Documentos Preciosos com Selos Pendentes - proposta de acondicionamento

[*] 

Ana Virginia Pinheiro e Fernando Menezes Amaro [**] 

Resumo

Descreve a concepção e o desenvolvimento de embalagens para documentos manuscritos com selos pendentes, disponíveis no acervo da Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional brasileira, de modo a atender às políticas de preservação e de desenvolvimento de coleções documentais consagradas na literatura técnica e científica.  Discorre sobre a importância do selo, como o mais importante sinal de autenticidade e validação de diplomas, e sobre a fragilidade da matéria em que alguns eram cunhados, justificando a salvaguarda do conjunto que compõe o documento - selo, diploma (suporte de escrita) e cadarço.

Apresenta os princípios diretores para a decisão de preservação, ressaltando que documentos com selos pendentes, por seu conteúdo e natureza, segundo uma razoável política de desenvolvimento de coleções, são itens de “retenção arquivística”.  Desenvolve pesquisa sobre a historicidade da produção desses suportes e sobre o processo de aposição do selo pendente, apresentando os vários tipos de selos (selo de anel, selo rodado e em forma de naveta,  selo de chapa, selo branco,  sinete e  selo pendente); seus formatos (quadrado,  em paralelogramo, redondo, oval, oblongo, triangular, pontudo, octogonal, hexagonal, pentagonal, em forma de coração e piriforme; as dimensões mais praticadas; e seus elementos (campo e bordadura).  Finalmente, propõe uma solução a partir da técnica de inlay (inserção), associada ao acondicionamento em três níveis (um para cada parte do documento), resgatando parte de uma prática antiga, anterior ao século XIII,  que criava um desnível e um rebordo, para proteção do selo  “inserido”.  A proposta foi implementada, com o planejamento, a elaboração, a testagem e a utilização da embalagem em documentos preciosos com selos pendentes, da Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional, conforme padrões ideais de acondicionamento e de desenvolvimento de coleções, sob o ponto de vista da Preservação e da Documentação.

1  Introdução

          O objetivo deste estudo é descrever a concepção e o desenvolvimento de embalagens para documentos manuscritos com selos pendentes, disponíveis no acervo da Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional brasileira, de modo a atender a políticas de preservação e de desenvolvimento de coleções documentais consagradas na literatura técnica e científica.

          A idéia de acondicionar documentos com selos pendentes surgiu, em primeiro lugar, do princípio motriz, difundido pelo IFLA Core Activity on Preservation and Conservation (PAC), instituído no Congresso da IFLA, em Nairobi, em 1984 (INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATIONS AND INSTITUTIONS, 2008), que reza que “a preservação de materiais de bibliotecas e arquivos é essencial para a sobrevivência e o desenvolvimento da cultura e do conhecimento” (LIBRARY OF CONGRESS, 2008, tradução nossa); e, em segundo lugar, da própria dificuldade de armazenamento daqueles documentos, em face da multiplicidade de materiais que o compõem - pergaminho ou papel, cera ou metal, cetim ou algodão.

          A superfície do documento, isto é, sua extensão e dimensões, envolve volumes desiguais, relativos à parte escrita, ao selo e ao cordão, fita ou trancelim, que prende o selo ao diploma, o suporte de escrita. O que se tem observado, na prática, é que esses documentos vêm sendo armazenados em rolos, pastas e caixas - de metal, plástico, papelão ou papel. Em todos os casos, pouco favorecendo ao diploma e prejudicando bastante os demais materiais. A conseqüência desse procedimento é, geralmente, a perda das partes apensas (cordão e selo).

          Dado ao valor jurídico do selo, como o mais importante sinal de autenticidade e validação de diplomas, e à fragilidade da matéria em que alguns eram cunhados, a preservação do conjunto que compõe o documento - selo, diploma e cordão - torna-se uma condição para a sua salvaguarda, para a longevidade da informação, resguardando o suporte original.

