Patrimônio da cidade histórica do Serro é entregue restaurado em 2005

A restauração de obras de artes e do patrimônio arquitetônico no Brasil vem se destacando dentro do cenário cultural nos mais diversos estados do país. Nesta edição, o Revista Museu traz até o leitor a mais recente obra entregue à comunidade do Serro, terra natal do escultor Mestre Valentim e de Teófilo Ottoni, na região de Minas Gerais.

Localizada a cerca de 30 minutos de Diamantina, a histórica cidade do Serro, marco dentro da história do Brasil pela exploração do ouro e diamantes na região, conhecida antigamente como Vila do Príncipe, se perpetua da forma mais genuína, com uma harmoniosa convivência entre as marcas de seu esplendoroso passado colonial e a atual realidade do século XXI.

Fachada da Igreja de N.Sª do Carmo em obras de engenharia (em nov/2004)Ao caminhar pelas ladeiras da cidade, podem ser vistos os testemunhos de um período áureo através da riqueza das construções religiosas, destacando-se a Igreja Matriz,a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Santa Rita, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e a Igreja Bom Jesus de Matosinhos, e a arquitetura típica existente nos casarios coloniais, como é o caso da Chácara do Barão.

Neste contexto, vamos encontrar na praça principal da cidade, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, erguida em 1678, que impressiona o visitante pela peculiar beleza do seu estilo rococó, evidenciada através da riqueza dos seus retábulos, púlpitos e forros, entre outras magníficas ornamentações da época de transição do século XVIII para o XIX.

Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional constatou, através da análise de técnicos da 13ª SR, que a Igreja de Nossa Senhora do Carmo necessitava de obras emergenciais de recuperação, tendo em vista o precário estado de conservação do templo, provocado por infiltrações causadas pelas chuvas, ataque de insetos e o excesso de repintura que comprometia a magnitude do templo.

Para esta difícil empreitada, financiada pelo Ministério da Cultura, foi contratada a empresa de restauração Átrio, que ao longo de um ano de execução do projeto, esteve sob a coordenação de um de seus sócios, o restaurador Gilson Felipe Ribeiro.
 
o restaurador Gilson Felipe Ribeiro, responsável pela obra.A comunidade do Serro, ao visitar a igreja ainda em obras, obteve a detalhada orientação do restaurador sobre as distintas etapas do processo de restauro, incluindo a desinfestação, a consolidação, as remoções de repinturas e reintegrações, aplicadas ao longo desse período de incansável trabalho. Um painel explicativo com fotos de antes e depois do processo foi disponibilizado no local, auxiliando na elucidação das dúvidas não só da população local como de turistas e interessados em saber detalhes da minuciosa restauração do templo.

Em visita à cidade, a equipe do Revista Museu teve a oportunidade única de entrevistar o restaurador Gilson Ribeiro, formado em Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais, que num breve bate-papo abriu as portas da Igreja de Nossa Senhora do Carmo e nos explicou sobre aspectos fundamentais para o sucesso do projeto.

RM: Como se desenvolveu a sua formação profissional na área de restauração?

GF: Eu sou formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, com especialização em Escultura, curso que eu finalizei em 1995. Por volta de 1991, quando eu ainda estava estudando, tive contato com o restaurador Carlos Magno de Araújo e comecei a trabalhar com restauração. A partir daí, eu passei a atuar em diversas cidades da região de Minas Gerais, como São João del Rei, Ouro Preto, entre outros locais históricos.

Retirada de chapa galvanizada do forro colocada inadequadamente em intervenções anterioresRetirada de chapa galvanizada do forro colocada inadequadamente em intervenções anteriores

RM: Qual foi o seu primeiro trabalho neste ramo?

GF: O meu primeiro trabalho foi na cidade de Barbacena, especificamente no restauro da Igreja de Nossa Senhora da Piedade. Foi neste momento, ao colocar em prática o meu aprendizado, que eu tomei amor pela restauração. Um outro momento interessante foi quando eu estava restaurando a Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, no Caraça, e tive a sorte de encontrar uma documentação do final do século XVIII que enriquecia a pesquisa do trabalho que estava sendo desenvolvido. Depois desta descoberta, eu mandei fazer um estudo caligráfico que confirmou o período do documento como do final do século XVIII/ início do XIX. Além deste documento, eu também descobri uma imagem de São José de Botas. Estes achados só aguçaram ainda mais a minha curiosidade com relação à profissão.

RM: Que outro projeto interessante você destacaria dentro da sua carreira?

GF: Dando continuidade aos trabalhos, eu aceitei um convite feito pela diretora do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA/MG) à época, sra. Daise Lustosa, para executar um trabalho no Palácio da Liberdade, em 1996. O foco da restauração era o Hall de Entrada do Palácio, que é uma construção feita em imitação de pedra, que copia, de certa forma, a fachada do prédio. Essa foi uma verdadeira 'prova de fogo', já que a reintegração só pode ser feita através da técnica da aspersão, onde eu usei o pincel com uma espátula para realizar o processo. A partir desse trabalho, outras oportunidades passaram a surgir.

