BRASIL, Brasília - Os participantes do Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros da Biblioteca Nacional estão realizando um mergulho na obra de escritores nacionais, contribuindo para divulgar a cultura brasileira no exterior.

A italiana Jéssica Falconi está traduzindo Hotel Atlântico, do escritor João Gilberto Noll; a estoniana Mele Pesti, Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera; o grego Nikolaos Pratsinis, Amar, verbo intransitivo, de Mario de Andrade; e a argentina Teresa Arijón, Línea de tiempo, seleção de ensaios de Heloisa Buarque de Hollanda.

Durante o programa de residência, realizado em abril e início de maio, os tradutores cumpriram um roteiro de pesquisa e trabalho e participaram de atividades promovidas pela biblioteca, em colaboração com instituições como Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária, da Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entre outras.




Para a italiana Jéssica Falconi, o programa de tradução foi uma experiência única de troca, diálogo e conhecimento. "Estou muito satisfeita, mostrei meu trabalho em vários lugares, onde fui muito bem recebida. Os encontros dos quais participei foram todos de alto nível. Do ponto de vista prático, consegui resolver muitas dúvidas linguísticas e culturais, conheci um pouco melhor a obra do escritor Noll e o seu universo de referências", ressalta a tradutora.

O escritor João Gilberto Noll, cinco vezes vencedor do Prêmio Jabuti, faleceu em março deste ano. Mesmo abalada, Jéssica não desistiu de continuar o trabalho de tradução. Por enquanto, só existem duas obras de Noll traduzidas na Itália: O cego e a dançarina e A céu aberto. O livro Hotel Atlântico será o terceiro livro do autor a ser traduzido no país.

"Eu tinha combinado de me encontrar com ele. Sinto que perdi uma grande oportunidade de conhecer um escritor ímpar da literatura, não só brasileira. Noll nos deixou, mas a sua obra continua, e esta tradução é uma pequena contribuição para a sua eternidade", destaca.
 
De acordo com a tradutora, o livro Hotel Atlântico é uma obra muito intensa, escrita numa prosa empolgante e densa, cheia de musicalidade, de oscilações entre linguagem culta e linguagem popular.

"Há muitas referências culturais e geográficas que remetem para o Brasil, mas ao mesmo tempo é uma obra global, que fala da nossa condição humana. Acho que vale a pena traduzi-la na minha língua e para o público do meu país", destaca Jéssica.

A estoniana Mele Pesti, dedicada ao trabalho de tradução de Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, teve oportunidade de conhecer o ambiente onde o livro foi escrito.

A estoniana Mele Pesti está traduzindo 'Barba Ensopada de Sangue', de Daniel Galera (Foto: Acervo pessoal)

"Estive em Garopaba, em Santa Catarina, e foi uma experiência muito intensa. Ver o mundo do mesmo ponto geográfico que o autor ajuda muito no processo do ajustamento da perspectiva, algo que uma boa tradução certamente precisa. Para mim, me parece muito interessante que um livro tão fortemente ambientado numa pequena cidade brasileira traga temas que são relevantes na Estônia, do outro lado mundo. As escolhas difíceis dos jovens de hoje entre a metrópole ou a vida mais perto da natureza e o contraste entre a vida num lugar turístico na temporada baixa e alta são temas globais", explica a tradutora.

A publicação da tradução do livro na Estônia está prevista para setembro deste ano. De acordo com Mele, ainda não existe nenhuma tradução de Daniel Galera no país. "Entre os anos de 1990 e 2010, traduziram só 12 livros brasileiros na Estônia, todos de Paulo Coelho. Hoje, já temos um pouco mais de variedade, mas ainda podemos divulgar muito mais a literatura brasileira", observa a tradutora.

O grego Nikos Pratsinis está traduzindo Amar, verbo intransitivo, de Mario de Andrade, e ressalta a importância do programa para divulgar a literatura brasileira no exterior. Segundo ele, não existe ainda nenhuma tradução de Mario de Andrade na Grécia.

"A importância é grande e tem efeitos multiplicadores: vou sair do país com três ou quatro projetos (sό por agora) de tradução para propor aos editores da Grécia. Devo isso aos contatos com os colegas, com os professores e com outras pessoas que conheci no Brasil. Νão se pode conhecer bem a literatura – e não falo sό da atual – de um país sem ter conhecido próprio país de perto", destaca.

Pratsinis conta que a ideia de traduzir o livro de Mario de Andrade surgiu a partir de uma palestra que ele e uma brasileira – professora de português na Grécia – fizeram sobre o Movimento Modernista brasileiro. Um editor na plateia gostou tanto que propôs o projeto. O tradutor já traduziu obras dos portugueses Eça de Queiroz e Nuno Júdice e de Machado de Assis, entre outros escritores brasileiros.

Já Teresa Arijón, que está traduzindo Línea de tiempo, seleção de ensaios de Heloisa Buarque de Hollanda, conta que é a segunda vez que participa do programa promovido pela Biblioteca Nacional. A primeira foi em 2013, com a tradução de A Obscena Senhora D, da escritora Hilda Hilst.

"Eu sempre vou escolher a Biblioteca Nacional porque é uma instituição muito generosa e criativa, que vem fazendo um excelente trabalho na difusão da literatura brasileira. Acho o programa ótimo, muito enriquecedor. Meu trabalho como tradutora é uma aprendizagem cotidiana: estando aqui no Rio, a cidade mais amada do mundo para mim, cada dia eu conheço e incorporo novas palavras, expressões e ideias", ressalta a tradutora, que está trabalhando direto com Heloisa Buarque de Hollanda na tradução dos ensaios, publicados na Argentina pela primeira vez em formato livro.

Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil
O Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil visa difundir a cultura e a literatura brasileiras no exterior, por meio da concessão de bolsas a tradutores estrangeiros para apoiar o custeio de períodos de residência no Brasil.

As bolsas destinam-se a tradutores profissionais estrangeiros que estejam traduzindo do português para qualquer outro idioma uma obra literária brasileira, publicada previamente no Brasil, e que já possuam um contrato editorial para a tradução.

Durante a residência, cada tradutor participa de uma programação desenvolvida a partir do projeto de tradução e elaborada pela FBN em parceria com centros de estudos de tradução, universidades e instituições culturais. A agenda pode incluir a participação em debates com autores, tradutores e outros interlocutores, além de oficinas de tradução e visitas a instituições culturais.

Fonte: MinC - Alessandra de Paula

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