          No caso específico de documentos com selos pendentes, a integridade do suporte é a garantia da função do documento; são os elementos externos – os múltiplos suportes,  que garantem a autenticidade dos elementos internos – o teor (cf. GUIMARÃES, 1998, p. 99-100).

          Segundo Hazen (1997, p. 3), a preservação envolve três tipos de atividades:  a adequação de ambientes de biblioteca e arquivos a natureza do acervo armazenado; a ampliação da vida física do documento, “através de métodos como desacidificação, restauração e encadernação”;  e a geração de segundo suporte (microfilmagem, fotocopiagem, digitalização), a partir do documento original.

          Essas atividades são aplicadas, item-por-item ou a conjuntos de documentos, segundo critérios específicos de seleção, tais como a importância histórica, o valor econômico, a unicidade de determinados itens, a fragilidade dos suportes, o nível de deterioração, o volume de consultas demandado e a expectativa de uso por conta de eventos e datas específicos.

          Tanto a preservação item-por-item quanto a preservação de conjuntos requerem o cumprimento de etapas, anteriores e posteriores, nem sempre viáveis, em face da realidade política e administrativa das bibliotecas, arquivos e museus, guardiões desses conjuntos.

          A falta de recursos, a definição de prioridades “oportunistas”, a descontinuidade administrativa, a variedade de suportes dos materiais (papel, pergaminho, couro, acetato , metal), a falta de domínio técnico e  tecnológico para ações determinadas, têm orientado a tomada de decisão entre o que será preservado e o que será  submetido à “negligência benigna” – isto é, quando se permite que um item deteriore na estante, pelo excesso de uso ou pela perda de importância, para ser, finalmente, subtraído da coleção (cf. MILEVSKI; NAINIS, 1997, p. 32).

          Esse procedimento constitui irregularidade, na medida em que, desde que se tenha recursos, “agora é tecnologicamente possível salvar tudo” (CHILD, 1997, p. 25), determinando a longevidade deste ou daquele item, desta ou daquela coleção, possibilitando a desconsideração de documentos em suportes múltiplos, cuja preservação requereria ações parte-por-parte, segundo os materiais que os compõem.

          Documentos com selos pendentes enquadram-se em itens dessa natureza.

Ao longo dos anos, geralmente, os documentos com selos pendentes foram tratados como documentos não-particularizados – o selo, o cordão, a dobradura e a perfuração, que sustenta o peso do selo e por onde passa o cordão, não são relevados sob o ponto de vista de preservação do item parte-por-parte. Essa situação, obviamente, afeta a qualidade física do documento com selo pendente, com sérias conseqüências sobre sua qualidade intelectual.

          Ora, se o selo é parte formal do documento e tem valor jurídico, qualquer imperfeição ou subtração leva à suspeição quanto a sua origem e a correção de seu conteúdo.

          O fundamento básico na decisão para a preservação de documentos com selos pendentes, subdivide-se em cinco princípios diretores:

  1. garantia de acesso - para justificar as ações de preservação, que demandam custos muitas vezes elevados, mediante a geração de segundo suporte  (a terminologia consagrada em Preservação é “transferência de suporte”, como se a informação fosse remanejada, transferida e não reproduzida; em Arquivologia, tem sido utilizada “reformatação da informação”, como se ocorresse alteração do original para novo formato;  a opção por “geração de segundo suporte” justifica-se pela conotação de significado  –  um novo suporte  foi gerado  –  e de significante - ainda existe um primeiro suporte, o original);

  2. garantia de exeqüibilidade, sob o ponto de vista econômico, e de praticabilidade, no âmbito da instituição de guarda;

  3. garantia de aceitação “política” da iniciativa, constatada pelo favorecimento das relações estabelecidas na biblioteca, no arquivo ou no museu  –  referência, cooperação e disseminação (cf. ATKINSON, 1997, p. 17-18).

  4. garantia de continuidade, expansão, em face do custo e do volume de itens a serem preservados;

  5. garantia de operação, inviabilizando impedimentos que retardem ou anulem a iniciativa.

