Dia Internacional dos Museus 2022

Davidson Kaseker [1] 

Neste maio de 2022, celebramos 50 anos da Mesa Redonda de Santiago, organizada no Chile pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) e pela UNESCO, cujo legado se tornaria o marco referencial de uma nova museologia, desencadeando a busca de novos caminhos para os processos de musealização a partir de dois conceitos básicos: o museu como agente de transformação social e o museu integral, que não se limita a quatro paredes para valorizar o patrimônio cultural e a participação comunitária nas diversas instâncias museológicas, impondo-lhes novos métodos de trabalhos.

Em novembro próximo, por sua vez celebraremos os 50 anos da Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural realizada pela ONU em Estocolmo, que despertou a consciência da finitude dos recursos da natureza e da vulnerabilidade dos bens culturais, inaugurando uma trajetória de construção de políticas que miram na sustentabilidade ambiental, econômica e social por meio do reconhecimento e a conservação da diversidade do patrimônio cultural e natural, o acesso justo a ele e a partilha equitativa dos benefícios decorrentes da sua utilização.

A legitimação do patrimônio ambiental e cultural como recurso do desenvolvimento dito sustentável passou a ser reconhecida nos planos internacional, nacional e local a partir da Cúpula da Terra, sediada pelo Rio de Janeiro em 1992. Por meio de suas resoluções e dos desdobramentos da Agenda 21, consolidou-se o conceito de desenvolvimento sustentável como a promoção simultânea e equilibrada da proteção ambiental, da inclusão social e do crescimento econômico.

Esses três mo(vi)mentos em conexão, por consequência, impactariam significativa e crescentemente a missão dos museus nas décadas posteriores. O cuidado, a preservação e a comunicação do patrimônio permanecem sendo sua função central. Cada vez mais, todavia, os museus reconhecem-se como agentes de mudança social e de desenvolvimento cultural e econômico, ao mesmo tempo em que lidam com áreas diversas e desafiadoras, como globalização, migração, polarização, desigualdade, populismo, igualdade de gênero, envelhecimento das sociedades, descolonização e mudanças climáticas.

Neste diapasão, as demandas de memória levadas a efeito pela sociedade civil incitam os museus latino-americanos a uma trajetória de desvelamento de conflitos sociais e desmandos ditatoriais de regimes repressores, alinhando-se, ainda que em situações vulneráveis do ponto de vista da sustentabilidade financeira, aos esforços pela visibilização de memórias negligenciadas e pela luta por justiça social. A par de importantes avanços da sociedade, ainda que por vezes conquistados muito lentamente, e a despeito de preocupantes retrocessos institucionais, os museus se veem desafiados contemporaneamente a buscarem o engajamento na transformação da realidade em que estão inseridos como estruturas sociais sistêmicas.

Para delinear o que seriam pressupostos e diretrizes sistêmicas de uma gestão museológica sustentável, preliminarmente importa assinalar que a adoção de uma visão sistêmica da sustentabilidade deve considerar que suas dimensões social, cultural, econômica e ambiental se interseccionam transversalmente e se tornam indissociáveis das práxis museológicas, o que implica não apenas as dimensões objetivas, mas também subjetivas de suas atividades.

Com efeito, na busca da sustentabilidade, a gestão e o perfil dos projetos e programas museológicos com capacidade de implementar ações técnicas renovadas, destaca Bruno (2005, p. 1), nos leva a refletir sobre o ambiente a partir do qual nos formamos como profissionais e o ambiente que construímos e preservamos no nosso cotidiano de trabalho, em adição ao que Waldisa Russio aclamara na ação museológica “como uma possibilidade de crescimento e aprofundamento da consciência, uma consciência crítica e histórica” (BRUNO, 2010, p. 242) e o museólogo como um trabalhador social.

Do ponto de vista da gestão museológica, mais ainda é impensável que os processos decisórios possam abdicar de uma abordagem sistêmica. Além do perfil de seu quadro profissional, a natureza do acervo, seja ele tangível ou intangível, a vinculação institucional, o tipo de financiamento, o lugar e as especificidades do espaço ocupado pelo museu, bem como a realidade sociocultural e política em que se insere a instituição, são elementos heterogêneos e não raras vezes díspares, que se interconectam entre si, em correspondência com o porte e a vocação do museu.

A quebra de paradigmas tradicionais de gestão verticalizada, como os mecanismos de tomada de decisão topdown, destarte configura-se inexorável numa gestão museológica sustentável, em reconhecimento ao protagonismo de seus distintos atores (stakeholders), internos e externos, cujo exercício se ampara numa visão integradora capaz de mobilizar o reequacionamento da estrutura organizacional do museu, dos seus processos organizacionais, dos recursos utilizados e, enfim, da própria cultura organizacional.

O compromisso da gestão museológica com os princípios do desenvolvimento sustentável, portanto, requer uma mudança de paradigmas atitudinais dos gestores e dos colaboradores do museu, bem como de procedimentos internos da área-meio e, de modo mais amplo, das políticas culturais desenvolvidas pela área-fim.

Discurso e prática têm de caminhar lado a lado. Do contrário, a fossilização tomará conta da gestão. Para Morin, “a única maneira de lutar contra a degenerescência está na regeneração permanente, melhor dizendo, na atitude do conjunto da organização a se regenerar e a se reorganizar fazendo frente a todos os processos de desintegração” (MORIN, 2015, p. 89).

Em suma, na raiz da gestão museológica sustentável situa-se uma mudança de paradigma cultural (mindset), como resposta à necessidade cada vez mais urgente de enfrentar os riscos e incertezas da realidade a partir do compromisso de se manter sistemicamente íntegro, socialmente integrado e plenamente integral, valorizando o fazer museal como um todo que é maior do que a soma de suas partes.


[1] Davidson Kaseker é mestre em Museologia (USP), especialista em Políticas Públicas (Universidade de Girona/Itaú Cultural) e em Gestão Estratégica da Sustentabilidade (FIA). Membro do ICOM e da ABREMC, desde fevereiro de 2022 responde pela gerência do Museu das Culturas Indígenas.


Referências bibliográficas

  • BRUNO, M. C. O. (2005) – Programas, projetos, problemas museológicos. In: Encontros Museológicos, 2005, Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Anais [...]. São Paulo: [s. n.].
  • BRUNO, M. C. O. (Coord.) (2010)- Waldisa Rússio Camargo Guarnieri - textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado: Secretaria de Estado da Cultura: Comitê Brasileiro do ICOM, v. 2. 499p.
  • MORIN, Edgard (2015) – Introdução ao pensamento complexo. Trad. Eliane Lisboa, 5ª ed. Porto Alegre, RS: Sulina, 120 p.

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