Hilton P. Silva [1] Hilton Pereira da Silva

A Mata Atlântica, que no passado dominou as paisagens ao longo da costa oriental brasileira, constituí-se em um dos maiores centros de biodiversidade do globo. Tamanha diversidade (tão grande que muitos chamam de “Mega-diversidade”), no entanto, se restringe hoje a um conjunto de manchas que não somam 5% da cobertura que na época do descobrimento se estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul (LEITÃO FILHO, 1993). Apesar das agressões ambientais contínuas, a Mata Atlântica ainda é considerada no seu conjunto como um dos principais hotspots de biodiversidade no mundo, dada sua riqueza de espécies e endemismos (MITTERMEIER ET AL., 1998). Além disso, apesar de reduzida e muito fragmentada, a Mata Atlântica continua a exercer um importante papel social e ambiental, pois os seus remanescentes florestais regulam o fluxo dos mananciais aquáticos, asseguram a fertilidade do solo, controlam o clima regional e protegem as encostas das serras da erosão e dos desmoronamentos, sendo fundamental para a qualidade de vida de cerca de 70% população brasileira (MMA, 2000).

Biodiversidade, a combinação de diversidade de espécies, genéticas e ecológicas (WORLD CONSERVATION MONITORING CENTRE, 1992), é atualmente um dos temas mais freqüentemente veiculados e debatidos tanto nos meios de comunicação científica como de massa. As vegetações tropicais chuvosas, que são o principal centro de biodiversidade da Terra, formam o palco para inúmeros debates científicos e políticos sobre teoria ecológica e políticas de conservação (ver PERES, 1994). Como produto desses debates, inicia-se a reflexão da importância da adoção de projetos de desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental, que integrem o conhecimento científico às necessidades sociais, para tornar possível a conservação dos recursos naturais das florestas do mundo, ao mesmo tempo que contribuam para melhorar a qualidade de vida das populações que moram próximas dessas áreas.

Infelizmente, enquanto os debates são travados, as vegetações tropicais experimentam um processo de degradação sem precedentes, que tem suas origens nos processos históricos da forma de sua ocupação, e nos processos de produção econômica vigente (ANDERSON, 1990; LEITÃO FILHO, 1993). Uma das piores conseqüências possíveis desta degradação é a perda de diversidade biológica e seus efeitos a curto e longo prazo, que também têm sido extensamente explorados na literatura (ver revisão em WORLD CONSERVATION MONITORING CENTRE, 1992).

Diante da acelerada taxa de devastação da Mata Atlântica, são muitas as espécies que desapareceram antes de serem conhecidas, com a perda de um vasto patrimônio genético e consequências incalculáveis para as populações locais. Em adição, a perspectiva de que rápidas alterações climáticas em curso poderão implicar em diversas conseqüências ambientais e evolutivas (HOLT, 1990; PARSONS, 1990), torna-se ainda mais urgente a necessidade ampliar o conhecimento sobre as inter-relações entre as espécies e seu meio ambiente, e como o ser humano se enquadra nesta equação.

Encravada no coração do Espírito Santo, a Estação Biológica de Santa Lúcia (EBSL), no município de Santa Teresa, tem cerca de 440 hectares e é co-gerida por duas instituições federais (o Museu Nacional/UFRJ e o Instituto Nacional da Mata Atlântica) e uma instituição privada (a Sociedade de Amigos do Museu Nacional). Sua origem data de 1939 estando vinculada aos trabalhos do naturalista Augusto Ruschi, que era servidor do Museu Nacional/UFRJ, nativo do Espírito Santo e pesquisou e publicou intensamente sobre a região (RUSCHI-FILHO, 1972; FORMIGONI & SILVA, 2013). A área se destaca como um exemplo de trabalho conjunto entre o setor público e o privado pela preservação da natureza e respeito aos valores históricos locais. Após a morte de Ruschi, em 1986, a EBSL passou por um processo de reoganização visando ampliar a gama de projetos e programas iniciados durante o sua gestão e, ao mesmo tempo, iniciar um contato maior com as comunidades do entorno da reserva e com os órgãos e instituições locais, possibilitando a continuidade do sonho ecológico do seu criador, ao mesmo tempo em que permitiu à Estação um futuro viável e plenamente integrado à realidade municipal.