          Documentos com selos pendentes, por seu conteúdo e natureza, segundo uma razoável política de desenvolvimento de coleções, são itens de “retenção arquivística”, isto é, devem ser mantidos para sempre, em face da inviabilidade de sua substituição – ressalte-se que para sempre indica o tempo exato de vida útil do item, que pode passar de uma geração a outra, se bem preservado (cf. MILEVSKI; NAINIS, 1997, p. 41).

          A idéia de preservar para não perder e de conservar para não restaurar passa a determinar procedimentos e rotinas orientados para a longevidade dos suportes de registro do conhecimento. Uma das opções, de caráter temporário ou definitivo, para garantir essa longevidade, é a proteção em caixas.

          A proteção de documentos em caixas requer a avaliação do item e criatividade na concepção da caixa, considerando:

a) condições físicas do suporte, em vista de ações de conservação e restauro, de acordo com políticas de aceitação internacional;

b) formato, em busca de dimensões externas padronizadas, em favor da facilitação do armazenamento;

c) características incomuns, em favor de sua devida consideração; e

d) outras alternativas de armazenamento.

          A criatividade implica em definir:

a) cores a serem utilizadas, relevando o contraste com o documento e a invisibilidade da embalagem, em favor do documento que se quer destacar;

b) tamanhos, mínimo e máximo, favorecendo a formalização de um padrão;

c) praticidade em favor do manuseio, exposição, transporte e guarda (circulação e armazenamento);

d) funcionabilidade, em favor da consulta;

e) padrão de manuseio, a partir de informes, na embalagem, para auto-orientação (capacidade, em extensão e peso, limite de empilhamento, resistência à abrasão, umidade, água, fogo, modo de higienização);

f) tempo de vida útil da embalagem, a partir do padrão de manuseio, formalizando o custo e a data do acondicionamento e a identificação de sua origem.

          A partir dessas considerações foi implementada iniciativa no sentido de resgatar e salvaguardar os documentos manuscritos com selos pendentes, armazenados na Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional  –  em tese, os mais antigos, dessa categoria, na Instituição.

          A busca levou à recuperação, entre os muitos documentos com variados tipos de selos, de mais de trinta documentos, em pergaminho e papel, com selos pendentes em cera, chumbo, latão e papel. A multiplicidade de características verificadas impôs a pesquisa sobre a historicidade da produção desses suportes.

2  Histórico

          O selo, do latim sigillum, de signum, é entendido como uma peça em que estão abertas armas ou divisas, ou que serve para imprimir em cartas ou papéis de importância, a fim de os tornar válidos ou autênticos. Por extensão, selo define, também, o produto daquela impressão, uma espécie de esfera ou bola de chumbo ou outro material, com um orifício por onde entra um fio, um arame, uma corda, depois do que se aperta com alicate próprio, a fim de tornar inviolável. No sentido rigorosamente diplomático, é um objeto geralmente lenticular de metal ou cera, algumas vezes de lacre, obreia e papel, aplicado ou suspenso a um escrito público ou particular e que testemunha a aprovação, ou, pelo menos, a participação da pessoa cuja imagem, emblema ou nome, se encontra nesse selo (SELO, 1960, p. 180, 182). Na literatura, de modo geral, o selo é identificado como sinete, chancela, lacre, obreia, cunho, enfim, toda marca com caráter distintivo, e seu uso remonta à Antigüidade.

          “O selo é a última determinação da real palavra, e a fé e o último complemento da verdade” (SOUSA, 1735-1748, p. 4). O original utilizado para imprimir a marca, devia, por direito, ser guardado e, por obrigação,  ser  quebrado, logo após a morte do soberano e antes da abertura do testamento, pelo chanceler.

Nos tempos antigos, usava-se cera de abelhas ou alguma argila plástica para a reprodução do timbre do anel. Dentre os vários tipos de selo, destaca-se o “tipo armorial” ou “heráldico”, cujo motivo dominante é tirado do brasão de seu usuário - surgiram em Portugal, a partir da metade do século XII.

