Expo Modernidades Emancipadas, Danielian Galeria, RJ

Com 80 obras de 38 artistas brasileiros ou radicados no Brasil, a exposição “Modernidades Emancipadas”, na Danielian Galeria a partir do dia 7 de julho de 2022, propõe uma reflexão crítica e expandida sobre a ideia de modernidade, à luz do contexto sociopolítico e econômico que atravessa o período de meados do século 19 até a primeira metade do século 20.

Um século após a Semana de Arte Moderna de 1922, os curadores Marcus de Lontra Costa e Rafael Fortes Peixoto propõem um olhar ampliado, a partir da ideia do modernismo como um “movimento amplo de transformação política, social, cultural e econômica, e observando como esses vetores influenciam na produção artística brasileira para além do que apresenta a história da arte brasileira tradicional”.

O percurso da exposição, que ocupará os dois andares de espaços expositivos da galeria, tem um sentido cronológico, e as obras, produzidas entre a metade do século 19 até os anos 1960, se articularão em quatro eixos centrais: “A paisagem como transformação”; “O ser moderno – uma estética identitária”; “Modernidade em construção” e “Territórios de Re-existência”.

Gustavo Dall’ara (1865-1923) - A Glória – Rio de Janeiro - 1906 - óleo sobre tela - acid e datado - 38x61cmGustavo Dall’ara (1865-1923) - A Glória – Rio de Janeiro - 1906 - óleo sobre tela - acid e datado - 38x61cm

Cada um desses núcleos será acompanhado de textos curatoriais na parede, além de comentários críticos e contextualizações históricas, para “estimular a reflexão do público dessa exposição que propõe o alargamento das noções tradicionais de modernidade na arte brasileira”.

1 - A Paisagem como Transformação [24 obras]

A partir das revoluções industriais ao longo do século 19 e do advento tecnológico da fotografia, surge a necessidade de construir novas relações com a representação da paisagem. Tanto os movimentos naturalistas quanto as pesquisas impressionistas denotam um processo de observação direta da natureza em contraponto à pintura realizada dentro de ateliês.

Antônio Parreiras (1860-1937) - Sertanejas - 1916 - Óleo Sobre Tela - Acid e Datado - 63x113cmAntônio Parreiras (1860-1937) - Sertanejas - 1916 - óleo sobre tela - acid e datado - 63x113cm

Essa transformação reflete uma busca pela experimentação em detrimento aos cânones da tradição e da formalização. Essa liberdade criativa e busca por uma compreensão mais ampla sobre nosso lugar nesse novo mundo são marcas desse indivíduo moderno que passa a se constituir. No Brasil, destacam-se as experiências do Grupo Grimm (1884-1886) em que jovens artistas se reuniam para pintar ao ar livre sob a orientação do pintor naturalista alemão Georg Grimm (1846-1887).

Belmiro de Almeida (1858-1935) - Parque Do Castello Do Duque De Luynes, dampierre - óleo sobre tela colado em madeira - 1921 - 54x72cmBelmiro de Almeida (1858-1935) - Parque do Castello do Duque de Luynes, dampierre - óleo sobre tela colado em madeira - 1921 - 54x72cm

Além disso, as transformações que acontecem no ensino das artes depois da Proclamação da República, em 1889, permitem que diversos artistas tenham contato com as vanguardas europeias e tragam consigo esse olhar mais amplo para a paisagem, com destaque para grande influência da investigação de cores e luzes que caracteriza os movimentos impressionistas.

Henrique Bernardelli (1858-1936) - A Messalina Ou Dicteríade - 1870/1880 - óleo sobre tela - acie datado e localizado - 207x115cm2 - O Ser Moderno – uma estética identitária

As profundas transformações nas estruturas sociais, políticas e econômicas da era moderna têm como personagem principal a classe burguesa. A partir de uma lógica de produtividade, o capital financeiro passa a ser o elemento de qualificação dos indivíduos, e a burguesia ocupa os espaços que antes pertenciam ao clero e à nobreza.

Para reafirmar essa nova posição social, era necessária a criação de uma imagem pública. Nessas obras, que decoravam as casas e palacetes do período, está representado o luxo e a sofisticação de uma classe emergente.

No cenário brasileiro, essa reafirmação torna-se ainda mais iminente em função do fim da monarquia. Identificadas como um realismo burguês, essas pinturas refletem um estilo de vida urbano, caracterizado pelo“gosto”como sentimento estético de sofisticação.

São pinturas de cavalete que retratam cenas interiores e cotidianas de uma família burguesa. Além disso, o interesse pelo “exotismo” de diferentes culturas constitui também um dos elementos que definem esse gosto burguês.

