Adilson Portugal Rachid [1]

Em qualquer mercado, mercearia ou quiosque que venda frutas ou legumes, há de se encontrar a nossa tão querida e desejada Banana.

Seja na safra ou na entre safra, sempre temos ela ali, presente nos ofertando sabor, energia e afins.

Mas uma coisa é certa, ainda que variando de valores por maior que seja a oferta, para a banana sempre tem procura.

Para o produtor é fantástico, para quem vende bom e para quem compra, a banana virou lugar comum, se não comprar hoje amanha terá e assim sucessivamente.

Estamos transformando o Mercado de Arte em banana.

As peças outrora exclusivas e disputadas são bananas nos sites de infinitos leilões online, alguns bastante duvidosos, mas que insistem em jorrar peças e mais peças no mercado saturado de oferta e pouquíssima demanda.

Com o advento do COVID-19 feiras e salões foram cancelados, as mercadorias não circulam na mesma rapidez, mas então como não tem muitas buscas?

A meu ver é bem simples, estamos vivendo tempos em que se popularizou o consumo de arte, positivamente, todavia, isso trouxe junto à banalização do conceito de leilão.

Nos anos 90, as exposições e leilões eram presenciais, as pessoas se arrumavam para ir, era um momento social de ver e ser visto, ali, a casa de leilão, com seus avaliadores dava absoluta atenção ao cliente, explicando detalhes, tirando dúvidas, anunciando a procedência da peça, ou seja, já iniciava ali o flerte da venda, recordo-me que em alguns casos 70% do leilão já iniciava o pregão vendido, apenas na exposição e no contato pessoal.

Hoje a exposição é virtual, o leilão é virtual, não há contato nenhum entre a peça e o cliente, não há espaço para o flerte inicial, não há, muitas vezes, interesse na história da peça. Esse calor, este namoro acabou.

Mas não sou contra a tecnologia e a modernidade de forma alguma, é preciso que de alguma forma, retomemos a fisicalidade com a arte, é preciso fomentar o comparecimento do cliente à exposição e deixar que ele decida se prefere estar participando virtualmente ou presencialmente.

Não se pode ignorar o fator da violência que afasta as pessoas da noite, mas criemos as exposições vespertinas ou ainda no final de semana que sejam matutinas.

O que desejo é que não tratemos a arte como banal, que não caiamos no mercado como meros negociantes de bananas que qualquer um tem, qualquer lugar tem e que dá-se pouco valor.

É bem verdade que temos de aprender com a nova condição que se impôs nestes tempos de COVID-19, que causou um baque em todo o sistema de consumo da sociedade.

Não se tem dados oficiais de quantas galerias, antiquários e leilões fecharam, mas certamente foram muitos, pois tal e qual bares e restaurantes, o setor não estava preparado para esta interrupção abrupta.

No mercado de arte o impacto foi grande para os antiquários e galerias dentro de shoppings fechados e sem público, e evidente que, nos dias atuais, quem não for .com é ponto morto - a maioria tinha sites e redes sociais, que foram de grande importância neste momento.

As redes sociais foram a forma que muitos encontraram de manter o contato com clientes antigos, cooptar novos e claro, manter vivo o negócio.

Na grande rede mundial hoje as redes sociais estão todas transformadas numa grande vitrine, acessível ao click.

O que volta ao início do texto, que esta virtualização do mercado foi a salvação para os negócios. Os infinitos sites de leilão nunca tiveram tanta procura, nem tanto pelo objeto em si, mas pela necessidade social de comprar.

Imaginem shoppings fechados, lockdown nas ruas, e vários sites de compra chamando a atenção. Irresistível apelo consumista.

Estamos frente a uma dicotomia, ao mesmo tempo em que a virtualização é perniciosa e potencialmente danosa, ela também é virtuosa e se fez fundamental.

Estamos diante então da necessidade de equilíbrio e sensatez.

Repensar o mercado, restaurar o tempo do flerte, passar credibilidade ao cliente, retomar a confiança abalada por vendas online duvidosas e fundamentalmente valorizar o objeto, não é banal um belo colar de pérolas, não é em qualquer esquina que se acha um desenho do Di Cavalcanti, não está na gondola um imponente tapete persa, não se acha um cacho de Bruno Giorgi junto a uma penca de Alfredo Ceschiatti na bancada.

Cabe à nova sociedade pós Covid-19 descascar esta banana e que seja doce o fruto que dela advir.


[1] Museólogo e avaliador de arte.

 

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