          No século XIV e nos documentos dessa época, o selo tinha ainda grande importância, começando, porém, a declinar essa importância no século XV, quando se generalizou o lacre, importado da China. O carimbo de lacre mais antigo que se conhece data de 1554.

          Em 1624, apareceram as obreias (folha fina de massa que se fabrica em várias cores, usada antigamente para fechar cartas, pegar papéis, etc.) em Espira e, em 1820, o inglês Bewer inventava os sobrescritos (BEWER, 1960, p. 35).

          No século XVI, o selo para a maior parte dos atos, tornou-se quase inútil. Seu uso praticamente desaparece nas Ordenações manuelinas - embora seja, ainda, usado, em substituição às testemunhas (GAMA BARROS apud SELO, 1960, p. 183).

          Para melhor compreender a função precípua do selo, é imprescindível considerá-lo a partir dos formatos que assumiu, conforme o uso a que se destinava, a saber:

a) selo de anel - selo medíocre, médio ou pequeno; selo secretos, sinete ou selo  de camafeu; em Portugal era também denominado “selo das tábuas” ou “távoas” (tabulae, lat., isto é, escritura das cartas); eram selos menores que os selos de chapa, não estavam a cargo do chanceler e com ele se expediam, por via de regra, os negócios particulares ou de menor importância;

b)  selo rodado e em forma de naveta – o primeiro é formado pelo desenho de um círculo concêntrico ou vários círculos concêntricos e dentro de uma cruz;  teve origem na “rota”, sinal de validação das grandes bulas pontificais, a partir de Leão IX e não era privilégio da coroa;  o segundo é formado pela interseção de duas circunferências de raio igual e era usado por eclesiásticos e pelas damas;

c)  selo de chapa – com a substituição do pergaminho, que na época era excessivamente caro, pelo papel, os selos pendentes foram substituídos pelos selos “de chapa” ou “chancela” ou “selo chão”, designados na França por sceau plaqué ou en plaqué. Os selos de chapa são aplicados sobre o documento por meio de uma pasta de cera, de obreia, ou de outra massa e de um pedaço de papel, por vezes, com recortes, no qual fica impressa a figura ou o cunho do selo. O seu uso em Portugal data dos meados do século XIII, sendo do reinado de D. Dinis o primeiro selo de chapa conhecido;

d) selo branco – substituiu o selo de chapa. À matriz do selo branco gravada negativa corresponde o respeitante positivo, relevado, numa peça inferior, também metálica. Tem superior vantagem porque a matriz imprime-se diretamente na carta, sem interposição de cera, de obreia, nem de papel.

e) sinete – equivalia, algumas vezes, ao selo de anel. Distingue-se do selo de chapa por ser menor e, por via de regra, em não ter legenda alguma. Algumas vezes, é também denominado selo de camafeu, selo secreto ou selo de puridade. Era usado em documentos de pouca importância ou, ainda, no reverso dos selos pendentes, como “contra-selo”, nos diplomas régios, eclesiásticos e de ordens militares;

f) selo pendente – a mais antiga referência a um selo desta espécie atribui-se ao reinado de D. Afonso Henriques, embora sua legitimidade tenha sido posta em dúvida em 1793. É certo que D. Sancho I fez uso de selos pendentes. Esses selos pendem do documento por: tiras de couro ou pergaminho, cordões de seda ou de linho, fitas de seda em forma de saco ou luva, fios de retrós ou cadarço de seda. Há uma grande variedade de cores nos cordéis ou fitas que prendem os selos, cores que têm o seu simbolismo e significação, segundo a pragmática e as regras de várias chancelarias. Em Portugal usou-se, particularmente, a cor vermelha; mas eram comuns as combinações das cores: verde e amarela, branca e verde, amarela e vermelha, verde e vermelha,  e amarela e branca (cf. SELO, 1960, p. 184-186).