Georgina de Albuquerque - Mulher Com Hortênsias | Arthur Timótheo da Costa - Figura De MeninoGeorgina de Albuquerque (1885-1962) - Mulher com Hortênsias - óleo sobre tela - acid - 71x54cm.
Arthur Timótheo da Costa (1882-1922) - Figura de Menino - óleo sobre cartão - acid - 40x33cm.

Para além das implicações políticas e sociológicas, essas movimentações refletem de maneira mais ampla a busca por um sentimento de pertencimento e de identidade.

3 - A Modernidade em Construção

As metrópoles são a construção material de toda a complexidade moderna. Em seus espaços se estabelecem fisicamente as dinâmicas de poder, de pertencimento e de identidade que constituem uma forma de viver moderna.

Nesse eixo curatorial, articulamos três olhares a partir de uma ideia de construção direcionada, tanto no que diz respeito à construção civil como à organização de um discurso estético de identidade.

Cicero Dias (1907-2003) - sem título - 1928 - óleo sobre tela - acie e datado - 67x150cmCicero Dias (1907-2003) - sem título - 1928 - óleo sobre tela - acie e datado - 67x150cm

Na primeira delas, pontuamos de maneira livre as utopias e distopias que permeiam a virada do século 20. No cenário internacional, um otimismo libertário depara com o horror de duas guerras mundiais. No Brasil, de mãos dadas com a esperança ufanista de uma sociedade democrática, andam experiências que tomam para si a construção de uma ideia de nação, mas que hoje com o afastamento histórico, trazem as marcas indeléveis de princípios totalitaristas.

Anita Malfatti - Namorados | Candido Portinari - Orfão - Painel Guerra e PazAnita Malfatti (1889-1964) - Namorados - óleo sobre madeira - acid - 21,5x18,5cm
Candido Portinari (1903-1962) - Orfão - Painel Guerra e Paz - c.1955 - óleo sobre tela - acid - 100x80cm

Essa modernidade planejada torna-se real através de inúmeros projetos urbanísticos que transformam a aparência e o estilo de vida dos habitantes da cidade. Esse novo traçado que incorpora um conceito de arte aplicada à rotina, influenciado pelos movimentos do art nouveau e do art déco europeus, busca aproximar, no caso brasileiro, suas grandes cidades de um padrão estético que refletia o desenvolvimento de um país. Como contradição e resultado de um projeto verticalizado de cidade, a grande maioria do contingente populacionalnão se vê englobada nessa “modernização” da cidade, sendo empurrada, literalmente para zonas periféricas, construindo uma lógica moderna própria de existência nesses novos espaços urbanos, como veremos no quarto eixo curatorial.

 Vicente do Rego Monteiro - Cambiteiro | Emiliano Di Cavalcanti - PescadoresVicente do Rego Monteiro (1899-1970) - Cambiteiro - c. 1936 - óleo sobre seda - acid - 57x70cm
Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976) - Pescadores - 1930 - óleo sobre tela - acid - 61x85cm

Mas se nas reformas urbanas essa realidade foi excluída, num projeto de reformulação artística ela teve papel de personagem central. A Semana de Arte Moderna de 1922 e a publicação do Manifesto Antropofágico, em 1929, são duas ações icônicas que demonstram o corte histórico pretendido por esses artistas e a apropriação que fazem do termo “moderno” para definir suas produções. Com a intenção de criar uma arte essencialmente brasileira, que refletisse e representasse a nossa pluralidade, os artistas modernistas se debruçam sobre as práticas desses grupos sociais excluídos como tema de suas pinturas. Se por um aspecto histórico, esse tipo de movimento ecoa visões eurocêntricas e trazem no seu cerne ideológico um princípio totalitarista, é inegável que a abertura temática que representam tem importância fundamental para as transformações que acontecem ainda hoje na realização artística brasileira.

 Emiliano Di Cavalcanti - Ícaro | J. Carlos - Recebe o afeto que se encerra – Ordem e ProgressoEmiliano Di Cavalcanti (1897-1976) - Ícaro – Ilustração Para a capa da Revista América Ilustrada - Nanquim sobre Papel - Acie - 22x19cm
J. Carlos (1884-1950) - Recebe o afeto que se encerra – Ordem e Progresso - Acid - 40x33cm

4 - Territórios de re-Existência

Nessa reflexão que propõe uma emancipação dos conceitos canônicos de modernidade é fundamental direcionarmos também o nosso olhar para formas de viver e conviver que ficaram obliteradas pelos discursos hegemônicos que escreveram a história oficial. A experiência moderna é muito mais ampla e complexa do que pretenderam os projetos e projeções em seu nome.

