Dia Internacional dos Museus 2022

Átila B. Tolentino [1] 

A relação entre museus e poder, ou como o Icom preferiu atribuir: “O poder dos museus”, é uma preocupação a que tenho me dedicado nas minhas pesquisas [2] e na minha atuação no campo museal. Trago essa inquietação sobretudo pela influência do professor, poeta e museólogo Mário Chagas, que aprofunda a reflexão acerca do museu não apenas como um espaço de memória, mas essencialmente como espaço de poder, reflexo dos distintos atores sociais que o constroem e reconstroem e das disputas e conflitos inerentes à conformação de memórias coletivas.

Neste pequeno e corrido texto, procuro esboçar três aspectos do poder, melhor dizendo, dos poderes dos museus. Não é demais ressaltar que o poder dos museus não se esgota nesses aspectos, mas que outros olhares e perspectivas são infinitamente possíveis, a partir de outras leituras e práticas museais. Além disso, esses poderes se entrelaçam e se emaranham, um dando suporte, liga e força aos demais.

1. O poder enquanto signo

No meio da produção incessante de Mário Chagas, destaco a obra “A imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro” [3], onde faz uma abordagem interconectando o campo da museologia com o campo das ciências sociais a partir desses três intelectuais, que se dedicaram a pensar a sociedade brasileira e também a criar museus. Explica que o recorte utilizado sugere a existência de diferentes matrizes da imaginação museal, nascidas, crescidas e desenvolvidas num terreno adubado pelas relações entre o poder e a memória, que estão espelhadas nas práticas e teorias da museologia contemporânea.

Ao compreender os museus como “microcosmos sociais”, Chagas reconhece os múltiplos significados que os objetos museais podem ter e, por conseguinte, como podem ser utilizados para construir diferentes discursos representativos das memórias e identidades dos grupos sociais. É nessa perspectiva que ele procura “olhar não apenas para o litoral dos museus, ou seja, para a sua bela face de contato com o público, mas também para o seu sertão, para as correntes de forças e ideias que se movimentam em seus intestinos”.

Portanto, olhar os museus a partir do sertão é compreendê-los de forma crítica, é analisar como os sujeitos sociais estão ali representados e verificar de que forma os discursos museológicos foram construídos e como estão sendo apropriados pelos diferentes públicos do museu. É buscar compreender como o objeto museológico, enquanto signo significante, é carregado de ideologias e que as narrativas neles refletidas são resultados de processos sociais que envolvem disputas entre o que é digno de ser lembrado e o que está fadado ao esquecimento. Construir uma memória coletiva de determinados grupos sociais também é construir um discurso e implica considerar que ela é resultado de práticas sociais e da relação entre os indivíduos, em que estão inerentes conflitos e disputas de poder.

As narrativas museológicas não são compostas apenas da junção ou aglomeração de objetos distintos entre si ou de regras expográficas padronizadas e previamente determinadas e neutras. Como um texto, os circuitos expositivos dos museus constituem uma unidade de sentido significativa, que buscam comunicar-se com o seu público. Desta forma, não pode ser desconsiderado o poder de que se revestem os museus e os objetos museológicos, assumidos como signos significantes, que, por um lado, podem contribuir para a manutenção e perpetuação de um status social opressor, ao constituir discursos homogeneizantes, mas que, de forma oposta, também tem o potencial de produzir discursos reflexivos e críticos, que não concebem o indivíduo como um sujeito passivo, mas um sujeito social que age e transforma a realidade.

2. O poder da memória e do esquecimento

Uma alegoria já bastante conhecida que reflete a relação entre os museus e o poder é a explicação para o surgimento do seu termo. Relata-se que o vocábulo museu vem da palavra mouseiom, que era o templo das musas, na Grécia antiga. As nove musas, protetoras das artes e da História, eram filhas de Zeus, deus supremo e todo poderoso, e de Mnemosine, deusa da memória ou das reminiscências. Portanto, mouseiom era o templo ou herdeiro da memória e do poder.

Como lócus privilegiados de poder, os museus também estiveram associados a espaços elitizados e opressores. Assim concebidos, contribuíram para processos de exclusão social na conformação de identidades coletivas aparentemente coesas, mas que, na verdade, não contemplam a diversidade cultural dos diferentes grupos formadores da sociedade. O museu, ao mesmo tempo que se configura como um lugar de preservação de memórias coletivas e, portanto, de conformação de identidades, institucionaliza também esquecimentos presentes nas lacunas, nos não-ditos, nos interditos, nos vazios e nos silenciamentos de suas narrativas. É o “esquecimento aniquilador” [4], que, paradoxalmente, detém um significado, pois tudo no museu, como vimos, são signos significantes, até mesmo as ausências.