          O pergaminho era o suporte privilegiado na produção de documentos que receberiam selos pendentes;  de tal modo, que os selos pendentes caíram em desuso quando o emprego do papel começou a generalizar-se por quase todas as chancelarias.

          Esses formatos descritos já foram recuperados no acervo da Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional, com exceção do selo rodado.

3. Material

          Os selos, sobretudo os pendentes do documento, eram metálicos ou de cera; usaram-se também selos de lacre, de obreia e papel.

          Os selos de metal são ordinariamente de chumbo, excepcionalmente de ouro para autenticar atos muito solenes, conhecendo-se também selos de prata, ferro, cobre, bronze, estanho e marfim;  os de cera são geralmente de malta, composição de cera, resina, gesso e gordura ou de cera e apresentava-se com as seguintes cores:  branca, vermelha, verde escura, preta coberta de vermelho e branca coberta de verde.

          Os selos de chumbo, cujo uso difundiu-se do Império Romano oriental para o Ocidente, tomaram o nome, na chancelaria pontifícia, de bula ou bola  (SELO, 1960, p. 183). Para atos menos solenes e de menos importância expediam os pontífices os breves, cujo selo em cera vermelha é chamado o “anel do pescador”.

          O selo de chumbo emprega-se pela primeira vez em Portugal na segunda década do século XIII, no começo do reinado de D. Afonso II, com a designação de bula ou bola, uso que se torna corrente no reinado de D. Dinis, ao que parece, sempre aplicado nas cartas régias.

          O lacre, substância de origem asiática, fabricada com mínio, goma-laca e terebintina, a que os franceses chamam “cera de Espanha”, foi usado em selos e sinetes, tanto em documentos particulares como públicos.

          É também comum o uso dos selos pendentes de papel e obreia, prendendo-se a fita com a mesma obreia ao papel dobrado, que vem a receber a impressão de ambas ou partes (SELO, 1960, p. 184).

          O selo pode ser: quadrado, em paralelogramo, redondo (forma mais antiga e usual), oval (adotou-se na época carolíngia e nas chancelarias que sofreram sua influência), oblongo, triangular, pontudo, octogonal, hexagonal, pentagonal, em forma de coração (muito raros), e piriforme (em forma de pera).

          Os selos de chumbo, pendentes dos diplomas régios portugueses, são ordinariamente redondos, a exceção constitui raridade.

          Quanto aos selos de cera, a sua forma mais ordinária é oblonga, havendo também notícia em documentos de D. Manuel e de notáveis, de selos pendentes redondos.

          A dimensão dos selos, equivalente a dimensão das matrizes metálicas proporcionada à categoria social de seus possuidores, segundo as regras da hierarquia feudal, era de 55 a 177mm. Os selos redondos são ordinariamente de 2 polegadas de diâmetro, cerca de 5cm.

          De modo geral, os selos apresentam os seguintes elementos:

  1. campo: toda a superfície de cada face do selo, com seus desenhos, imagens ou ornatos;

  2. bordadura: zona estreita, que circunda o selo.

          O processo de aposição do selo pendente era o seguinte:

  1. dobrava-se para cima a orla inferior do diploma, que assim ficava reforçada para melhor poder suportar o peso do selo;

  2. perfurava-se, uma ou duas vezes, simultaneamente, as duas partes do pergaminho dobrado;

  3. por essa ou essas perfurações , era passado o cordão, trancelim ou nastro de seda, linho, algodão ou lã, igualando-se as duas extremidades;

  4. enfiava-se, então, as duas pontas juntas por uma bola ou esfera metálica, perfurada;

  5. corria-se essa bola até à proximidade da fímbria do pergaminho;

  6. metia-se na prensa ou entre as duas peças da matriz, e batia-se nesta com um martelo ou apertava-se fortemente a prensa - a esfera achatava-se, tomava forma discóide, ficando numa e noutra face, relevadas, as figuras do anverso e reverso da matriz.

