10] SÃO PAULO (Estado). Decreto n.º 58.075, de 25 de maio de 2012. Cria, na Secretaria da Cultura, como equipamento cultural da área de Difusão Cultural, o Centro de Cultura, Memória e Estudos de Diversidade Sexual do Estado de São Paulo e dá providências correlatas. Diário Oficial [do] Estado de São Paulo: seção 1: Executivo, p. 1, 26 maio 2012.

[11] MUSEU DA DIVERSIDADE SEXUAL. Quem somos. Museu da Diversidade Sexual, c2022. Disponível em: https://museudadiversidadesexual.org.br/sobre . Acesso em: 10 maio 2022.

[12] REINAUDO, Franco. A Strange Queer Body: The Museum of Sexual Diversity in São Paulo, Brazil. Museum International, 72:3-4, p. 16-27. DOI: 10.1080/13500775.2020.1873490.

[13] A medida judicial favorável à Ação Popular nº 1078082-34.2021.8.26.0053 suspendeu os efeitos do contrato entre a OS (Instituto Odeon) e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. A decisão questiona a regularidade da contratação, acusação contestada pela OS. A ação que impulsionou a medida judicial foi movida por um deputado identificado com as pautas conservadoras da extrema direita. É importante observar que o modelo de gestão atual, que implica a parceria público-privada, distancia o Estado da ação direta de gestão do Museu e pulveriza o seu dever de memória. Essa pulverização se evidencia agora quando se confunde a defesa do Museu (que precisa ser assegurada pelo Estado) com a defesa da OS (em suas questões de ordem privada). Trata-se de um tema fundamental, que precisará ser debatido em outros momentos.

[14] Fala proferida por Tchaka no dia 30 de abril de 2022 durante o ato público contra o fechamento do MDS.

[15] MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios – Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ, Rio de Janeiro, UFRJ, n. 32, dez. 2016.


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