O que deve ser lembrado e necessariamente o que precisa ser esquecido sempre irão permear os processos de constituição das memórias e identidades coletivas e de suas representações, sobretudo na instituição museu, lócus por excelência dos suportes de memórias e da institucionalização de esquecimentos. Os conflitos, disputas e a formatação ideológico-política da construção das narrativas dessas representações são aspectos essenciais a serem levados em consideração no jogo social de conformação de memórias coletivas.

3. O poder de politização das memórias

Essas reflexões nos conduzem à constatação de que a conformação de memórias coletivas é resultado de um jogo social, carregado de disputas e conflitos, na busca da construção de signos significantes que envolvem a seleção entre a lembrança e o esquecimento e, por extensão, entre o ato de empoderar ou subjugar. Já repeti em outros lugares que ninguém cria museu sem desejo de poder, pois onde há memória necessariamente há poder [5]. São faces constituintes de uma mesma moeda que politizam identidades culturais, que podem servir para a subjugação ou emancipação dos indivíduos.

Nessa encruzilhada entre a subjugação e a emancipação de indivíduos e, por extensão, de suas formas de ser e estar no mundo, me interessa, sobremaneira, como o museu, enquanto lócus de poder, tem servido para o empoderamento de diferentes grupos sociais, sobretudo daqueles historicamente subalternizados. Seguindo os ecos da museologia social, que se insurgiu a partir dos anos 1960, tomando corpo e força a partir dos anos 1970 e 1980 na América Latina, os museus de base comunitária, com sua rica diversidade, tipologias e formas de atuação, são exemplos de contraposição a uma museologia conservadora, colonizadora, opressora e elitista. Primam pelo princípio de que o museu deve estar a serviço da comunidade onde está inserido e do desenvolvimento socioeconômico local. Além disso, a gestão do museu e os processos de musealização devem ter a participação efetiva, ativa e afetiva da comunidade detentora do patrimônio cultural e dos atores locais, compreendendo-os como sujeitos históricos.

Justamente por isso diferentes grupos sociais historicamente estigmatizados emergiram no campo dos museus e se apropriaram desse instrumento como um importante mecanismo de empoderamento de suas identidades culturais e como arma política de suas pautas sociais. Dito de outra forma, os processos de musealização, nesse contexto, são resultado de um jogo social onde a conformação de memórias coletivas é politizada, ou seja, são atreladas às demandas e lutas sociais de grupos subalternizados, mas insurgentes.

A partir do poder dos museus, esses grupos buscam a valorização de suas identidades e referências culturais, e o utilizam como arma política e estética contra as opressões e injustiças sociais por que passam nos territórios onde vivem. É a apropriação de uma instituição forjada e concebida para as elites político-econômicas para a afirmação e legitimação de valores de grupos subalternizados, nas fissuras possíveis dentro das relações de poder e disputas que permeiam a conformação das memórias coletivas pelos museus.


[1]  Graduado em Letras e especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura pela Universidade de Brasília. Mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba.É da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Ministério da Economia. Membro da Rede de Educadores em Museus da Paraíba-REM/PB. Pesquisador na Rede de Pesquisa e (In)Formação em Museologia, Memória e Patrimônio (REDMus), da UFPB, e no Grupo de Pesquisa Museologias Insurgentes en Nuestra América - MINA, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

[2] Muito do que aqui é explanado, por exemplo, baseia-se na minha pesquisa de mestrado publicada pela editora da UFPB, com o título “Espaços que suscitam sonhos: Narrativas de memórias e identidades no Museu Comunitário Vivo Olho do Tempo” (2017).

[3] CHAGAS, Mario de Souza. A imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Rio de Janeiro: MinC/Ibram, 2009.

[4] BERGER, Peter L. Perspectivas sociológicas: uma visão humanista. Petrópolis: Vozes, 2014.

[5] Inclusive aqui na Revista Museu, no texto que escrevi por conta do Dia Internacional dos Museus em 2017, que trouxe como tema “Museus e histórias controversas: dizer o indizível nos museus”, disponível em https://www.revistamuseu.com.br/site/br/artigos/18-de-maio/18-maio-2017/2798-os-museus-e-as-vozes-das-memorias-de-resistencia.html. 


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