Márcio Couto Henrique [1] Márcio Couto Henrique

Em artigo publicado na revista museu em 2003, Pedro Paulo de Abreu Funari refletia sobre “O museu e os desafios do profissional de museu”, apontando a necessidade de “transformar os consumidores de conhecimento em produtores” como uma tarefa central do trabalho didático do Museu Ativo. Farei aqui uma breve reflexão sobre a maneira como os consumidores de conhecimento no Museu/Arquivo Histórico da Santa Casa de Misericórdia do Pará (MAHSC) exercem esta condição de participantes ativos, evidenciando uma excelente oportunidade ao museólogo no sentido de aprender com os outros.

Inaugurado em 1987, atualmente o MAHSC conta com um acervo bastante eclético, formado por 15 coleções e tem como principal objetivo preservar a memória da atividade médica e filantrópica da Santa Casa de Misericórdia do Pará, fundada em 1650 (Bordalo & Aguiar, 1990). O museu está situado dentro do hospital, de frente para a cozinha e próximo à Enfermaria São Francisco, destinada à pediatria. Os quatro grandes janelões e mais a porta envidraçada dão ampla visibilidade ao acervo, fazendo com que muitos pacientes, acompanhantes, visitantes, funcionários ou médicos entrem no Museu. Outros tantos ficam à espreita encostados nas vidraças, optando por não entrar.

Corredor de acesso ao MAHSC. Foto: Márcio C. HenriqueCorredor de acesso ao MAHSC. Foto: Márcio C. Henrique.

Em primeiro lugar, é muito comum as pessoas fazerem várias visitas ao MAHSC. Geralmente, acompanhantes de pessoas internadas no hospital visitam o acervo sozinhas e depois voltam trazendo algum parente, amigo ou a própria pessoa que está internada. Assim aconteceu com uma das várias crianças escalpeladas que fazem tratamento no hospital, visitando pela primeira vez o MAHSC com uma fisioterapeuta e retornando no dia seguinte com outra criança escalpelada, ambas sorridentes, apesar do trauma que o lenço amarrado à cabeça mal conseguia esconder. Um garotinho de dois anos, internado com problemas nos rins, não faltou um dia sequer ao longo de uma semana. De segunda a quinta-feira estava acompanhado do pai. Na sexta-feira levou a mãe, que disse que o garoto havia estado lá mais cedo e, que ele havia chorado ao se deparar com a porta do museu fechada.

epois de uma semana de interação com o espaço do museu, o menino repassava carinhosamente as lições à mãe: “Olha o telefone, mamãe! Não pode mexer!!”. “Olha a cadeira, mãe! Bonitona!”. Esta situação reforça a importância do museu enquanto espaço de educação patrimonial, além do caráter lúdico propiciado às crianças e adultos num momento de infortúnio. Conforme Funari, “nessa diversidade da comunidade, destaque-se o público infantil, tanto por se tratar dos futuros cidadãos, como pela necessidade de tomar-se em conta o caráter lúdico a ser adotado pelo museu”. Muitos pacientes/visitantes, envolvidos pelo clima nostálgico do Museu, falam de suas doenças ou das doenças dos parentes e/ou amigos internados no hospital, da saudade da família. Alguns, como os escalpelados, chegam a ficar internados por mais de seis meses.

Para muitos visitantes o acervo do MAHSC está associado ao imaginário das visagens e assombrações. Duas jovens narraram que andando pelo corredor da Santa Casa, à noite, ao olharem para as imagens da coleção sacra, saíram correndo com medo. Outros relatam que já viram visagem de mulheres segurando bebês no colo, que desaparecem subitamente. Vários visitantes me perguntam se não tenho medo de trabalhar no Museu ou se já vi alguma visagem. Um jovem médico, ao se deparar com a imagem de Maria Bambina, afirmou: “essa aqui dá medo!”. É comum também se ver pessoas fazendo o sinal da cruz ao passarem pelo corredor e visualizarem as imagens de santos do acervo, seja por confundirem o espaço com um local de oração ou uma capela, seja pela estranheza inicial de se deparar com um museu dentro do hospital. Alguns visitantes só decidem entrar depois de alguns dias, passado o estranhamento inicial.

As imagens de santos costumam exercer grande fascínio nos visitantes. Alguns entram perguntando sobre determinado santo, como uma jovem que se lamentava por ainda não ter visto no museu a imagem de São Benedito, que a faria lembrar de seu pai, que atendia pelo mesmo nome do santo. Outros fazem preces diante do santo de sua devoção. Os olhos de vidro de Maria Bambina também chamam bastante atenção e muitos se sentem tentados a tocá-los. Alguns acreditam que “ela pisca os olhos”.

Imagem de Maria Bambina, início do século XX, coleção sacra. Foto: Márcio C. Henrique.Imagem de Maria Bambina, início do século XX, coleção sacra. Foto: Márcio C. Henrique.

A idéia do museu enquanto espaço de comunicação entre tempos diferentes também aparece nos relatos dos visitantes. “Você não tem a impressão de que não está sozinho aqui?”, perguntou uma senhora que olhou por vários minutos o acervo através da vidraça, e só entrou depois de ser convidada. Bastante sugestiva foi a atitude de um comerciante, que tocou o braço de uma das cadeiras da coleção mobiliário artístico e disse que gostaria de poder se transportar ao passado, a fim de sentir a experiência das pessoas que haviam sentado naquelas cadeiras há anos atrás. De um modo geral, o critério de antiguidade utilizado pelos visitantes corresponde a cem anos, sendo comum diante de determinado objeto a pergunta: “Já tem cem anos?”. Dos mais velhos, ouve-se coisas do tipo “eu sou curioso das coisas antigas”, conforme um senhor de Cametá e, dos mais jovens, “eu gosto dessas paradas”, conforme um jovem de Almeirim. Muitos admiram a coleção de móveis e dizem que hoje não se faz mais essas peças, que hoje existe mais tecnologia, mas não há tanta qualidade e beleza nos móveis. Todas estas situações nos fazem refletir sobre o quanto as pessoas que freqüentam os museus dialogam com os bens culturais que encontram nos acervos, refletindo sobre as diferenças de habitus, modos de vida, relações sociais, a partir dos objetos.

