Anna Maria Alves Linhares [1] Anna Maria Alves Linhares

O Museu do Marajó está localizado em uma pequena cidade chamada Cachoeira do Arari, que fica situada na maior ilha flúvio-marítima do mundo, a ilha do Marajó, no estado do Pará. A história de sua formação é bastante peculiar visto que, mesmo considerado um museu de caráter regional, foi pensando e formado por um padre jesuíta italiano que chegou à região na década de 1970, Giovanni Gallo.

Chegando ao Marajó, Gallo, como era conhecido, se encantou com as belezas naturais e culturais da região o que fez com que ele se aproximasse bastante da população local. A partir desse “encantamento” passou a percorrer a região atrás de estórias e histórias, como costumes, lendas, folclore, cultura material, dentre outros aspectos da cultura e da natureza amazônica.

Com a reunião dos objetos e da história da cultura do lugar, ele resolve montar um museu para valorizar a região e promover seu desenvolvimento. Assim surgiu o Museu do Marajó. Pode-se dizer que ele é uma junção de museu comunitário, eco-museu e de um grande gabinete de curiosidades, relembrando os museus etnográficos do século XIX, pois reúne objetos curiosos para serem apreciados com a pretensão de mostrar o “exótico”, expõe objetos interativos que além de serem apreciados, devem ser tocados e pegados. O acervo conta com uma exposição interna e externa. Assim que o visitante entra, adentra à primeira sala que é composta de peças arqueológicas marajoara encontradas na ilha, além de reproduções feitas por artesãos locais. São peças de cerâmica e objetos líticos sendo tangas, tigelas, vasos, estatuetas, pratos, caretas e urnas funerárias, além de inúmeros cacos cerâmicos. Parte do material arqueológico foi proveniente de doações de moradores da região que as encontravam por fazendas e de doações realizadas pelos próprios fazendeiros, além das incansáveis buscas feitas por Gallo.

Fotografia: Márcio Couto Henrique (maio/2006)Fotografia: Márcio Couto Henrique (maio/2006)

Além das peças arqueológicas o acervo conta com a exposição de peças contemporâneas como utensílios domésticos, cestaria, cabaças, jarros, cuias, objetos que denotam a religiosidade do lugar como imagem de santos e peças de rituais de pajelança, e também peças utilizadas à época da escravidão, sendo pratos e objetos de tortura. Além dos objetos que fazem parte da cultura material dos moradores da região, existem peças que representam aspectos da natureza amazônica como animais empalhados de várias espécies, peixes, peles de jacaré, cobras, dentre outros e animais com deformações genéticas, como animais com duas cabeças, por exemplo.

Fotografia: Anna Maria Alves Linhares (maio/2006)Fotografia: Anna Maria Alves Linhares (maio/2006)

Algo que chama atenção no acervo do museu são os painéis interativos que Gallo designou de computadores. Em sua maioria são painéis e grandes caixas feitas de madeira com jogos que levam o visitante a obter conhecimentos sobre o meio ambiente e a cultura do chamado homem marajoara. A fotografia a seguir mostra o computador Assim falam os caboclos, que é uma espécie de jogo de adivinhações. O visitante vai puxando as fichas e vão sendo apresentadas charadas ou perguntas sobre o folclore, gíria e forma de falar dos moradores locais. As respostas ficam em outras fichas equivalentes. É como se fossem caixas de surpresas, montadas de forma didática e que precisam ser mexidas para serem descobertas.

Fotografia: Anna Maria Alves Linhares (maio/2006)Fotografia: Anna Maria Alves Linhares (maio/2006)

A palavra de ordem é, portanto, interação entre o visitante e a exposição. Deve-se mesmo pegar na peça e não apenas contemplar, pois se não se pega nos jogos, não se descobre o “homem marajoara”. Esses jogos interativos mostram-se como a diferença e constituem uma peculiaridade da exposição, visto que não se conhece nenhum acervo nesses moldes na região, podendo mesmo ser considerado de vanguarda, pois a técnica de hands on atualmente é considerada contemporânea ou inovadora, mas já havia sido projetada por Gallo há cerca de trinta anos atrás. Um exemplo que aponta a atual importância dada a esse tipo de acervo que adota o hands on é o Museu da Língua Portuguesa, localizado em São Paulo e que repercute devido à interação exposição/público.