Ateliê de restauração montado no interior da igrejaAteliê de restauração montado no interior da igreja

RM: A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, localizada no Serro, em Minas, acaba de ser entregue restaurada à comunidade. Como a sua empresa foi selecionada para este projeto?

GF: Bem, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) enviou uma carta-convite para a nossa empresa com a proposta de realizar a restauração de seis igrejas, que foram escolhidas como prioridade devido ao seu precário estado de conservação. Entre os monumentos, encontravam-se uma igreja em Caeté; a Igreja de Nossa Senhora da Penha, em Vitoriano Veloso; a Igreja comumente conhecida como "Bichinho", próxima a Tiradentes; a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Sabará; uma igreja em Inhaí, próximo a Diamantina; e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, aqui no Serro. Nesta licitação, nós conseguimos pegar a Igreja de Nossa Senhora da Penha e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

RM: Qual foi a origem da verba para o financiamento das obras de restauração do templo?

GF: A verba destinada às obras foi proveniente do governo federal, especificamente do Ministério da Cultura, sendo administrada pelo IPHAN. O valor da restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo envolveu cerca de 800 mil reais, incluindo a parte estrutural. A restauração dos elementos artísticos teve um custo aproximado de 360 mil reais.

RM: Em que estado de conservação você encontrou a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Serro?

GF: Quando eu cheguei na igreja, o templo estava praticamente em estado de calamidade pública. Era realmente uma situação caótica, tanto com relação à parte estrutural como à parte de elementos artísticos. Para se ter uma idéia, o telhado teve que ser totalmente refeito. As bicas foram trocadas, podendo ser aproveitadas apenas as capas, por serem antigas, e também para não descaracterizar o monumento. A fachada foi praticamente demolida, já que parte da madeira que compunha a amarração estava toda comprometida pelo ataque de cupins, um problema crônico nesta região.

Mísulas do altar-mor antes e após a intervençãoMísulas do altar-mor antes e após a intervenção

RM: Como se desenvolveu a restauração referente aos elementos artísticos?

GF: Além do ataque de cupins, que foi realmente avassalador, comprometendo o altar-mor, o forro, as ilhargas, entre outros elementos, é importante destacar os problemas com as infiltrações causadas pela águas pluviais e com o excesso de intervenções anteriores (as repinturas). Apenas para citar como exemplo, algumas das consolidações realizadas anteriormente foram fixadas com folhas de eucatex, sendo também constatado o uso de lâminas de chapa galvanizada.

RM: Diante deste contexto, como se desenrolaram as diversas fases do projeto?

GF: A primeira providência dentro da fase inicial foi o desmonte do forro, a fim de realizar a higienização e a descupinização, já que ele estava muito comprometido. Simultaneamente a esta fase, eu fui fazendo um trabalho de prospecção, ou seja, testes para saber se havia pintura sob a parte visível, bem como a qualidade desta pintura e a possibilidade de remoção. A partir deste momento, eu constatei que era possível fazer a remoção e que o templo era muito mais rico do que se apresentava naquele instante. Eu tive então certeza que a execução do restauro iria mostrar a qualidade superior do trabalho desenvolvido no século XVIII. Na verdade, tudo que havia sido repintado na igreja se apresentava de forma deformada, modificando inclusive as feições dos santos representados, que estavam sendo expostos quase de forma fantasmagórica.

RM: De que maneira você solucionou a questão do acréscimo de trabalho ao projeto de restauração original?

GF: Bem, diante deste novo quadro, nós entramos em contato com o restaurador da 13ª Subregional do IPHAN, Antonio Fernando dos Santos, para que ele viesse ao Serro ver a situação real em que se encontrava o templo. Na visita, eu tive a oportunidade de mostrar a possibilidade de remoção de praticamente 100% da repintura existente no interior da igreja. Com isso, foi feita a reorganização da verba, possibilitando a restauração da capela-mor em sua totalidade. Com o avanço dos trabalhos, nós pudemos recuperar, por exemplo, o tom azul do fundo das nuvens do forro, o tom original das asas dos anjos, entre outros detalhes, demonstrando a leveza da obra original. Agora, com as pinturas restauradas, pode-se visualizar a harmonia do conjunto, inclusive com as rocalhas, que não haviam sido repintadas.

Forro da capela-mor | Detalhe do rosto de N.Sª do Carmo do forro da capela-mor em processo de remoção de repinturaForro da capela-mor.
Detalhe do rosto de N.Sª do Carmo do forro da capela-mor em processo de remoção de repintura.

RM: O que chamava mais a atenção nas repinturas encontradas no templo?