Além de extraordinária biodiversidade, a EBSL, em parceria com o Museu de Biologia Mello Leitão/INMA e o Museu Nacional (que compartilham importantes coleções botânicas e zoológicas oriundas da área da reserva), tem tido importante papel no ensino e na pesquisa sobre a Mata Atlântica, já que é uma das pouquíssimas áreas no estado que oferece, in situ, infraestrutura de alojamento e laboratório para estas atividades. Na EBSL há uma estação pluviométrica do DNAEE, cujas primeiras amostras datam de junho e julho de 1907 e que tem sido monitorada sistematicamente desde abril de 1956 (RELATÓRIO ADMINISTRATIVO II, 2001) sendo um registro fundamental para as análises ambientais do Estado. Estudos com a flora arbórea, aves, mamíferos e lepidópteros indicam a presença de alta riqueza biológica nessa região, mesmo em comparação com outras áreas de Mata Atlântica (MENDES & PADOVAN, 2000). Em anos recentes, uma série de pesquisas de várias instituições Brasileiras têm sido realizadas na EBSL, inclusive um projeto interdisciplinar pioneiro visando conhecer mais sobre a situação sócio-ecológica das populações humanas que habitam o entorno desta e outras áreas protegidas da região, e quais as suas percepções sobre estas áreas (SILVA et al. 2006; 2010).

No Espírito Santo, cerca de 87% da área do Estado era coberta originalmente por florestas nativas que impressionaram os naturalistas do Século XIX (WIED, 1820; SAINT-HILAIRE, 1974). Apesar do estado ter perdido mais de 90% de seus ecossistemas originais, ele ainda possui muitas unidades de conservação se comparado com a maioria dos estados brasileiros (FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA & INPE, 1998). São seis unidades de conservação federais e 10 estaduais enquadradas na categoria de “Unidades de Proteção Integral”, além de mais de 20 unidades de diferentes naturezas (MENDES & PADOVAN, 2000). No entanto, a maioria dos remanescentes florestais do estado está restrito a pequenos fragmentos, isolados uns dos outros por vastas áreas de pastagens, e plantações ou eucaliptais, sujeitos a uma série de fatores perturbadores “externos”, como queimadas, efeitos de borda, e caça ilegal (CHIARELLO, 1999). Neste contexto, a EBSL se destaca pelo potencial de ligação que tem com outras áreas protegidas do Município de Santa Teresa, formando um verdadeiro “corredor” vivo, que poderá contribuir significativamente para a preservação da biodiversidade da Mata Atlântica no ES.

Muitos dos projetos ora em andamento na EBSL irão possibilitar a expansão do conhecimento biológico e sócio-ecológico das populações de plantas, animais e seres humanos que compõem este patrimônio da humanidade. Os resultados desses estudos são de importância considerável para a elaboração de medidas de proteção da Mata Atlântica e outras regiões do Brasil. Os estudos também têm sido intensamente utilizados pelos pesquisadores para a montagem de exposições e acervos didáticos nas diversas instituições envolvidas. Além disso, o conhecimento de aspectos sócio-ecológicos e biológicos dos grupos animais, vegetais e humanos da Mata Atlântica, bem como o aumento da integração e cooperação acadêmico-científica entre diversas disciplinas e instituições que trabalham com questões ambientais e sociais na região, dão suporte a um arcabouço que possibilitará a formação de muitos estudantes e a melhoria nas relações entre os moradores locais e as agências responsáveis pelas áreas protegidas.

Correntemente observa-se que há uma quase total carência de interações dinâmicas positivas entre as instituições encarregadas de proteção ambiental e as populações que vivem dentro ou ao redor das áreas protegidas. Frequentemente há situações de conflito onde tanto a população quanto o meio ambiente sofrem danos, muitas vezes irreparáveis. Por isso faz-se necessário conhecer profundamente os grupos locais e suas relações com as áreas protegidas para que as relações antagônicas ora existentes possam ser substituídas por relações de parceria visando a preservação ambiental (SILVA, 2002). Como os órgãos gestores da EBSL tem se empenhado para que os resultados dos projetos tenham a mais ampla divulgação possível entre as comunidades locais, prefeituras, órgãos federais e estaduais de controle ambiental, e instituições de pesquisa, todos terão, pela primeira vez, em pé de igualdade, melhores condições de discutir e planejar programas que visem associar a preservação ambiental, a qualidade de vida das populações, a educação patrimonial e o desenvolvimento sustentável.

Apesar de seu pequeno tamanho físico, e sua tenra idade, a EBSL, através de uma gestão compartilhada e participativa começa a mostrar que é possível aliar preservação ambiental com respeito histórico e intenso trabalho de investigação científica, gerando resultados que, espera-se, venham a influenciar e beneficiar outras áreas de Mata Atlântica pelo Brasil afora.


[1] Prof. Dr. Hilton P. Silva, Médico, Biólogo e Antropólogo, foi docente do Museu Nacional/UFRJ e atualmente está vinculado á Universidade Federal do Pará – UFPA, Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA & Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Sociedade na Amazônia - PPGSAS, onde coordena o Laboratório de Estudos Bioantropológicos em Saúde e Meio Ambiente (LEBIOS), no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH, Campus Universitário do Guamá, Belém, Pará. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Bibliografia

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  • FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA & INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Instituto Socioambiental. 1998. Atlas da evolução dos remanescentes florestais e ecossistemas associados no domínio da Mata Atlântica no período 1990-1995. São Paulo.
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  • MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE (MMA). 2000. Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica e Campos Sulinos. Brasília, DF.
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