Como se pode observar, o museu é um espaço curioso, espécie de gabinete de curiosidades, repleto de “coisas” e peças a serem mexidas, reviradas e observadas. Além disso, espaço de interação, reflexão e conhecimento, visto que reúne peças de âmbito arqueológico, histórico e etnográfico. É uma espécie de gabinete de curiosidades que tem em vista aspectos educacionais, científico e interativo. Então, como definir o Museu do Marajó? Obviamente que não é objetivo do artigo classificar um espaço tão peculiar, mas vale ressaltar que apesar da singularidade do seu acervo, algumas de suas especificidades os aproximam dos chamados Eco-Museus, como frisou van Velthem (2005). Segundo a autora, esta categoria de museu localiza-se geralmente em áreas economicamente desfavorecidas e em comunidades que não contam com nenhum outro equipamento cultural, realidade vivenciada pelo museu. Além disso, uma das principais preocupações desse tipo de acervo fundamenta-se na relação homem e cultura e da população com sua região, o pressuposto principal do Museu do Marajó.

Sobre os Eco-Museus, segundo Martins, “... em lugar de estar a serviço dos objetos, o museu deveria estar a serviço dos homens. Em vez do museu “... de alguma coisa”, o museu “para alguma coisa”: para a educação, a identificação, a confrontação, a conscientização, enfim, um espaço para a comunidade.”. (Martins, 1999: 158). Para Gallo, a peça mais importante do museu sempre foi o homem. Desde seu princípio, ele pareceu estar interessado em formar uma conscientização da população local com vistas no reconhecimento de seu patrimônio. Elaborou projetos sociais com esse intuito.

Em meados de 1980 ele começou a fazer desenhos dos motivos contidos na cerâmica arqueológica e repassava às senhoras de Cachoeira para que elas bordassem os mesmos em roupas a fim de comercializá-las. Já em 1990 Gallo lança um livro com inúmeros motivos marajoara desenhados e fotografados para serem aplicados não apenas em roupas, mas no artesanato em geral com o objetivo de comercializá-los a turistas que visitavam Cachoeira do Arari (Gallo, 2005). A reprodução de cerâmica também está inserida nesse contexto. Aliás, desde essa época foram promovidos cursos com esse intuito. Atualmente existem oficinas de serigrafia, cerâmica, bordado e confecção de adornos como brincos, colares e pulseiras. Toda a produção tem em vista a utilização do grafismo contido na cerâmica arqueológica. O museu como representação de seu criador, Giovanni Gallo, acabou tornando-se uma instituição de importância, relevância e sobrevivência para muitas pessoas em Cachoeira do Arari. Isso porque foi a partir de Gallo e da criação desse espaço que muitas pessoas se profissionalizaram, aumentaram sua renda ou mesmo passaram a ter uma fonte de renda.

É importante lembrar que os produtos são voltados para o turismo, até porque é o turista que consome os objetos, este é o público visitante. Quando estive no município pude observar que a maior parte das pessoas vão à Cachoeira por saberem da existência desse museu. Isso evidencia que a instituição acabou virando referencial turístico. Mesmo fora do lugar, quando se refere o nome de Cachoeira do Arari, é comum a ligação com o Museu do Marajó, que acabou tornando-se atrativo. O museu está voltado basicamente ao turismo, mas seria importante se ele estivesse sendo mais utilizado como um espaço de educação patrimonial pelas escolas da cidade. As visitas das escolas ainda são pequenas com relação às visitas turísticas.

Com o passar do tempo tais motivos marajoara saíram dos objetos e lançaram-se às ruas. Em Cachoeira é comum se ver grafismos marajoara nos postes de iluminação pública, fachadas de casas e bancos das praças por quem percorre as principais ruas da cidade (Linhares, 2007).