          Se, porém, o selo fosse de cera, um bolo desta substância, brandamente amolecida pelo  calor, era colocado na devida altura dos cordões, do mesmo modo que a bola de chumbo, e estampado pela matriz, com pressão muito menor, ficava este selo igualmente pendendo do pergaminho, pelos cordões, como os metálicos.

          O documento com selo pendente era guardado dobrado sobre si mesmo, de modo que o selo e o cordão ficassem metidos entre as faces da dobradura. Nas faces externas do documento dobrado eram anotados seus dados de identificação.

          Uma outra opção era o enrolamento do diploma, deixando o selo solto, pendendo para fora ou apoiado sobre o registro. Esses modos de “guardar” propiciavam, entre outros danos, o amarelecimento e o escurecimento das faces expostas do diploma;  o enrugamento e a rigidez do pergaminho (cf. PAIXÃO; MOTA; MATOS, 1994); o rompimento e a descoloração do cordão ou fita; e perdas na estrutura do selo, que iam desde a fratura à redução de relevo.

4. Salvaguarda e conservação

          A literatura técnica e científica não relata práticas e teorias que fundamentem ou estabelecem um padrão para a salvaguarda e a conservação de documentos com selos pendentes, na integridade de seu conjunto - selo, cordão e diploma.

          Há, no entanto, registros de diferentes processos que foram usados para proteger e conservar os selos pendentes nos documentos. O uso mais antigo de proteção e conservação de selos consistia em gravá-lo profundamente, para que o rebordo saliente protegesse a imagem contra atritos. Entre os séculos XIII e XIV, o selo foi envolvido por uma camada de estopa, algodão, em pequenas bolsas de linho, couro, pergaminho ou outro tecido. Mais tarde, adotou-se um pequeno estojo ou caixa de cera virgem ou de malta, de madeira, marfim, de folha de Flanardes, de latão, de prata etc. - estojo a que se deu o nome de “cocho”.

          Essa característica de documento múltiplo, composto, oferece dois problemas básicos, quanto ao acondicionamento - a dimensão e o nivelamento dos três elementos que o compõem;  e um problema fundamental - a conservação desses materiais.

          Para a concepção da embalagem, propriamente dita, há que se higienizar, planificar e, eventualmente, restaurar cada um dos elementos do documento. Vale ressaltar que a restauração não é um pré-requisito para o acondicionamento, mas, a higienização e planificação podem neutralizar, integral ou parcialmente, agentes ou circunstâncias danosas e determinar a função da embalagem formatada, como item de preservação, e a qualidade do trabalho final.

          Uma solução proposta, para o nivelamento dos três elementos – diploma, cordão e selo – é o uso da técnica de inlay (inserção), resgatando a prática mais antiga de acondicionamento, que criava um desnível e um rebordo, que protegia o documento “inserido”.

          A técnica de inlay deve ser associada ao acondicionamento em três níveis.

          O acondicionamento em três níveis objetiva estabelecer, numa mesma embalagem, níveis de profundidade distintos para a inserção de um só documento, parte-por-parte, de modo que, a face exposta do conjunto ganhe uniformidade.

          Definida a estrutura da embalagem, há a necessidade de atribuir-lhe caráter funcional, em face do tamanho final da caixa, resultante da planificação do diploma.

          Nessa questão, deve vigorar a criatividade, tal como na solução encontrada e praticada na Fundação Biblioteca Nacional: estabeleceu-se uma segunda estrutura, interna, móvel, deslizante, em forma de bandeja avulsa, que acomoda o documento e que, por sua vez, é acomodada numa estrutura externa. O conjunto, fechado, tem a forma de um livro.

5. A embalagem

          A embalagem para documentos com selos pendentes, testada e praticada na Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional, a partir da associação de fundamentos da Conservação e da Documentação, tem estrutura dupla, móvel, que viabiliza tanto o armazenamento adequado à antigüidade e raridade do documento, quanto ao seu uso e manuseio, na pesquisa e em exposições.