A partir da observação do Livro de Visitantes do MAHSC pode-se perceber que a Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMP) recebe pacientes de diversos municípios do estado do Pará. Dessa forma, assim como deixam suas impressões, muitas vezes marcadas pela experiência particular de seus lugares de origem, os visitantes também levam para seus municípios a experiência que tiveram no espaço do museu. Quando se deparam com o livro “Registro de Entrada e Sahida dos enfermos do Hospital da Caridade do Pará”, de 1901, muitos ficam espantados pela grande quantidade de estrangeiros registrados no livro e perguntam a razão disso. De fato, em 1901 era grande a presença de imigrantes estrangeiros circulando por Belém, em função da dinamização da economia local promovida pela exploração da borracha durante a Belle Époque. No item referente a naturalidade dos pacientes, nota-se o registro de espanhóis, italianos, portugueses, franceses, em meio aos muitos “pardos” nacionais. Além disso, o Livro de Registro de 1901 também gera comentários elogiosos à letra da pessoa responsável pelos registros, expressos numa expressão típica no Pará: “Égua da caligrafia bonita!”. Os visitantes refletem sobre as letras atuais com afirmações do tipo “hoje temos caneta e nem por isso nossa letra é bonita” ou “depois do computador, ninguém mais sabe escrever”.

 Estudantes de História em visita guiada ao Museu. Foto: Márcio C. Henrique.Estudantes de História em visita guiada ao Museu. Foto: Márcio C. Henrique.

Se hoje é menor a presença de imigrantes estrangeiros no hospital da FSCMP, o atual livro de registro de visitantes serve de indicativo para refletirmos sobre o aspecto multi-étnico da população local. Assim, foi fácil perceber a ancestralidade indígena de uma garota que visitou o MAHSC durante sua internação no hospital. Quando perguntei a ela se conhecia algum índio, a resposta foi a seguinte: “Meu pai é índio. Ele morava na colônia. Ele tirou a pintura da cara dele e coisou a cara dele igual de homem de verdade!”. Da mesma forma, o menino que a acompanhava, de 10 anos, disse que “Meu tatara-tatara-tataravô era filho de uma índia. Mas ele veio morar na cidade. Meu pai sempre me conta isso”. Nota-se no relato dos dois a preocupação em deixar claro que a condição indígena do pai, no caso da menina, e do avô, no caso do menino, era um fato circunscrito ao passado, superado no momento em que ambos decidem morar na cidade. A identidade indígena aparece marcada por uma condição de inferioridade, indicada apenas como referência do “salto” à condição de “homem de verdade”. Mesmo sem saber, as duas crianças reproduziam em 2008 preconceitos comuns à época do livro de “Registro de Entrada e Sahida dos enfermos do Hospital da Caridade do Pará” (Motta-Maués, 1989). Por outro lado, o acervo não chamou muito a atenção de um índio Kaapor que visitou o MAHSC com seu filhinho, a convite do museólogo, talvez por não se identificar com um espaço que, como tantos outros na Amazônia, silencia quanto a presença viva e marcante dos índios na história da região.

Alguns visitantes, felizmente, não se contentam em apenas olhar os objetos, chegando a sugerir mudanças na disposição dos objetos, na organização das coleções, nas legendas das peças. Por sinal, a aquisição mais recente do acervo, um órgão utilizado nas celebrações da antiga capela, se deu a partir da sugestão de um funcionário, que procurou o museólogo dizendo ter visto alguns anos antes o instrumento abandonado no interior da capela, causando-lhe indignação.

Em conclusão, pode-se dizer que o Museu/Arquivo Histórico da Santa Casa de Misericórdia do Pará constitui um espaço fundamental para a divulgação de informações, criação de consciência, ação no mundo e transformação, conforme as metas da preservação apontadas por Funari. Mais do nunca, a experiência vivida no MAHSC exemplifica o quanto “o passado, conservado no Museu em forma de patrimônio, serve ao presente”.


[1] Doutor em Antropologia, Historiador do Museu/Arquivo Histórico da Santa Casa de Misericórdia do Pará.


Bibliografia

  • BORDALO, Alípio A. B. & AGUIAR, Gilberto F. S. Museu da Santa casa de Misericórdia do Pará: resgate do passado de uma instituição de caridade na Amazônia. In: Ciências em Museus (1990) 2, 73-81.
  • FUNARI, Pedro Paulo de Abreu. “O museu e os desafios do profissional de museu”. In: http://revistamuseu.com.br/site/br/artigos/8373-o-museu-e-os-desafios-do-profissional-de-museu.html, acessado em 28/05/08.
  • MOTTA-MAUÉS, Maria Angélica Motta. A questão étnica: índios, brancos, negros e caboclos. In: PARÁ. Secretaria de Educação. Estudos e Problemas Amazônicos. Belém: IDESP, 1989, pp. 195-204.

Nota do editor:
Artigo publicado originalmente no Revista Museu em 30/07/2008 23:58h.
Número de visitas até 06/2016 - 7.967.
Resgatado para a nova versão em 29/04/2020 17:57h.

 

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