Fotografia: Anna Maria Alves Linhares (maio/2006)Fotografia: Anna Maria Alves Linhares (maio/2006)

A partir de então “inventa-se uma tradição” marajoara em Cachoeira. Antes da chegada de Gallo na cidade e da elaboração dos projetos, pouco se sabia sobre a importância dos achados arqueológicos e da preservação desse patrimônio para a história local. Alguns moradores diziam que conheciam ou já haviam escutado falar a respeito da existência de objetos “de índios que não mais viviam no local e que não eram vivos”, mas que os assustavam, e que hoje, já passam a reconhecer os mesmos objetos que os assustavam quando eram encontrados nos quintais de algumas casas pertos de sítios arqueológicos como um importante patrimônio, que deve ser reconhecido, preservado e valorizado.

Hoje todos querem mostrar que possuem uma identidade marajoara, estampando nas roupas, nas praças, nos bancos das igrejas e aos poucos na consciência social. Por “tradição inventada” entende-se “... um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica [que] visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado.(Hobsbawm, 2002: 12), como vem ocorrendo em Cachoeira.

Como se pode observar, a importância do museu foi e está sendo essencial para a formação de um pensamento crítico e da própria consciência histórica dos moradores do lugar, pois a partir de então, aos poucos, passaram a valorizar o patrimônio cultural da região. Eles começaram a perceber a importância que tinha todo aquele patrimônio que “brotava” nos sítios arqueológicos.

Segundo Martins (1999), para que museus desse âmbito germinem, faz-se necessário que as pessoas e moradores do lugar possam tomar consciência coletiva de seu patrimônio através da recuperação do passado como se deu com a re-valorização do patrimônio arqueológico e também dos objetos contemporâneos a partir dessa apropriação específica, a expositiva, devendo refletir o desenvolvimento cultural e econômico da região, conferindo dessa forma o caráter regional.

Mesmo enquadrando o museu no que se designa de Eco-museu, convém chamar a atenção aos limites das tipologias ou desse tipo de classificação visto que apresenta outras características que extrapolam as concepções de um Eco-museu, pois é um espaço de curiosidades, um lugar onde se encontram arraigados alguns aspectos da visão de mundo européia de seu criador e um museu interativo com técnicas de hands on.

Por isso não convêm defini-lo apenas enquanto Eco-Museu, mas quem sabe como um espaço de Curiosidades interativas da região. O importante é atentarmos para a importância de um museu que sobrevive há cerca de 30 anos em uma pequena localidade da Amazônia, Cachoeira do Arari, que sobrevive de projetos e da colaboração da comunidade, desde a limpeza até a concepção museológica de seu acervo. Não esquecendo que o museu e todo seu acervo é um legado histórico, antropológico, arqueológico e artístico de um pedaço da Amazônia: a ilha do Marajó. Pode ser um amplo espaço de pesquisa para a educação, a antropologia, a história, a biologia, a arqueologia, dentre outras ciências.


[1] cientista social e mestre em antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).


Referências bibliográficas

  • HOBSBAWM, Eric. “Introdução: A Invenção das Tradições” IN HOBSBAWM, Eric e TERENCE, Ranger (org.). A invenção das tradições. São Paulo, Editora Paz e Terra, 2002.
  • LINHARES, Anna Maria Alves. De caco a espetáculo: a produção cerâmica de Cachoeira do Arari (ilha do Marajó, PA). Dissertação de mestrado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. UFPA, 2007.
  • MARTINS, Maria Helena Pires. “Ecomuseu” IN COELHO, Teixeira (org.) Dicionário Crítico de Política Cultural: cultura e imaginário. São Paulo, Iluminarus, 1999.
  • GALLO, Giovanni. Motivos ornamentais da cerâmica marajoara: modelos para o artesanato de hoje. Cachoeira do Arari, PA, Museu do Marajó, 2005.
  • VAN VELTHEM, Lúcia Hussak. O Museu do Marajó. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi. 2005. (mimeo).

Nota do editor:
Artigo publicado originalmente no Revista Museu em 30/07/2008 23:57h.
Número de visitas até 06/2016 - 13.539.
Resgatado para a nova versão em 29/04/2020 19:30h.

 

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