          Nesse contexto, a Conservação encontra sua maior justificativa: garantir a longevidade, viabilizando o atendimento das múltiplas funções dos documentos com selos pendentes, que, por seu caráter de registros de memória, insubstituíveis, são fundamentais para a Bibliografia e a Documentação.

          A embalagem produzida, como um livro (Figura 1), é objeto de circulação, mediante a formalização de padrão de qualidade arquivística; isto é, a embalagem apresenta a propriedade de reduzir o impacto danificador do ambiente ou do manuseio inadequado; não produz efeitos químicos danosos ao documento, é resistente à deterioração e fornece proteção e apoio físicos (OGDEN, 1997b, p. 13 ).

Figura 1: A embalagemFigura 1: A embalagem

          A embalagem divide-se em duas partes:

  1. a gaveta - base encartada, corrediça e destacável, sobre a qual se assenta o documento (diploma, selo e cordel);  é o miolo da caixa, constituído pelos seguintes elementos:

    a) moldura: superfície plana, oca e delimitada, que guarnece o diploma, por inserção,

    b) cantoneira: recorte em ângulo, que fixa o diploma à gaveta,

    c) canalete:  nicho onde é alinhado o cordel, por inserção,

    d) cápsula:  pequena caixa de proteção, onde o selo é inserido,

    e) aselha:  pequena alça utilizada para puxar a gaveta; e

  2. a caixa, propriamente dita, o receptáculo que acomoda a gaveta e que,  quando fechada, toma a forma de um livro. É constituída dos seguintes elementos:

    a) capas, superior e inferior,

    b) cortes laterais externos e internos,

    c) corte dianteiro externo,

    d) corte dianteiro interno, móvel, por onde pode ser retirada a gaveta,

    e) lombada,

    f) trilho - saliência, ao longo de cada corte lateral interno, que fixa e guia a gaveta,constituindo, com a contracapa inferior, a superfície deslizante da embalagem.

          O padrão de qualidade arquivística exige a aplicação dos seguintes critérios:

a)  a caixa deve ser suficientemente rígida para suportar o peso do documento, a pressão verificada com o seu abrir e fechar, e eventuais impactos contra a sua estrutura;

b)  a caixa deve ser selada, a fim de evitar a penetração de poeira e outros elementos danosos;

c)  o tamanho e formato da caixa devem ser definidos a partir do documento a ser acondicionado;

d)  a caixa deve considerar as medidas exatas de cada parte do documento - diploma, cordão e selo -, de modo a garantir o acondicionamento por encaixe, limitando o movimento das partes dentro da caixa e eventuais danos (cf. OGDEN, 1997b, p. 15).

          Para a confecção da embalagem são necessários alguns materiais específicos, de qualidade;  em alguns casos, o volume, quantidade e extensão requeridos são determinados pelas dimensões do documento a ser acondicionado.

Material necessário:

bisturi

cartão de 300g/m2, neutro ou alcalino

cartão prancha, de poliestireno, estruturado com papéis especiais

cola PVA (cola branca)

colas neutras, reversíveis (metilcelulose)

espátula de bambu

espátula de osso, reta ou curva

esquadro milimetrado

faca de lâmina afiada (tipo “olfa”)

filmes de poliéster Terphane 66.10/50 (com 1000mm de largura, por 0.05mm de espessura)

fita adesiva, de componentes neutros ou reversíveis (Filmoplast P e P90)

papéis para forração, de 80 a 120g/m2, neutros ou alcalinos

régua milimetrada

tecido para forração (tela de puro algodão, laminado com papel)

tesoura

          Esse material dará suporte às cinco etapas de produção da embalagem, a saber:

  1. metragem/centimetragem/milimetragem do documento (Figura 2);