No caso brasileiro, o contexto sociopolítico do final do século 19 se transforma drasticamente. As mudanças na forma de governo, ao mesmo tempo que alteram o sistema econômico e administrativo, permanecem atendendo aos interesses particulares de elites agrárias e urbanas que ocupam o vértice da pirâmide social das estruturas capitalistas. Na base, um enorme contingente populacional se vê desassistido por uma abolição da escravatura feita sem nenhum projeto social que a fizesse acontecer de fato.

Lasar Segall - Favela | Heitor dos Prazeres - MacumbaLasar Segall (1889-1957) - Favela - 1957 - óleo sobre tela - assinado no verso - 130x90cm
Heitor dos Prazeres (1898-1966) - Macumba - década de 1960 - nanquim e guache sobre cartão - acid - 29x22cm

Na prática, empurrados para a margem de um ideal moderno, essas pessoas desenvolveram suas formas de existir, e resistir, nessa modernidade. Em contraponto às lógicas individualistas de acúmulo de bens e propriedades, essas experiências eclodem em manifestações de agrupamentos e socializações que trazem um conceito de comunidade, que vem sendo observado sociologicamente nos últimos 20 anos.

Nesse período acontece a formação das primeiras favelas, a criação das Escolas de Samba, a relativa aceitação social dos terreiros de Candomblé e de Umbanda, a gradual descriminalização da Capoeira, a organização político-econômica em torno do Jogo do Bicho, assim como várias outras expressões que afirmam a ideia de reunir para resistir.

Heitor dos Prazeres - Samba na Favela | Chico da Silva - sem títuloHeitor dos Prazeres (1898-1966) - Samba na Favela - 1964 - óleo sobre tela - acid e datado - 80x100cm
Chico da Silva (1910-1985) - sem título - guache sobre papel - acid - 60x82cm

Para esse eixo curatorial da exposição traremos produções artísticas obliteradas que encontraram, dentro dos desafios de uma sociedade desigual, formas de se manifestarem artisticamente como sujeitos de seu tempo. Deslocando-os das chancelas de populares ou naïfs, encaramos sua produção como expressão de uma modernidade que vem sendo ignorada pela historiografia tradicional.

Além disso, traremos também um painel histórico, com materiais documentais como revistas de época, vinis e fotos rastreadas de personalidades que ilustram por sua trajetória a pluralidade de individualidades que constroem essa ideia de comunidade que parece ser um dos caminhos fundamentais para entendermos a nossa sociedade contemporânea.

Parte documental com fotografias, revistas, capas de lps de:

Mestre Pastinha (1889-1981), Maria Carolina de Jesus (1914-1977), Grande Otelo (1915-1993), Natal da Portela (1905-1975), Ismael Silva (1905-1978), Joãozinho da Gomeia (1914-1971), Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), Bide (1902-1975), Ze Kéti (1921-1999), Mãe Senhora, Mestre Bimba, Mercedes Baptista, Mano Elói, Maria Firmino dos Reis, Lima Barreto, Machado de Assis, João do Rio, Antônio Conselheiro, Lampião, Maria Bonita, Tia Ciata (1854-1924), João Candido (1880-1969), Benjamin de Oliveira (1870-1954), Hermenegildo de Barros (1866-1955), José Ezelino da Costa (1889-1952), Juliano Moreira (1873-1933), Mãe Biú (1914-1993), Mario de Andrade, Solano Trindade, Tata Tancredo, Tia Maria do Jongo.

Ismael Nery - Sem Título ; Mestre Vitalino - advogado; Victor Brecheret - Torso FemininoIsmael Nery (1900-1934) - Sem Título - Nanquim e Guache Sobre Papel Acid - 23x16cm.
Mestre Vitalino - advogado - escultura em barro cozido e esmaltado.
Victor Brecheret (1894-1955) - Torso Feminino - gesso - 80x22x20cm.

Serviço

Exposição “Modernidades Emancipadas”
Danielian Galeria, Gávea, Rio de Janeiro
Abertura: 7 de julho de 2022, das 18h às 20h
Até 13 de agosto de 2022
Entrada gratuita
Rua Major Rubens Vaz, 414, Gávea, Rio de Janeiro, CEP 22470-070
Segunda a sexta-feira, de 11 às 19h
Telefones: +5521.2522.4796 +5521.98830.3525
Email:Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
https://www.danielian.com.br/
https://www.instagram.com/danielian_galeria/

 

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