GF: Só para exemplificar, os óculos estavam repintados de roxo e as cimalhas em azul claro, próximo a um tom lilás. Com o trabalho de restauração, as cimalhas revelaram os tons originais, em azul, bege e vermelho. No caso do arco do cruzeiro, eu tive certeza que ele era marmorizado, já que a parte superior havia sido poupada na repintura. O altar-mor era branco, ficando bege após a remoção. O trono estava repintado de cinza, quando o original mostrava um marmorizado em azul e cinza. O forro do camarim demonstrava até uma certa integração com relação ao Divino, mas também estava repintado. Outro detalhe importante que pode ser destacado é com relação à junção do forro com as cimalhas, onde foi constatado que havia uma cimalha pintada na tentativa de imitar a cimalha do altar-mor. Com a remoção, o resultado permitiu uma real integração com o altar.

RM: Você optou pela não intervenção em alguma parte da igreja?

GF: Nos altares laterais também havia repintura, assim como na parede, acima da cimalha e no coroamento do fundo do altar. Nestes casos específicos, em função do curto prazo e da fragmentação destas repinturas, nós optamos em não reconstituí-las, já que a restauração poderia provocar um descolamento do original.

RM: Houve alguma grande surpresa nesta restauração?

GF: Sim. Durante o processo de restauro a grande surpresa foi a nave. A previsão era que fosse realizada a substituição do forro pintado de branco por um forro novo. Entretanto, em função da minha curiosidade e após conversar com o técnico do IPHAN, eu decidi realizar novas prospecções. Desta vez, as prospecções foram voltadas para a nave e para a cimalha, o que acabou levando à descoberta de uma pintura até então desconhecida pela comunidade local. Apesar de não saber se a pintura estava íntegra por baixo, a partir desse momento, o forro foi desmontado, higienizado e acondicionado, uma vez que não havia previsão de verba especificamente para este trabalho.

Aspecto do painel repintado da capela-mor, antes e depois do restauroÁ esquerda, aspecto do painel repintado da capela-mor (antes do restauro).
À direita, aspecto do mesmo painel com cordeiro aparente, não identificado antes em função de repinturas.

RM: Qual foi a relação comunidade-restauração ao longo deste ano de trabalho em uma das igrejas mais importantes da cidade?

GF: Essa relação foi impressionante. Mesmo sem ter o tempo que eu gostaria para me dedicar à comunidade, principalmente pelo fato de estar dando atenção a duas firmas, tanto a de restauração como a de engenharia, eu consegui receber as pessoas da comunidade, turistas que visitavam a cidade e alunos de colégios de Belo Horizonte e de Curvelo (na medida do possível, é claro). É bem verdade que nem a própria comunidade sabia que a igreja era tão rica em seus detalhes, tendo a oportunidade, com o processo de restauração, de visualizar a beleza original do templo que a repintura escondeu por tanto anos.

RM: O que mais chamava a atenção dos visitantes?

GF: Um dos aspectos que chamavam mais a atenção do público era um dos painéis em que apareciam três personagens contemplando um fogo, havendo apenas a referência de que era uma cena bíblica. Quando eu fiz a remoção da repintura no local do fogo representado, surgiu um cordeiro, gerando uma releitura desta antiga cena representada, que certamente será objeto de pesquisas futuras. As diferenças são tão marcantes, que até mesmo um fotógrafo da comunidade, que havia entrado na igreja no início da restauração e depois ao final do trabalho, veio me perguntar se eu tinha repintado toda a igreja.

RM: A partir de agora, como você acha que a comunidade vai reagir com relação ao patrimônio cultural da cidade?

GF: Eu acredito que a partir agora, a comunidade vai passar a valorizar o que eles têm de mais rico na cidade, que certamente são suas igrejas e casarios, passando até mesmo a ver o patrimônio com outros olhos. Eu tive a preocupação inclusive de contratar algumas pessoas da comunidade justamente para fazer um trabalho de educação patrimonial. Eu procurei mostrar a eles como lidar com os monumentos, assim como a possibilidade de recuperação deste patrimônio, destacando que nada se perde.

Detalhes do painel antes e depois da restauraçãoDetalhes do painel antes e depois da restauração

RM: Que projetos de restauração da firma estão previstos para 2005?

GF: Por enquanto, um dos projetos, que teve início ainda no ano passado, está ligado à Secretaria de Obras do Estado de Minas Gerais, na Praça da Liberdade, dirigido por um dos sócios da firma, o restaurador Edmilson Barreto Marques. Outro projeto que já se encontra em fase de execução é a restauração de dois altares pertencentes ao acervo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, que está sob a orientação do outro sócio, Carlos Magno de Araújo.

Aspecto do altar de celebração após a intervençãoAspecto do altar de celebração antes e após a intervenção


Nota do Editor - esse artigo teve 13.367 acessos desde sua publicação original em 11/03/2005 até 17/05/2016. Está publicado na versão acima a partir de 26/01/2022.

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30