  2. corte do cartão, considerando: a lombada, os cortes laterais e dianteiro, duas vezes - destinado a compor os cortes internos e externos;  a base de sustentação, duas vezes, para compor o equivalente às capas, superior e inferior, de uma encadernação; o trilho, que será fixado nos cortes laterais internos, por dentro;  a base, que comporá a bandeja encartada, incluindo os recortes para encaixe do documento;

Figura 2: Metragem do documento (1ª etapa de produção da embalagem)Figura 2: Metragem do documento (1ª etapa de produção da embalagem)

  1. colagem das faces laterais, entre si, compondo dois conjuntos de cortes, internos e externos; fixação de cada um dos conjuntos, em oposição, na base de sustentação; e fixação, eqüidistante, nos cortes laterais internos, dos trilhos – confecção da caixa, propriamente dita (Figura 3);

Figura 3: Colagem das faces laterais (3ª etapa)Figura 3: Colagem das faces laterais (3ª etapa)

  1. forração da caixa, com o tecido (Figura 4);

Figura 4: Forração da caixa (4ª etapa)Figura 4: Forração da caixa (4ª etapa)

  1. forração da gaveta ou base de fixação do documento com o tecido, inserindo as cantoneiras de filme de poliéster e a aselha, confeccionada do próprio tecido (Figura 5).

Figura 5: forração da gaveta ou base do documento (5ª etapa)Figura 5: forração da gaveta ou base do documento (5ª etapa)

          O filme de poliéster, utilizado nas cantoneiras que fixam o diploma à embalagem, foi eleito por ser “quimicamente neutro, transparente e dimensionalmente estável [...], contudo, acumula eletricidade estática”   e, por isso, não deve estar em contato direto com o registro, especialmente se for produto de meios frágeis como o carvão, o grafite macio ou a aquarela opaca (cf. OGDEN, 1997d, p. 29) – o filme de poliéster deve segurar o suporte, pelas bordas.

          As caixas devem ser guardadas e transportadas em posição horizontal (cf. OGDEN, 1997C, p. 6). Para garantir o apoio generalizado da embalagem, evitando danos como o abaulamento das pranchas e a ondulação das seixas, deve-se considerar o empilhamento máximo de três caixas, desde que apresentem dimensões assemelhadas, que a maior sustente a menor, sucessivamente, e que o espaço de armazenamento faculte a retirada das caixas sobrepostas sem quaisquer danos. Vale lembrar, neste caso, o fato de que cada caixa acondicionará, apenas, um documento.

          A embalagem é de custo relativamente baixo, considerando seu uso integral, na medida em que documento e embalagem, doravante, formarão um conjunto, não devendo ser separados; e a perspectiva de longevidade, sob condições e manuseio adequados, de pelo menos cinco anos.


Referências:

  • ATKINSON, Ross W. Seleção para preservação: uma abordagem materialística. In: PLANEJAMENTO de preservação e gerenciamento de programas. Coordenação Ingrid Beck. Tradução de José Luiz Pedersoli Jr. Rio de Janeiro: Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos: Arquivo Nacional, 1997.  p. 11-22.
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[*] Trabalho apresentado no 9° Congresso da ABRACOR e publicado, como resumo, em:
PINHEIRO, Ana Virginia; AMARO, Fernando Menezes. Documentos preciosos com selos pendentes: proposta de acondicionamento [resumo]. In: CONGRESSO DA ABRACOR, 9, 25-29 out. 1998. Resumos... Salvador: Associação Brasileira de Conservadores e Restauradores, 1998. p. 55-56. Texto revisado e atualizado (referências e padrão de citações), com o objetivo de publicação integral, por Ana Virginia Pinheiro, em 1 de dezembro de 2008.

[**]
• Ana Virginia Pinheiro - Bibliotecária da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil) e Professora da Escola de Biblioteconomia da UNIRIO.
• Fernando Menezes Amaro - Conservador e Restaurador da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil).

 

Nota do Editor - esse artigo teve 8.051 acessos desde sua publicação original em 12/01/2009 até 17/05/2016. Está publicado na versão acima a partir de 19/12/2021.

 

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