Pedro Paulo A. Funari [1]

A multiplicidade de situações dos museus pode parecer, à primeira vista, um empecilho a qualquer generalização sobre a formação do profissional de museu. No entanto, há algumas questões genéricas que se referem ao cerne da atividade em museus, aquilo que diz respeito à essência da ação patrimonial.

Os museus representam o mundo como parte da ordem social, sua taxonomia refletindo, de forma mediada, a estrutura da própria sociedade. Não é casual que uma palavra-chave na organização dos museus seja, precisamente, taxonomia, pois tudo no museu é classificado e ordenado. Os setores, da reserva técnica à exposição, cada um subdividido e classificado. Esta concepção acompanha os museus, desde sua própria fundação, refletindo a própria hierarquia social na qual surgiu. No entanto, mais do que uma única ordenação e taxonomia, o mundo pós-moderno caracteriza-se pelo mais radical pluralismo, programa explícito da proposta do Aktives Museum. O tema central do trabalho didático do Museu Ativo consiste em transformar os consumidores de conhecimento em produtores. As visitas guiadas deveriam, sempre que possível, serem dissolvidas em participação ativa, um meio para que a confrontação com o mundo material gere o sentimento inesperado, a indignação e a curiosidade. Em uma sociedade aberta, há uma pluralidade de opiniões e deveria, pois, haver diferentes relatos do mundo material exposto no museu. Este pluralismo implica subverter o discurso da autoridade que prevalece na exposição de uma única versão, a verdade dos que controlam o poder.

O pluralismo não se restringe à exposição e à proliferação de narrativas, mas estende-se às próprias divisões do saber no interior do museu. A segmentação dos setores reproduz uma separação artificial entre os profissionais do museu, como se fosse possível dissociar exposição e reserva, programa educativo e pesquisa de campo, reflexão pedagógica e científica, reproduzindo dicotomias estranhas à prática crítica. Assim, no interior da instituição museu, nada justifica a falta de diálogo entre os diversos profissionais, senão a acomodação. A produção de conhecimento implica a disposição a aprender com os outros, sejam os profissionais colegas de instituição, seja o público em geral. Ainda “é tempo de fazer museu com a comunidade e não para a comunidade”, como dizia, há quase duas décadas Waldísia Rússio.

A comunidade não é, por sua parte, uma unidade, um conjunto homogêneo. Este modelo normativo de cultura já tem sido bastante criticado e não se pode idealizar a comunidade composta de heterogêneos interesses. No entanto, pode afirmar-se que, de maneira sistemática, são excluídos dos processos de decisão, na sociedade e, por conseqüência, nos museus, todos os que não estão no poder, de favelados a judeus, de negros a nordestinos. Esses diversos públicos compõem uma comunidade também ela plural e pouco afeita a generalizações que possam dar conta de sua heterogeneidade. Os profissionais de museu não podem ignorar essa diversidade, nem deixar de reconhecer no museu um instrumento a serviço dos que estão fora do poder. Nessa diversidade da comunidade, destaque-se o público infantil, tanto por se tratar dos futuros cidadãos, como pela necessidade de tomar-se em conta o caráter lúdico a ser adotado pelo museu.

Informação, criação de consciência, ação no mundo, transformação, eis as metas da preservação. Seria, até mesmo, o caso de propor que se deve preservar para transformar a sociedade, pois o conhecimento não é apanágio de classe ou grupo e qualquer museu pode levar à reflexão crítica. A começar por uma exposição que se contraponha à alienação da moda e à descontextualização derivada da mercantilização generalizada dos objetos em nossa sociedade pós-moderna. O passado, conservado no Museu em forma de patrimônio, serve ao presente. Mas não é apenas na exposição, que se busca transformar, nem só na superação das barreiras entre os setores do museu: há que se insurgir contra a separação entre o museu e as ciências, divisão oitocentista artificial e pouco afeita à atual busca de integração das disciplinas.

Neste contexto mais amplo, como se pode situar a formação do profissional de museu e qual museu será por ele criado? Em primeiro lugar, há que se superar concepções estreitas e rígidas do que seja e, principalmente, do que deva ser o museu. A formação do profissional de museu não pode prescindir de um amplo e variado contato com as ciências, em geral, e do homem, em particular. A formação do profissional inclui um conhecimento, de primeira mão, das diversas ciências envolvidas com o patrimônio e os museus, tão numerosas que, provavelmente, apenas uma amostra poderá ser estudada pelo futuro profissional de museu. O profissional de museu deve, necessariamente, lutar pela transformação do próprio museu, à luz do que se faz e discute no mundo, a este respeito, mas, também, na interação com a comunidade. O primeiro e decisivo passo é formar profissionais autônomos, independentes e transformadores do mundo.


[1] Livre-Docente do Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C. Postal 6110, Campinas, 13081-970, SP, fax 55 19 3289 33 27, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Nota do editor:
Artigo publicado originalmente no Revista Museu em 07/01/2004 00:13h.
Número de visitas até 06/2016 - 8.998.
Resgatado para a nova versão em 29/04/2020 18:35h.

 

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