RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - A pandemia provocada pelo novo coronavírus colocou o mundo em compasso de espera, enquanto cientistas se debruçam em seus laboratórios em busca de uma vacina ou, na impossibilidade desta, um tratamento, que, a exemplo da Aids, seja capaz de vencer o vírus em sua letalidade.


'Comunicação assíncrona' é a palavra da moda na Educação a Distância, em que se privilegia a flexibilidade no horário e na execução de tarefas (Foto: Tumisu/Pixabay)

No ensino, com a adaptação das aulas, um dos primeiros argumentos de acadêmicos que trabalham com Ensino a Distância (EaD) foi procurar diferenciar a adaptação do ensino presencial para as telas de computador, chamado de ensino remoto, das propostas de EaD. “Temos que salientar que esta modalidade remota surgiu em função das circunstâncias, ou seja, da necessidade de se manter as atividades de ensino e não se interromper totalmente o ano letivo nas instituições que trabalham na modalidade presencial e que no momento estão impossibilidades de realizar atividades presenciais. Entende-se, portanto, que a modalidade remota terá um tempo de duração restrito, ou seja, enquanto durar a pandemia”, explica o vice-presidente da Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj), Glaucio Marafon.

Coordenadora do Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GPDOC) – originalmente criado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) –, Edméa Oliveira Santos lembra que a modalidade a distância não é novidade e que o uso de correspondência postal e do rádio já foram muito usados no passado e defende que, agora, passamos para uma modalidade específica de EaD, a “Educação Online”. “Com o avanço das linguagens e dos meios, o texto escrito e o material impresso dialogaram também com as imagens e os áudios. Então, na EaD clássica, usa-se meios impressos e audiovisualidades. A Educação Online é um fenômeno da cibercultura, em que podemos trabalhar com a comunicação assíncrona, mediada em tempos diferentes e que permite escrever textos mais elaborados”, defende.

Para ambos os pesquisadores, a resistência ao modelo de EaD por parte dos docentes se deve ao desconhecimento do uso de plataformas que permitem uma variedade de recursos para utilização em sala de aula que vão muito além das lives, apesar de sua importância em promover a alegria dos encontros e sobretudo o prazer do aprender no “estar junto virtual”. “Os chats das lives são verdadeiros encontros de amigos geograficamente dispersos”, comenta Edméa em balanço sobre as lives das quais participou. Atualmente ela é professora do Instituto de Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), mas que por 13 anos foi docente na Uerj e financiada pelo programa ProCiência, um programa de parceria entre Uerj e FAPERJ.

No entanto, manter-se conectado e atento por tanto tempo não é uma tarefa simples, lembra Marafon. “Os limites das aulas remotas estão em manter o aluno interagindo com os temas trabalhados, em despertar seu interesse, e também em assegurar que todos os alunos efetivamente tenham acesso a essas aulas”, diz o pesquisador do Instituto de Geografia da Uerj, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado.

Para o geógrafo, a manutenção das aulas não se restringe ao aspecto didático, mas à dificuldade no acesso a equipamentos e a uma boa conexão digital para acompanhar as aulas. Esses foram empecilhos identificados pelas universidades e que, em alguns casos, resultaram em programas de incentivo à compra de equipamentos. Outra resistência comum ao EaD, de acordo com Edméa, é a preocupação de que signifique a precarização do ensino e do trabalho dos professores.

“A EaD tem sido entendida como um eufemismo para precarização do ensino, fechamento dos espaços públicos e diminuição na contratação de professores. No entanto, se nada for feito com mediação tecnológica, voltaremos apenas após a vacina. Acredito que devemos nos inspirar em boas práticas e na criação de possibilidades interativas, intertextuais e que lancem mão da tecnologia para, quando a pandemia passar, retomar com salas de aulas presenciais mais híbridas, que dialoguem mais com as tecnologias existentes”, argumenta Edméa. A educadora lembra também que a universidade se caracteriza pelos pilares de ensino, pesquisa e extensão e que o EaD funciona apenas para lidar com ensino e não diminui a importância da convivência do ensino presencial. Tanto a UFRRJ quanto o Cecierj estão com aulas de didática relacionadas ao EaD disponíveis para oferecer opções aos professores.

Entre 2014 e 2016, Glaucio Marafon conduziu um estudo comparativo entre a formação de professores de Geografia nas modalidades à distância e presencial, financiando pela FAPERJ. A partir dessa pesquisa, o professor entende que não há diferença de conteúdo entre os cursos. “Atualmente o curso de Geografia está presente em oito polos do Cecierj e o aluno recebe os conteúdos, via plataforma, e vai dirimindo suas dúvidas, com suporte dos mediadores presenciais nos polos, e com os mediadores a distância e professores, na plataforma através de fóruns, videoaulas etc. As atividades práticas são mantidas, como a realização de trabalhos de campo e visitas técnicas, para complementação dos temas abordados, nas aulas. Acreditamos que o curso, na modalidade semipresencial, mantém a qualidade e colabora para a formação de professores de Geografia para a educação básica”, diz. Para além do conteúdo, ele tem conduzido pesquisas para incorporar novas formas de aprendizagem a partir das mediações tecnológicas e com foco na interatividade, como o uso de games.

De acordo com Edméa Santos, a interatividade e a capacidade de cocriação dos conteúdos ministrados a partir das tecnologias existentes caracterizam a Educação Online, termo que ela prefere utilizar, como um desdobramento da Cibercultura, que tem como característica marcante o lema do “faça você mesmo”. Por isso, a pesquisadora critica a ideia de que a simples utilização da tecnologia levaria a interatividade. "Não há interatividade no ambiente virtual se os sujeitos da comunicação não se autorizarem. Portanto, para que haja interatividade, não basta apenas disponibilizar as interfaces. Mais do que isso, é preciso que os sujeitos comuniquem de fato", escreve em artigo publicado em 2009. Outra característica, que na visão da pesquisadora deveria ser mais bem explorada, é a comunicação assíncrona, já que uma das características dessa modalidade de ensino é flexibilidade de tempo e espaço para o acesso e interação com os conteúdos.

Fonte: FAPERJ - Juliana Passos

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