Adilson Portugal Rachid [1]

No século XX, havia um glamour muito grande em torno do Mercado de Arte. Eram profissionais gabaritados, precisos e que fundamentalmente passavam confiança ao cliente. Da mesma forma, o acesso a este tipo de mercado se reservava aos mais abastados.

Pouco a pouco as gerações de leiloeiros sofreram mudanças, assim como as de marchands e, porque não dizer, a própria percepção da sociedade (proprietários, admiradores e clientes) com relação às antiguidades.

Com o advento da internet, ocorreu a derrubada de barreiras físicas e uma infinita socialização do conhecimento, passando-se a uma realidade que funcionou como um verdadeiro divisor de águas no mundo das artes no Brasil.

Já não havia névoa da informação e menos ainda o misticismo típico do mercado, que se fazia até mesmo em prol da valorização da profissão, apresentando-se diluído nesse novo cenário. Bastava que a pessoa acessasse a maior base de dados do mundo – o Google - e a pesquisa por diversas vezes já estava feita.

Caía por terra o tempo das discussões entre o avaliador e o proprietário que, de antemão, analisava o histórico do seu objeto ou quadro, partindo para o embate financeiro.

Entretanto, nem tudo está no Google, já que não há o perspicaz olhar humano, o feeling do mercado. O maior repositório de dados do mundo não “sente” as intempéries da sociedade, não valoriza ou liquida com um artista, apenas o apresenta. Todavia, este mesmo Google oferece um comparativo de valores de últimos e lances recentes provenientes dos leilões de arte nos valores propostos em vernissages.

Então, porque ainda não se tem uma série de pessoas exercendo esta profissão? Eis a questão atual: há!

Na década de 1980, havia boas casas de leilão no Rio de Janeiro. Ao puxar a corda, contava-se com cerca de dez casas de qualidade. Ser leiloeiro significava ter fé pública. Eram casas confiáveis, em que o leiloeiro avalizava a venda.

Após a adaptação do mundo virtual aos leilões, por volta dos anos 2000, a situação do mercado mudou de tamanha forma que há, atualmente, uma média de trinta leilões por dia, levando-se em conta apenas os realizados no Rio de Janeiro, sendo que, apesar da proliferação de inúmeros leiloeiros, há inclusive alguns com problemas na justiça.

E o cliente/colecionador, como fica neste contexto? Completamente perdido.

Não existe uma regulamentação realmente efetiva, um órgão que fiscalize com mais agilidade a atividade dos leiloeiros. A Junta Comercial é incapaz de administrar o volume de pedidos. Amordaçado pela falta de funcionários, mesmo com avidez em fiscalizar, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN formalizou, em 2017, o Cadastro Nacional de Negociantes de Obras de Arte e Antiguidades (Cnart) [2] para fins de registro de profissionais e objetos comercializados, visando o desenvolvimento de uma política de prevenção à lavagem de dinheiro. Isso tudo em função de operações duvidosas envolvendo a aquisição de coleções de arte, a exemplo do ocorrido com a Lava Jato. Por sua vez, outros órgãos, como a Receita Federal, se apresentam pouco eficazes com relação às atividades do mercado de arte, e a “festa” se faz ainda mais perigosa com a quantidade avassaladora de falsificadores de obras de arte que vem atuando na área.

Ou seja, é preciso que, de alguma forma, se moralize este mercado.

Atualmente, qualquer pessoa se cadastra nas plataformas de leilão particulares, paga uma franquia e está apta a organizar e promover leilões de arte, joias e toda sorte de objetos. Entretanto, com que cabedal, expertise ou know how? Pode-se dizer que com muito pouco, ou ainda pior, com nenhum conhecimento de causa.

Para se candidatar a leiloeiro, basta estar com a ficha limpa, pagar a taxa na Junta Comercial e, pronto, torna-se, assim, um leiloeiro. Desta forma, reporto-me novamente ao mesmo rol de perguntas: com que cabedal, expertise ou know how? Aos futuros compradores e interessados, cabe lembrar que todo cuidado é pouco para não se aventurar em “mares turbulentos”, e acabar com um pé de cabra na mão ao invés de uma obra genuína de Di Cavalcanti.

Prefiro acreditar que a tão conectada sociedade já está aos poucos separando “o joio do trigo” e espero que, aos poucos, estas casas de leilões e estes tipos de profissionais duvidosos sejam gradativamente banidos do Mercado de Arte. Esse mercado, que sempre demonstrou ser uma fonte inesgotável de objetos raros, históricos e instigantes e, por muitas vezes, dignos de coleções de museus.

 


[1] Adilson Portugal Rachid é graduado em Museologia pela UniRio desde 1997 e atua no mercado de obras de arte há mais de 30 anos. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[2] Dados sobre o Cadastro Nacional de Negociantes de Obras de Arte e Antiguidades podem ser acessados por meio do site http://portal.iphan.gov.br/cnart.

 

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